Filme budista “Três Marcas da Existência”

De Tiago Ferreira

Estou longe de ser crítico de cinema, mas gostaria de indicar o filme acima e tecer algumas palavras sobre o mesmo. Na verdade, essa postagem será uma versão maior de um antigo comentário meu que fiz no site Filmow assim que assisti ao filme uns 3 anos atrás. O comentário tem spoilers, portanto seria melhor ver o filme antes de lê-lo. 

Vamos falar um pouco de um filme tailandês que considero uma das melhores introduções ao budismo para o público geral, por conseguir exprimir conceitos centrais do budismo numa história simples e de fácil assimilação. Ao mesmo tempo, não deixa de ser um filme que deixa o espectador não familiarizado com o budismo com um gostinho de quero mais. Algumas coisas vão parecer sem explicação ou confusas, principalmente para quem não sabe nada sobre o budismo, o que acho até positivo. O filme convida o espectador a procurar saber mais sobre o Dhamma. É claro que uma pessoa muito atenta vai conseguir entender o clímax do filme (a parte em que o protagonista medita e passa por uma espécie de insight) sem saber muito sobre o budismo, mas nem todo mundo vai conseguir captar a mensagem sem o mínimo de conhecimento prévio e gostaria de aproveitar a oportunidade não só para indicar o filme como para comentar sobre ele.

Na história, M, um jovem tailandês super insatisfeito com sua vida, resolve fazer uma peregrinação para os Quatro locais sagrados do Budismo na Índia e no Nepal, onde o Buda disse que seus seguidores deveriam visitar se tivessem fé. O objetivo do rapaz é  acumular bom carma para ter sucesso na vida. Ele se acha azarado e infeliz. Sua vida é regida por uma lista de Coisas Certas e Coisas Erradas, ou  seja, coisas que ele deve fazer ou que não deve fazer. Ele acredita que quanto mais conseguir cumprir as regras da lista de coisas certas, mais carma bom terá. Quanto mais falhar e fazer coisas da lista de erros, mais mau carma sera produzido. Pode parecer um tanto simplista e maniqueísta, mas é como grande parte de nós se comporta na vida, mesmo que não tenhamos uma lista formal de erros e acertos. E é contra essa visão dicotômica e artificial da vida que o filme se volta.

A desconstrução desse maniqueísmo vem através do ensinamento que dá nome ao filme, as três marcas da existência. Ao longo do filme, vemos o personagem se frustrar cada vez mais com sua peregrinação. Lentamente ele vai sentindo os efeitos das marcas da existência, ou seja, vai se tocando que sua Lista de Coisas Boas e Coisas Ruins é a causa de seu sofrimento.

O Dhammapada apresenta as três marcas da existência da seguinte forma:

‘Todas as formações são impermanentes’ –
Quando alguém vê isso com discernimento
e se desencanta do sofrimento,
esse é o caminho para a purificação.

‘Todas as formações são insatisfatórias’ –
Quando alguém vê isso com discernimento
e se desencanta do sofrimento,
esse é o caminho para a purificação.

‘Todos os dhammas são não-eu’ –
Quando alguém vê isso com discernimento
e se desencanta do sofrimento,
esse é o caminho para a purificação.

(Dhammapada 277-79)

Buda ensinou que todas as formações condicionadas são impermanentes e que a constante insatisfação provém da ilusão de acreditar num Eu independente, voluntarista e eterno. Buda defendia, diferentemente das outras correntes de pensamento indianas da época, a ideia do Não-Eu, ou seja, ele compreendia que a busca pela libertação não passava pelo caminho do reforço da noção do Eu, mas que, ao contrário, o reforço de uma noção de si mesmo ou a busca por um Eu verdadeiro, seriam um empecilho para alcançarmos o Despertar.  Essas são as três marcas da existência: impermanência, sofrimento (ou insatisfação) e o Não-Eu, que na língua indiana Páli são chamados respectivamente de anicca, dukkha anatta. Como o Dhammapada deixou claro logo acima, é através da compreensão das marcas da existência que vencemos o sofrimento e não através do cumprimento de regras ou mandamentos prescritas por nós mesmos ou pelos outros. Portanto, a salvação não se dá através da identificação com as Forças do Bem ou da lei Divina contra o Mal e o pecado. O budismo, portanto, rejeita o maniqueísmo das religiões abraâmicas e de parte do hinduísmo. Para Buda, depositar a fé numa guerra cósmica entre o Bem e o Mal é ilusão, pois tanto os Devas (deuses) quanto os demônios, fazem parte do mesmo jogo de ilusão, da mesma Samsara.

O Budismo é constantemente chamado de religião ateísta. Isso não é bem verdade, Buda nunca negou os deuses, ele fez algo ainda mais herético e revolucionário do que isso, ele negou que os deuses possam salvar as pessoas. Buda não é um deus, mas um guia espiritual. Ele afirma que descobriu um caminho para o Despertar, mas afirma também que cada um tem que seguir esse caminho por si só! Não adianta rezar ou orar para deuses (e isso inclui o Deus Cristão, ou o Alá muçulmano e o Brahman hindu), pois eles não podem nos salvar. O máximo que seres divinos podem fazer é nos dar bênçãos (como curar uma doença), mas a salvação (ou Despertar, como Buda afirmava) é pessoal e exige disciplina mental e ética para consigo e para com todos os outros seres.

