Um Guia Budista para “sobreviver” ao Apocalipse

O mundo passa por um momento delicado. Deterioração do meio ambiente, pandemia, tensões sociais e raciais. Como budistas, nos perguntamos como “sobreviver” ao Fim do Mundo? Bhante Akaliko nos recorda que o Buda já fez essa pergunta séculos atrás ao Rei Pasenadi e o diálogo entre os dois serve como ensinamento para os dias de hoje.

De Bhante Akaliko

Vi uma montanha enorme que alcançava as nuvens. E estava vindo para cá, esmagando todas as criaturas… Se uma ameaça tão terrível surgisse… o que você faria? (SN 3.25)

people film end of the world on phones as asteroids fly through sky
“O que imagino que as pessoas farão no fim do mundo”

O Fim do Mundo provavelmente não será um evento exclusivo. É verdade que algumas religiões têm suas próprias versões VIP do apocalipse, onde os Poucos Escolhidos são salvos e os demais são condenados (pense; no Arrebatamento, na Ascensão ou no Dia do Julgamento), mas dadas as diferentes visões sobre qual religião está certa, é mais provável que quando o apocalipse chegar, ele virá para todos nós.

Então, como pessoas de diferentes religiões devem se preparar para o fim? Os cristãos podem orar a Deus pela libertação, os muçulmanos podem louvar a Alá, mas e pessoas como os hindus e os budistas que acreditam no renascimento? Um evento como o apocalipse é apenas mais uma morte rotineira e nada com que se incomodar? Talvez não precisemos realizar nenhuma preparação especial? Podemos apenas continuar nossa vida normalmente, fazendo as coisas de sempre; assistindo Netflix, discutindo com nossos irmãos, odiando políticos e fazendo compras… Mas, se for realmente o Fim, provavelmente não é possível falar em “situação normal”.

Mesmo que o apocalipse aconteça sem muito alarde ou espetáculo – como uma série de pequenos desastres ambientais que acabam por levar a um fracasso em cascata – ainda assim vamos experimentar um lento show de horrores por muitos anos. Haverá escassez de água, secas, colheitas fracassadas. Pessoas famintas causando tumultos por causa de comida ou saqueando em busca do que precisam. Haverá migrações em massa à medida que milhões de refugiados fogem dos níveis crescentes de água para buscar segurança em áreas superlotadas em outros lugares. A competição por recursos trará violência e caos, à medida que as pessoas lutam pelo poder e pela sobrevivência.

Talvez, então, você pense que será melhor se o Fim do mundo chegar rapidamente; espetacularmente – sem muito aviso – em decorrência de algo como uma guerra nuclear ou o impacto de um asteroide. No entanto, não é necessariamente uma melhor opção. Imagine o terror daqueles poucos momentos finais. Uma vida inteira de esperanças e arrependimentos passa diante de seus olhos, sem a chance de dizer adeus a seus entes queridos antes que eles sejam vaporizados. Tudo se foi para sempre. Pode ser pior; imagine sobreviver. O caos. A busca por comida. A tristeza insuportável de tudo isso.

Então, o que você faria no fim do mundo? Se sua família estivesse morrendo de fome, você roubaria e saquearia para alimentá-los? Se pessoas famintas armadas com machados viessem roubar seus suprimentos, você compartilharia o que tem com elas ou mataria para se proteger? O que você faria enquanto budista? Abandonaria seus preceitos por conveniência? Abandonaria os ensinamentos espirituais sobre bondade, compaixão e generosidade porque, de repente, tornaram-se inconvenientes?

O problema do que fazer quando o mundo está acabando é respondido para nós no Sutta Pabbatūpa, o Símile da Montanha (SN 3.25). Nele, o Buda se encontra com o rei Pasenadi, que tem estado ocupado com as muitas distrações de dirigir seu reino. Talvez na esperança de reorientar as prioridades do rei em relação a preocupações maiores e proporcionar a ele um senso de urgência, o Buda apresenta ao rei Pasenadi um cenário apocalíptico:

O que você acha, grande rei? Suponha que um homem digno de confiança venha do leste. Ele se aproxima de você e diz: ‘Por favor, senhor, você deveria saber disso. Eu venho do leste. Lá eu vi uma montanha enorme que alcançava as nuvens. E estava vindo para cá, esmagando todas as criaturas. Então, grande rei, faça o que deve fazer!’ Depois, um segundo homem digno de confiança viria do oeste … um terceiro do norte … e um quarto do sul. Ele se aproxima de você e diz: ‘Por favor, senhor, você deveria saber disso. Eu venho do sul. Lá eu vi uma montanha enorme que alcançava as nuvens. E estava vindo para cá, esmagando todas as criaturas. Então, grande rei, faça o que deve fazer!’.

Tendo obtido a atenção do rei com esse desastre inevitável, o Buda coloca uma única pergunta, carregada de significado:

Se tal ameaça tão terrível surgisse – uma terrível perda de vida humana, quando o nascimento humano é tão raro -, o que você faria?

Esta é a mesma pergunta que nós enfrentaríamos no fim do mundo. O que você faria? A resposta do rei é perfeita:

“Senhor, o que mais eu poderia fazer senão praticar os ensinamentos, praticar a moralidade, realizar ações hábeis e boas?”

