Budistas engajados no desenvolvimento social

Além de meditarem e ensinarem o Dhamma, monges também se envolvem em ativismos sociais. Phra Paisal Visalo explica como se deu o processo de cooperação entre a sangha e as ONGs na Tailândia.

Palestra de abertura de Phra Paisal Visalo

 

Recentemente, na Tailândia, a visão de que o budismo não tem nada a ver com a sociedade está se generalizando. A maioria das pessoas pensa nele como tendo cerimônias ritualísticas ou como um método de lidar com problemas pessoais. Mas durante os últimos vinte anos, tem aparecido entre os monges budistas um pequeno número de homens que tenta confrontar de peito aberto os problemas sociais e interpessoais, o que está fazendo com que o povo tailandês mude suas atitudes em relação ao budismo. Esses monges são chamados de “monges do desenvolvimento” e são  ativos principalmente nas regiões agrícolas da Tailândia.

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Wat Pa Sukato, templo no interior rural da Tailândia.

O desenvolvimento econômico que ocorreu na Tailândia nas últimas décadas ampliou a diferença no nível de vida entre cidades e aldeias rurais, trazendo para as vilas pobreza e destruição ambiental. Enquanto se integravam na sociedade das aldeias,  os monges do desenvolvimento começaram a enfrentar os problemas das vilas que sofrem com a pobreza e a destruição ambiental. O desenvolvimento econômico que ocorreu na Tailândia não é tão diferente do que ocorreu em outros países do Terceiro Mundo. Mais atenção é dada à indústria do que à agricultura e, a fim de reduzir os gastos daqueles envolvidos no setor industrial, os preços dos produtos agrícolas foram empurrados para baixo. Nestas condições, a vida dos agricultores fica repleta de dificuldades. Além disso, o desenvolvimento econômico foi promovido a fim de fornecer grandes quantidades de recursos naturais no mercado a preços baixos, resultando em montanhas e rios, outrora belos, sendo destruídos. É por isso que muitos aldeões começaram a questionar os méritos do desenvolvimento econômico.

Monges do desenvolvimento podem ser divididos em três grupos. O primeiro é dedicado a atividades benevolentes, como a construção de instalações para órfãos, hospitais para pessoas que sofrem de HIV/aids e outras obras de caridade. O segundo grupo é ativo principalmente na área econômica – organizando a sociedade cooperativa com lojas cooperativas nas aldeias e até mesmo estabelecendo o Water Buffalo Bank e também criando uma cooperativa de poupança (cooperativa de crédito) para que as pessoas não tenham que contrair empréstimos com alta taxas de juros, e incentivando a produção de artesanato popular tradicional. O terceiro grupo está envolvido em problemas ambientais – trabalhando principalmente para salvar e proteger as florestas e rios.

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Monges estudando o Dhamma numa floresta tailandesa.

Essas atividades dos monges do desenvolvimento não atraíram, a princípio, a atenção das pessoas que moravam nas cidades. No entanto, com a constante continuidade  dessas atividades, foram feitas conexões com ONGs na Tailândia e no exterior, e suas atividades gradualmente se tornaram mais conhecidas nas vilas e cidades. Desde  o princípio, as atividades dos monges do desenvolvimento tailandeses estiveram intimamente relacionadas àquelas das ONGs. Elas ofereceram apoio às atividades dos monges do desenvolvimento de várias maneiras, tais como apoiando a criação de redes entre eles e até mesmo enviando voluntários para ajudar a apoiar suas atividades.

Mas sinto que, entre as contribuições das ONGs, o fato de maior importância foi que elas forneceram aos monges do desenvolvimento vários pontos de vista analíticos. Quer estivessem envolvidos com problemas de proteção ambiental ou com a diminuição da pobreza, o pessoal das ONGs forneceu aos monges do desenvolvimento várias maneiras de ver como esses problemas estavam relacionados à estrutura social ou econômica, ou ao próprio desenvolvimento da Tailândia.

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Monges tailandeses performando uma Dhamayatra, atividade em que um grupo de pessoas caminha por longa distância para representar pacificamente a importância de alguns problemas na sociedade.

Antigamente, os monges do desenvolvimento e outros grupos budistas que se envolviam com questões sociais, participavam de atividades que lidavam com problemas que ocorriam diante de seus olhos. Por exemplo, se houvessem crianças padecendo de fome, eles as alimentavam; se houvessem pessoas sofrendo de doença, eles as levariam para o hospital. Mas se é preciso fazer algo na origem dos problemas ambientais ou de pobreza, é necessário entender a estrutura social que constitui o pano de fundo para os problemas individuais. Até aquele momento, as atividades dos monges do desenvolvimento não pareciam diferentes do que dar uma aspirina a alguém que sofre de dor de cabeça. A dor pode ser reduzido neste caso, mas em relação à causa fundamental da dor de cabeça, não é uma abordagem suficiente. Em relação a isso, o pessoal das ONGs ensinou aos monges que apenas dar uma aspirina a alguém não basta.