As cenas finais do filme, perto do clímax, onde vemos o protagonista encontrando o suposto Deus Criador, são uma crítica à ilusão das religiões monoteístas. No fundo, ele descobre que a felicidade, o Bem, o Deus Criador, fazem parte da ilusão do maniqueísmo Bem x Mal que ele criou dentro da própria mente. O diabo, por sua vez, também é invenção dele. Essa divisão entre bem e mal também está representada em sua lista de coisas certas e erradas. Ao meditar, o personagem tem um insight e enxerga a verdade ao ver que o Bem e o Mal banqueteiam juntos, enquanto ele continua cego servindo aos dois. Portanto, a guerra cósmica entre um Deus Criador Todo Poderoso e um Diabo são ilusões que nos afastam do caminho de libertação. Para Buda, um Criador Salvador e um Diabo igualmente são invenções do Eu, do Ego. O Eu, sendo uma ilusão que nos faz acreditar na imutabilidade (pois o Eu se baseia na ideia de que somos um ser eterno), precisa criar a ideia de que há Um Bem Imutável Cósmico e Ontológico e Um Mal Imutável Cósmico e Ontológico equivalente para manter a própria ilusão de que um Eu existente que faz uma escolha isenta sobre que dos dois lados vai optar. Por isso precisamos, segundo Buda, abandonar o Eu e suas ilusões e rejeitarmos o maniqueísmo essencialista que ele pressupõe. Lembrem-se que o personagem está preso nesta dualidade o tempo todo. Ele está sempre decidindo entre o Bem e o Mal, entre o Sim e o Não, e acha que é livre por causa dessas escolhas, mas ele descobre que não é. Se só existem duas escolhas já dadas (Sim ou Não), então não há escolha de fato, mas uma prisão dicotômica. Para eliminar o sofrimento, portanto, temos que deixar de lado a ideia de um Eu autônomo e eterno e suas ilusões, que incluem o maniqueísmo ontológico e a fé na salvação dada por algum deus. Se, por um lado, Buda não nega a existência dos Devas (deuses), ele rejeitava a ideia de um Deus Criador Absoluto, como existe no Cristianismo e no Islamismo. Buda não dava muita importância a questões metafísicas. O mais importante é o caminho ético que ele propunha para acabar com dukkha, o sofrimento. (Mesmo assim, no Agañña Sutta, Buda dá sua versão para a origem do Universo, que se parece bastante com a ideia do Big Bang, onde há expansão e contração e o universo não tem começo ou fim).

A da luta do Bem x Mal é substituída, no budismo, pela oposição entre a sabedoria e a ignorância. O que dá valor à uma ação é a sua capacidade de ser hábil para acelerar o fim do sofrimento mental e não a moral prescritiva escrita por um deus em um livro sagrado (como a Bíblia e o Alcorão). Nesse sentido, a lista de Erros e Acertos do personagem principal é uma referência ao carácter prescritivo e maniqueísta das religiões abraâmicas e seus livros sagrados cheios de regras e listas sobre o que é certo e o que é errado. A partir da meditação, ao final deste filme, o protagonista começa a adquirir a sabedoria para eliminar a ignorância. Portanto, é o cultivo da sabedoria (através da prática da meditação e da ética) e não dá fé em divindades que nos tira da ignorância e nos faz progredir espiritualmente.

O filme, portanto, procura demonstrar como um jovem tailandês vai numa busca espiritual e como ele descobre as verdades do budismo através da experiência e da meditação e não através de algum deus ou do pagamento de promessas. O protagonista tinha a vã esperança de que ao peregrinar, receberia bênçãos de volta que fariam sua vida melhorar. O monge do templo afirma que fazer méritos (como se chama o ato de realizar boas ações no budismo) é algo bom, mas que isso não é o tema central dos ensinamentos do Buda. A partir daí, o monge explica para ele sobre as três marcas da existência a que eu já me referi (impermanência, sofrimento e Não-Eu), e o protagonista passa a viver na pele o que significam esses conceitos. Ele entende a impermanência ao ouvir que a Yuiko vai morrer. É quando ele percebe que ela nunca foi “dele”, como ele pensara. Ninguém é de ninguém, no sentido de que ninguém possui outra pessoa. Mesmo as pessoas a quem amamos, nossos maridos, esposas, filhos e amigos não nos pertencem de fato. Amanhã eles vão embora ou morrem. Acreditar que eles são “nossos” é a ilusão do “Eu” e do “Meu”. E é isso que leva ao sofrimento. Temos que aceitar a impermanência da vida e quebrar o Ego e viver o Anatta, ou seja, o Não-Eu. É isso que o protagonista faz no final através da meditação. Para os budistas, meditar é tão importante quanto orar para um cristão. O budista medita para entender as ilusões da mente e atingir sabedoria e, quiçá, o Despertar. O protagonista tem seu embate com a ilusão Deus x Diabo que o atormentava desde o início, desmascarando o “complô” que sua própria mente criara para manter seu Ego funcionando. Ali, ao experienciar o sofrimento dos outros personagens ao “viver” suas vidas e perceber que não é só ele que sofre, mas todos, o rapaz compreende a sabedoria do Ensinamento das Três Marcas da Existência e começa a sedimentar o caminho para o Despertar. Em suma, ele descobre que o importante é a busca de sabedoria espiritual e a prática advinda dela e abandona as dualidades como felicidade X tristeza, Bem X Mal, Céu x Inferno, Certo e Errado, etc. Isso não quer dizer que o budismo não entenda que certas ações sejam boas e outras não, mas sim que Buda rejeita o maniqueísmo (tal qual existe em religiões como o cristianismo) como apego da mente. Ele propõe, portanto, novas formas de lidar com os conceitos éticos que vão além da dicotomia e do moralismo prescritivo.

Há outros aspectos e detalhes do filme que deixei passar, mas o texto já está um pouco grande e não quero mais me alongar. Eu super indico este filme para quem quer conhecer o budismo. O filme sintetiza muito bem alguns ensinamentos dessa antiga tradição indiana e tem um clímax belíssimo. Vale muito a pena!

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