A Arte da Vida Leiga (Final)

A maior parte dos ensinamentos do Buda foi dada a monásticos. Mas e quanto aos praticantes leigos? Nessa série de estudos que o blog Budismo & Sociedade está publicando continuamente, o Bhikkhu Cintita Dinsmore discorre sobre a arte de viver do budista leigo. Neste último capítulo, o monge conclui sua argumentação.

por Bhikkhu Cintita Dinsmore

Leigos e Monásticos [cont.]

Nessa série, eu cuidadosamente destaquei as diferenças entre o estilo de vida monástico e ser um monástico ordenado. O estilo de vida monástico é adotado em níveis; um monástico ordenado é algo que ou você é, ou não é. Os dois não necessariamente coincidem.

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Ven. Pema Chodron (EUA)

Essa é uma distinção importante porque nos ajuda a entender que tipo de realização um leigo é capaz ou pode esperar da prática budista. Em particular, espero ter desfeito a noção de que você deve ser uma monja ou monge a fim de se tornar iluminado. Seu potencial não tem relação com ser ordenado, mas com a adoção, em algum grau, de um estilo de vida monástico. Espero ter deixado claro nessa série porque o estilo monástico é um grande auxílio à prática e como a vida monástica pode ser integrada com os elementos de uma vida leiga, como um fator primário nessa vida. Então, o estilo de vida monástico é um desenvolvimento desejável tanto para o leigo como para o monástico ordenado, e um desafio para ambos, apesar de ser, em geral, um desafio maior para o leigo.

Na semana passada, comecei a discutir o papel da ordenação monástica. É importante considerar isso cuidadosamente para evitar que tudo que escrevi no último texto dê a impressão de que a ordenação monástica seja algo desnecessário ou que não seja importante para o budismo. É, na verdade, de importância crítica, tanto para leigos como para monásticos. Semana passada, descrevi porque é imensamente útil se ordenar como monástico como um modo de desenvolver imediatamente um estilo de vida monástico. A ordenação monástica, em resumo, é algo que recebeu a assistência das comunidades monásticas ao longo da história budista sem interrupção. Como um monástico ordenado eu, para considerar o exemplo mais próximo, sou assistido pelos leigos em minha aspiração para viver um estilo de vida monástico, assim como ter tempo para meditação, ensinar e ser de auxílio a outros, o que complementa isso.

Então por que os leigos dão assistência aos monásticos tão espontaneamente? Há algum benefício tangível para os leigos? A resposta é… sim! Na verdade eu provavelmente não seria um monástico, não fosse esse o caso.

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Ven. Buddharakkhita (Uganda)

Em primeiro lugar, muitos acreditam no que os monásticos fazem e querem apoiar isso de modo altruísta, sem qualquer pensamento em ganho pessoal. O interessante é que parece que os leigos estão, em geral, dispostos a apoiar monásticos meditativos, justamente aqueles que aparentam maior ócio, mas que, em geral, evocam grande respeito.

Em segundo lugar, os monásticos dão o exemplo que inspira os leigos em sua própria prática. Esse pode ser comparado à inspiração que os atletas profissionais dão a jogadores de tênis, ciclistas e corredores amadores, entre outros. O exemplo que dão é o da vida monástica, que é um norte para guiar a vida dos leigos. É claro que monásticos individualmente podem fracassar como exemplos fortes, mas a maioria do sangha monástico fornecerá exemplos de alta concentração. Um dos exemplos chaves que estes monásticos darão é a refutação da ideia de que o excesso pessoal leva à felicidade: minha experiência é que os monásticos como uma classe, ao contrário do que nos diz o senso-comum, são as pessoas mais felizes no mundo. Cada um deles é um tipo de experimento científico humano, um tubo de ensaio nos quais os ingredientes da vida monástica foram despejados e mexidos com resultados abertos à inspeção.

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Ven. Thubten Chodron (EUA)

Em terceiro lugar, os leigos budistas provavelmente têm a classe clerical menos dispendiosa do mundo. As necessidades de um monástico são muito modestas: eles não têm de ter casas elegantes com garagens para dois carros, não têm de sustentar uma família e mandar os filhos para a faculdades, diferente, digamos, de um ministro protestante. Além disso, uma vez que, como grupo, estão muito imersos na prática budista, vivendo-a, sob condições ideais, 24 horas por dia e 7 dias por semana, os monásticos budistas provavelmente têm em suas fileiras os professores espirituais mais qualificados do planeta.

Eu gostaria de fazer um parêntese: algumas tradições budistas têm clérigos não-monásticos, às vezes lado-a-lado com os monásticos. A maioria do clericato budista japonês de hoje em dia é não-monástico, razão pela qual geralmente falamos em sacerdotes zen no ocidente ao invés de monges zen, e muito dos coreanos também, ainda que esse sacerdócio se ordene de um modo historicamente reservado a monges e monjas. Na tradição tibetana, há alguns lamas (professores) que não são monges. E, é claro, no ocidente é raro achar um professor qualificado que seja um monástico, mas também é comum encontrar professores sem nenhuma qualificação reconhecida. Porém, o clericato não-monástico geralmente tem treinamento bem específico que os qualifica como clérigos, às vezes bem rigoroso, muitas vezes passando um longo período vivendo como um monástico, ou simplesmente em reclusão extrema. Mas o clericato não-monástico não compartilha continuamente o estilo de vida monástico, de modo que muito do que eu falar aqui sobre as vantagens da ordenação monástica não se aplica a eles.