No entanto, a relação entre as ONGs e os monges do desenvolvimento não é só uma via de mão única em que elas fornecem algo aos religiosos. Pelo contrário, os monges em desenvolvimento também tiveram uma influência positiva sobre as ONGs. Uma das coisas que eles transmitiram foi a importância de estar ciente do significado do aspecto espiritual quando envolvidos em suas atividades. Era uma fraqueza das ONGs, que talvez se concentrassem demais em problemas políticos e econômicos. Pode até ser dito que elas empreendiam suas atividades sob a premissa de que os aldeões ficariam felizes se pudessem viver suas vidas em meio à riqueza material. O desenvolvimento econômico é certamente importante, mas ao trazer para a sociedade rural um novo senso de valores que poderia ser chamado de “consumismo”, a paz de espírito dos moradores foi perturbada. Com relação a esse problema, entretanto, sinto que o pessoal das ONGs não estava suficientemente ciente do assunto. Além disso, entre os trabalhadores das ONGs havia muitos que eram indiferentes para com questões espirituais, uma vez que estavam tão ocupados em suas atividades que não tinham tempo livre para dedicarem-se a assuntos espirituais, deixando de ser capazes de sentir felicidade, havendo até mesmo casos em que confrontos surgiram entre trabalhadores das ONGs. Quando isso aconteceu, os monges do desenvolvimento puderam ensinar a eles sobre o significado de dar grande importância à paz de espírito durante a realização de suas atividades. Em minha  experiência própria, acredito que é necessário que monges e grupos budistas e o pessoal das ONGs compartilhem seus conhecimentos uns com os outros.

Na Tailândia, como em outros países budistas, a cooperação entre grupos budistas e a equipe das ONGs é essencial para promover o desenvolvimento. E eles devem cooperar na criação de uma sociedade civil sólida, que requer um desenvolvimento abrangente ou holístico com o objetivo de produzir. Quando falo em “desenvolvimento abrangente ou holístico” não se trata só do desenvolvimento econômico – o desenvolvimento social deve ocorrer, assim como o desenvolvimento em relação às questões ambientais, e é até mesmo necessário que o desenvolvimento espiritual faça parte do processo geral. Para que tal desenvolvimento abrangente ou holístico ocorra, é necessário que ambos os lados – monges e grupos budistas e o pessoal das ONGs – se reúnam em cooperação para que possam suprir um ao outro o que o outro lado não tem. Em termos de atividades, é necessário fazer reformas políticas e econômicas em relação às questões da pobreza, dos direitos humanos e do meio ambiente. Ao mesmo tempo, o que pode ser chamado de “desenvolvimento espiritual” ou “desenvolvimento em um sentido espiritual” também deve ocorrer.

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Phra Paisal Visalo ensinando o Dhamma no Wat Pa Sukato.

O problema atual é a importância de resistir ao consumismo em rápida proliferação, que pode ser considerado o inimigo comum dos grupos budistas e das ONGs. Isso porque, na base, o consumismo cria uma estrutura na qual os pobres são explorados, o meio ambiente é destruído e a paz espiritual do povo é transtornada. Especialmente na recente disseminação da globalização, o consumismo tem se tornado cada vez mais intenso. Não apenas na Tailândia, em diversos países o número de pobres está aumentando, ampliando ainda mais a distância entre ricos e pobres. Ao mesmo tempo que o fosso entre abastados e desprovidos aumenta em cada país, o fosso entre países ricos e pobres também cresce cada vez mais. A situação é tal que os pobres estão sofrendo mais do que no passado. E em meio a esse sofrimento cada vez pior, é importante que as ONGs e os grupos budistas cooperem mais do que nunca para tentar impedir que a situação se agrave ainda mais. Para isso, sinto que é necessário que eles aprendam uns com os outros e elaborem um novo modo de vida e um novo senso de valores que englobe tanto os aspectos materiais quanto os espirituais da vida.

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Monges desenvolvimentistas

Através da cooperação entre ONGs e budistas, as quatro categorias de atividades a seguir podem ser feitas. A primeira é a proteção dos direitos humanos e o engajamento em atividades humanitárias em apoio aos que sofrem. É crucial prestar assistência aos pobres, idosos, órfãos e outras pessoas necessitadas. No entanto, só isso não basta. O que precisa ser feito é reestruturar a sociedade para reduzir a violência estrutural, ou seja, a exploração e a falta de justiça social, que é a causa básica da pobreza e do sofrimento. Esta é a segunda categoria. Como mencionei anteriormente, embora já haja bastante cooperação entre as ONGs e os monges do desenvolvimento, ainda assim a situação está se tornando cada vez pior. A terceira categoria é a criação de um novo sentido de valores ou espiritualidade como contramedida ao consumismo. Em especial, falando como budista, eu acredito que há necessidade de deixar claro que o budismo não é algo que consiste simplesmente em realizar rituais; ao contrário, é uma religião ativa que nos ensina sobre como podemos alcançar paz de espírito e felicidade. Finalmente, a quarta categoria são as atividade de pacificação.

Hoje, existem muitas guerras e conflitos acontecendo ao redor do mundo. Até agora, os budistas aproveitaram diversas oportunidades para enunciarem a importância da paz, mas na verdade há pouquíssimos casos em que a pacificação e a prevenção de guerras foram enfrentadas a sério pelos budistas. Ouvi dizer que, durante os últimos anos, muitos japoneses visitaram a Palestina e cooperaram ali como trabalhadores da paz e, às vezes, até mesmo servindo como escudos humanos, e participando de várias atividades. Quando ouvi essa notícia, não pude deixar de pensar “Quantos deles são budistas?” Ou “Quão profundamente envolvidos em tais questões o budismo se tornou?” A partir de agora, acredito que os budistas devem se envolver no problema da paz muito mais seriamente do que nunca.

Texto original: http://www.visalo.org/englishArticles/BuddhistsEngaged.htm
Tradução: Tiago Ferreira

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