A Arte da Vida Leiga (Parte VI)

A maior parte dos ensinamentos do Buda foi dada a monásticos. Mas e quanto aos praticantes leigos? Nessa série de estudos que o blog Budismo & Sociedade está publicando semanalmente, o Bhikkhu Cintita Dinsmore discorre sobre a arte de viver do budista leigo. Nesse sexto de dez capítulos, o autor chama a atenção para o papel que a mídia (TV, internet, etc) tem sobre nossas vidas. Ser budista inclui saber lidar com a mídia de maneira muito sábia e produtiva.

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De Bhikkhu Cintita Dinsmore

Arte da Vida Leiga VI: Rejeitando Elementos (cont.)

Na semana passada, consideramos os preceitos e o modo de vida correto, ambos os quais nos aconselham a não se envolver com certos comportamentos, primeiramente devido a considerações éticas. Nós vimos que o significado de modo de vida correto é que nosso modo de vida tende a nos prender em certos comportamentos pelos quais colhemos as consequências cármicas, ou seja, nossos modos de vida moldam nosso caráter, assim como nossa prática budista. O modo de vida correto assegura que essas duas coisas não se oponham.

Isso levanta um questionamento: Existe modo de vida correto nos EUA hoje? Mesmo um caixa no Wallmart precisará vender pesticida e cachaça. A propaganda em geral viola a linguagem correta, assim como as vendas, que incluem maquinação, convencimento, insinuação, dissimulação e indução de pessoas para que comprem coisas que não precisam com dinheiro que não têm. Muito da indústria financeira… bem, disso vocês já sabem. Na verdade, muito na nossa economia moderna mais do que nunca recai no procedimento de “criação de riqueza”, o que aparentemente não envolve a produção de nenhum produto ou serviço tangível que seja. Parece-me que a criação de riqueza sem a criação de produtos ou serviços tangíveis só pode ser redistribuição da riqueza, uma vez que não aumenta o bolo, mas garante aos investidores uma fatia maior. Instrumentos financeiros são tão complexos que é difícil avaliar como funcionam e com quais consequências; a Mão Invisível está jogando o jogo dos copos. Muito lucro onde há um produto ou serviço parece provir de monopólios ou cartéis que aumentam os preços, ou através da enganação de consumidores ou da furtiva inserção de letras miúdas nos contratos. As corporações se tornaram muito adeptas da externalização de custos de modo que outros acabam pagando muito do custo da produção contra sua vontade, como, por exemplo, pagadores de impostos ou proprietários de corpos vulneráveis às toxinas ambientais. Houve um tempo em que era um ultraje moral lucrar da guerra enquanto outros morrem lutando. Hoje o lucro em si é razão o suficiente para entrar em guerra. Muito disso é claramente pegar o que não foi dado por outros. A maioria dos fazendeiros lida com uma quantidade de venenos tão grande que algo nobre como produzir um tomate tem um preço pago pelo ambiente e saúde pública… Em resumo, encontrar um modo de vida adequado não é uma questão simples na economia contemporânea. Talvez as profissões mais tradicionais, tais como fabricante de velas, sapateiro ou pedreiro, sejam as menos problemáticas. Por favor, considere seu modo de vida com cuidado e quais preceitos você possa estar habitualmente ignorando ao exercê-la. As opções são particularmente reduzidas nessa economia depressiva. Mas o que você faz para viver faz uma grande diferença na sua prática budista.

Para além do modo de vida há hábitos que deveriam ser evitados numa vida budista porque tendem a se opor ao bem-estar próprio e da família, seja física ou mentalmente. No recomendável Siṅgāla Sutta (DN31, disponível em: http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN31.php), o Buda identifica os “seis caminhos da dissipação da fortuna”. São os seguintes:

“Entregar-se a substâncias embriagantes que causam a paixão cega e a negligência;

vaguear pelas ruas em horas inadequadas;

frequentar espetáculos públicos;

entregar-se ao jogo;

associar-se a más companhias;

o hábito da indolência.”

Se vaguear pelas ruas em horários inadequados, por exemplo, está na sua lista de valores que você gostaria de manter em sua vida leiga, o Buda recomenda que você repense isso. Para cada um desses seis caminhos, ele lista as desvantagens específicas. Para o vagabundo, por exemplo, são as seguintes:

 

“Ele está desprotegido e desguardado,

sua mulher e filhos estão desprotegidos e desguardados,

seu patrimônio está desprotegido e desguardado,

ele é suspeito de crimes,

ele é vítima de rumores falsos,

ele enfrenta todo tipo de problemas.”