Entretanto, o Buda não elogia imediatamente o rei por sua resposta, mas muda a tática, passando de uma pergunta hipotética abstrata para uma verificação da realidade prosaica:

Eu te digo, grande rei, anuncio a você: a velhice e a morte avançam sobre você. Uma vez que a velhice e a morte avançam sobre você, o que você faria?

Essa é nossa verdadeira emergência, nossa verdadeira situação, a lenta catástrofe que se desenrola: velhice, doença e morte. No entanto, assim como o rei Pasenadi, ficamos tão freqüentemente distraídos por outras atividades em nossa vida que esquecemos que essas grandes coisas inevitavelmente acontecerão conosco. Mesmo quando nos lembramos dessas certezas, não queremos pensar nelas, nos afastamos e fechamos os olhos. É por essa razão que o Buda usou um cenário apocalíptico tão impressionante; romper as camadas de auto-engano, cortando nossas distrações frívolas de sempre, para emitir um lembrete urgente.

Vendo a futilidade de todo o seu poder, riqueza e status diante da doença, da morte e da velhice; em resposta à pergunta do Buda, o rei repete a mesma coisa que dissera antes:

“Senhor, o que mais posso fazer além de praticar os ensinamentos, praticar a moralidade, realizar ações hábeis e boas?”

Adhivattamāne ca me, bhante, jarāmaraṇe kimassa karaṇīyaṃ aññatra dhammacariyāyasamacariyāya kusalakiriyāya puññakiriyāyā”ti?

Assim, as qualidades que precisaremos no fim do mundo são as mesmas qualidades que precisamos em nossas vidas comuns; em ambas as situações, enfrentamos essencialmente os mesmos problemas, apenas com diferentes condições externas. Não é apenas em situações extremas que nossa ética e comportamento serão testados, mas também na normalidade do aqui e agora. Se não podemos praticar a conduta ética em nossas vidas cotidianas no presente, que esperança teremos no futuro, quando as coisas ficarem realmente difíceis?

Então, como um budista deve sobreviver ao fim do mundo? Infelizmente, do ponto de vista budista, a “sobrevivência” é, em última instância, impossível; estamos fadados a experimentar a velhice, a doença e a morte eventualmente; a menos que alcancemos a libertação, a cessação de todo sofrimento, onde não há “sobrevivência”, mas extinção total. No entanto, se ainda não estamos iluminados quando o fim do mundo chegar sobre nós, então – como o rei Pasenadi percebeu – em tempos de crise, não devemos abandonar nossos princípios espirituais. Em vez disso, naquele momento, precisamos cultivar as quatro coisas que o rei mencionou acima; praticar os ensinamentos (dhammacariya); praticar moralidade (samacariya); realizar ações hábeis (kusalakiriya); e realizar ações meritórias (puññakiriya). Continuamos praticando o Dhamma como ensinado pelo Buda, procurando entender os ensinamentos e vivendo-os (dhammacāriya) o máximo possível. Esses ensinamentos são o que continuarão a nos guiar, mesmo nas circunstâncias mais difíceis. Devemos também procurar viver de maneira justa, mantendo uma conduta ética que conduza à harmonia pessoal e social (samacariya), como manter nossos preceitos; não matar, não roubar, não cometer má conduta sexual, nem mentir ou ficar intoxicado, mesmo quando confrontado com um evento catastrófico como a desintegração da civilização. Será nesse caos que muitas pessoas abandonarão sua ética e decência, à medida que as pessoas entram no modo de sobrevivência, depravação moral e escapismo. É nesse momento que a realização de ações hábeis (kusalakiriya) será mais importante, quando o amor e a compaixão serão mais necessários.

Mesmo em um mundo desfeito, a ação virtuosa é sempre irrepreensível. Dessa forma, manter nossa conduta ética será uma fonte de proteção para nós e para os outros, e experimentaremos uma sensação de paz e tranquilidade como resultado de nossas boas ações. Mesmo que pareça que toda a esperança está perdida, ainda podemos realizar ações meritórias (puññakiriya), como praticar bondade com os outros por meio de nossa conduta virtuosa. Ainda podemos ser generosos, compartilhando o que temos com os outros e até – talvez – continuar desenvolvendo nossas mentes através da meditação ou contemplando o Dhamma. Esses tipos de ações certamente trarão bons resultados para nós agora ou no futuro.

Ao compreender o Dhamma e praticar dessa maneira, um budista no Fim do Mundo – ou mesmo apenas na vida cotidiana comum, aqui e agora – pode ser um farol de bondade e uma fonte de inspiração para os outros.

Assim, como o Buda perguntou ao rei Pasenadi; o que você faria se o mundo estivesse acabando? E mais: isso seria tão diferente de como você está vivendo agora, diante da velhice, doença e morte?

this is fine meme of dog sitting in a burning house sipping coffee

Leia o Sutta Pabbatūpa, o Símile da Montanha, no SuttaCentral.


Traduzido por Tiago Ferreira

Texto Original: https://lokanta.github.io/2019/01/31/buddhist-guide/

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