 

Muitos dos seis canais de dissipação da riqueza serão conhecidos por nós como distrações de uma vida responsável. Permita que eu destaque os espetáculos teatrais, uma vez que os equivalentes modernos são tão proeminentes em nossa cultura.

 

“Existem esses seis perigos por frequentar espetáculos públicos. Ele sempre está pensando:

Onde está a dança?

Onde estão cantando?

Onde está a música?

Onde está a recitação?

Onde estão os tambores?

Onde estão batendo palmas?”

 

Isso não parece envolver nenhum perigo físico. Ao invés disso, envolve insatisfação, inquietação e distração, manifestações da mente desejosa. Estamos sempre pensando as mesmas coisas com os hábitos modernos de assistir TV e navegar na internet, apesar da arte de bater palmas estar atualmente num infeliz estado de abandono. Em resumo, um número de hábitos comuns que deveriam ser evitados pelo leigo como uma questão de proteção mental.

Eu gostaria de considerar o papel da mídia moderna – TV, rádio, internet, CDs, filmes, videogames, revistas, etc. – nisso tudo. A mídia, desconhecida no tempo do Buda, é tão onipresente em nossa cultura que rivaliza com o modo de vida. A mídia, portanto, precisa ser cuidadosamente considerada, primeiramente com o intuito de proteger a mente. Thich Nhat Hah, por exemplo, inclui o entretenimento irracional, incluindo a maioria dos programas de TV, como uma forma de intoxicação e estende a elas o preceito a respeito do consumo de álcool. Nós poderíamos também estender o modo de vida correto para incluir a mídia correta. Está claro que nem toda mídia é problemática; estou escrevendo e divulgando essas palavras usando um computador, e espero que tragam benefício. Vou me concentrar na crítica da tendência geral da mídia.

Facebook-and-Buddhism-

Primeiramente, a mídia tende a ser uma distração. Isto é, ela tem as desvantagens que o Buda atribui a espetáculos públicos. Porém, essa influência prejudicial é aumentada muitas vezes quando as pessoas assistem TV ou jogam videogames por seis, sete ou oito horas ao dia, em todos os períodos do dia, e voltam sua atenção a esses hábitos sempre que há uma pausa na conversação ou o risco de experimentar a serenidade. Sua facilidade de acesso contribui para o multitasking, a combinação do uso de mídia com outras atividades, tais como tocar música enquanto cozinha. Assim, se enfraquece a atenção plena e a concentração.

Em segundo, a mídia tende a ter todas as qualidades do que se traduz acima como um “mau amigo”. Ora, o Buda considerava em alta conta os amigos espirituais, uma vez tendo definido sua importância como “a totalidade da prática”. Daí se conclui que amigos espirituais ruins podem sabotar nossa prática totalmente. A mídia tende a exemplificar de modo lamentável o uso da linguagem, com fofocas, maldizer pelas costas e francas mentiras. Através de imagens de sexo e violência, ela imerge a mente numa gordura fervente de cobiça, ódio e confusão. Sua visão de mundo e suas respostas a ele são simplistas e ignóbeis. É dito frequentemente que as crianças, aos cinco anos, já assistiram milhares e milhares de mortes violentas. Sem entender as razões profundas por detrás dos comportamentos, elas aprendem que a violência é como os adultos resolvem suas diferenças na maioria das vezes. Com acesso posterior à motivações profundas, geralmente envolvendo uma batalha simplista do bem contra o mal, aprendem a abstrair a humanidade das pessoas e reduzi-las a meros instrumentos do auxílio e do prejuízo. Ao se tornarem velhos o suficiente para assistir as notícias, descobrem que estas também explicam as motivações humanas em termos semelhantes. Tornam-se pessoas prontas ao julgamento e impiedosas.

Em terceiro lugar, grande parte da mídia está envolvida com manipulação direta. É ruim o suficiente ter amigos que são caluniadores, beberrões e que desmaiam no chão e proferem injúrias racistas. Um amigo que tenta nos envolver em negócios funestos ou nos vender seguros, que seduz nosso cônjuge ou rouba nossos bens de valor é bem pior. Muito do que a mídia faz torna-a cúmplice de manipulações de massa das escolhas que se faz em compras, voto e atitudes sociais da opinião pública, tudo isso criado de modo cuidadoso. Ligamos a TV e logo estamos dançando uma toada de luxúria, inveja, medo, ódio, raiva e delírio, estimulados em todos os fatores prejudiciais da mente que nossa prática tenta moderar, a fim de nos fazer seguir suas ordens, ou ainda as ordens de marqueteiros e profissionais de relações públicas, ou ainda as ordens de interesses poderosos que contratam essa gente e que nos querem seguindo tais comportamentos e modos de pensar. Se sentarmos em frente à TV por tempo o suficiente, logo nossas mentes estão modeladas para crer em guerras sem motivo, confiando na boa intenção de corporações que emitem poluição, ignorando os muitos gritos pungentes do mundo, ignorando nosso próprio sofrimento e vivendo como se não houvesse amanhã (e, por conta disso mesmo, pode não haver!). É claro que um dos modos que nos fazem ser manipulados é o fato de nos mantermos o máximo possível colados à TV por horas de vigília, não perdendo uma oportunidade sequer para cultivar nosso comportamento viciante de assistir mídias.

 

(Nota do tradutor: o que o autor atribui à TV também vale para as mídias digitais na década de 2010, tal como mídias sociais, ou seja, Facebook, Instagram, YouTube etc.).

Nossas atividades cármicas são ações do corpo, fala e mente. Muito de nossa interação com a mídia é passiva, o que significa que se trata de ações da mente. Estas tomam a forma de sentir o ódio dos protagonistas, esperando que ele “limpe a casa” com suas armas de tamanho desproporcional. Infelizmente, a mídia está se tornando mais interativa, principalmente na esfera dos videogames, que frequentemente nos treinam na matança, provavelmente nos dando um empurrãozinho se quisermos nos tornar pilotos de drone. As consequências cármicas provavelmente são enormes.

Resumidamente, a mídia tende a ser um péssimo companheiro para a prática budista. Estou convencido que avanços significativos na prática budista não são possíveis para alguém que tem hábitos americanos normais de assistir constantemente TV e seriados – a pessoa vai simplesmente ser levada pelas influências inescrupulosas. Agora, certamente nem toda mídia é prejudicial desse modo. Tem uma diferença entre, digamos, assistir Sylvester Stallone em “Rambo”, por exemplo, e Jack Lemmon em “O Desaparecido”. A mídia pode ser instrutiva, apesar de provocadora; ela pode apresentar grande sabedoria. Pode ser uma boa amiga espiritual. Você está lendo isso através de uma mídia. A tarefa na arte da vida leiga é discriminar o que é benéfico do que é maléfico e, de todos os modos possíveis, minimizar o que é danoso para sua prática, e para a saúde mental de sua família.

Meu conselho com respeito à mídia é, não surpreendentemente, simplificar. Tente minimizar a exposição a mídias. Tenha um programa favorito, talvez, mas não passe cada hora de ócio e vigília sendo entretido. Tente dirigir sem o rádio, tente correr sem os fones de ouvido. Além disso, evite entretenimento que seja gratuitamente violento ou sensual e favoreça aquele que retrata mérito e inteligência. Claro que isso pode significar deixar de lado coisas atraentes e você pode não querer ouvir esse conselho, mas é por isso que alguém (eu) tem que apontar para as desvantagens em termos de prática budista. Evite comentários de notícias imbuídos de ódio, o que vai contra os critérios da linguagem correta ou da educação pura e simples, envolvendo xingamentos e ataques pessoais. Evite notícias e comentários que contém mentiras. (Se você seguir um programa ou personalidade por alguns anos, pode ser que descubra contradições e coisas que desvalidam completamente velhas declarações. É surpreendente quantos comentadores modernos não tem apreço pela verdade.) A maior regra geral pode ser evitar mídia imbuída de influência corporativa e favorecer artistas e jornalistas famintos; pessoas que desfrutam de alguma independência da motivação lucrativa tendem a ter mais integridade e dar ao mundo algo de valor.

 

Agora consideramos os passos um e dois da arte da vida leiga: selecionar elementos e rejeitar elementos. Espero que eles deem bastante coisa para pensar no que diz respeito a moldar os contornos gerais de sua vida. Lembre-se que o Buda e professores budistas podem puxar você numa certa direção, mas todos esses elementos são uma questão de sua escolha pessoal. Você poderá tender a discordar em certos pontos, mas a coisa mais importante é continuar examinando e refletindo e fazendo mudanças onde melhor couber. Semana que vem vamos ao passo três: equilibrando elementos da vida leiga.

 

Traduzido por Luiz Fernando Rodrigues

Revisão: Tiago da Silva Ferreira

Links:
A Arte da Vida Leiga Parte 1
A Arte da Vida Leiga Parte 2
A Arte da Vida Leiga Parte 3 
A Arte da Vida Leiga Parte 4
A Arte da Vida Leiga Parte 5

2 comentários em “A Arte da Vida Leiga (Parte VI)

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