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Ven. Bhikkhu Bodhi (EUA)

Em quarto lugar, a assistência da comunidade monástica encoraja ao altruísmo fazendo da prática algo maior que uma preocupação pessoal: uma preocupação comunitária. Assistência aos monásticos é, tradicionalmente, um ponto focal para a prática alegre e altruísta da generosidade (dana). É um ponto focal natural, porque envolve essas pessoas que são essencialmente desamparados sem o apoio leigo e que, ainda sim, inspiram assistência por razões outras que não ser fofinhos (como gatinhos e cachorrinhos). Contudo, rapidamente essa prática se derrama sobre outras áreas, que podem ser mais prontamente observadas na Ásia do que no ocidente. A generosidade é a força vital da comunidade budista.

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Ven. Brahmavamso (Reino Unido/Austrália)

Por exemplo: tradicionalmente, se você, como leigo, quer praticar um mês inteiro de meditação, você poderia esperar, na Ásia, obter assistência total nessa aspiração. Seria concedida a você uma cabana num centro de meditação, instruções de meditações e encontros tête-a-tête com um professor, um cronograma e um local para meditar com outros, e refeições, sem nenhum custo para você. Por quê? Porque os leigos contribuíram com as necessidades materiais do centro, e os monásticos e leigos se candidataram para instrução dos praticantes. Por que eles fazem isso tudo? Por causa das mesas razões que fazem com que os monásticos sejam prontamente assistidos. Os patrocinadores de um centro de meditação acreditam nas suas aspirações, eles valorizam você como um praticante mais fortalecido vivendo em sua comunidade, eles acreditam que seus esforços valham à pena.

Em quinto lugar, o sangha de monásticos ordenados foi encarregado pelo Buda de manter a integridade dos ensinamentos, e historicamente foi bem sucedido em fazê-lo. É o canal primário através do qual os ensinamentos do Buda foram passados adiante por todos esses séculos até chegar a você, e será o canal primário através do qual será passado às gerações vindouras. Por que esse canal é necessário? Certamente há muitas tradições religiosas que não têm nada do tipo; os quakers nem sequer têm clérigos de qualquer tipo. O islão, supostamente, é do mesmo modo, apesar de ter desenvolvido um clero informal. O budismo, porém, tem exigências mais rigorosas.

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Ven. Dalai Lama (Tibete)

O budismo é uma religião de sofisticação fora do comum. Não precisar ser assim para todo mundo; muitos se aproximam dele em termos de práticas devocionais, algumas orientação ética e a prática de dana, por exemplo. Mas, no seu estado mais refinado, ele inclui um programa detalhado de práticas e estudos ou entendimentos, que recaem nas várias partes do Nobre Caminho Óctuplo. Você pode passar anos praticando e estudando e ainda não chegar a uma profunda compreensão dos ensinamentos. Além do que estudo e prática dependem da disponibilidade de professores e adeptos, uma vez que os ensinamentos são facilmente sujeitos à interpretações incorretas. Antes do Buda começar sua carreira como professor, ele duvidou que conseguiria passar adiante o ensinamento de forma correta e os suttas antigos são cheios de histórias nas quais ele corrige entendimentos incorretos.

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Ven. Cheng Yen (Taiwan)

O sangha monástico ordenado, enquanto durar, pratica diligentemente e segue o código monástico, garante que sempre haja uma concentração de adeptos que devote suas vidas em tempo integral à prática, estudo e instrução. Não garante que todos os monásticos ordenados serão adeptos, nem implica que todos os adeptos sejam ordenados, apenas que há uma concentração de adeptos que manterá a tocha do Dharma acesa.  E uma vez que se exige dos monásticos o uso de mantos, a tocha é fácil de localizar. Os leigos que se tornam praticantes excepcionais são aqueles que ficam perto do fogo; poucos deles estão mais que um ou dois passos atrás dos monásticos que moldaram sua prática e entendimento, mesmo entre praticantes ocidentais.

Isso é comparável ao papel da atividade acadêmica, por exemplo, em garantir o progresso da ciência. A ciência também envolve um núcleo de adeptos, aqueles que são credenciados ou têm compromissos acadêmicos, assistidos pela sociedade em geral, mesmo quando esses indivíduos não produzem benefícios tangíveis para a sociedade (na verdade, frequentemente os cientistas mais respeitados são os cientistas “puros”, que têm a menor preocupação com resultados práticos, assim como os monásticos mais respeitados tendem a ser aqueles que meditam o dia inteiro). Assim como no sangha monástico, os cientistas como indivíduos podem, às vezes, ser exemplos ruins de produção acadêmica, e indivíduos fora do núcleo podem produzir pesquisas excepcionais (lembre-se que Einstein em seus dias mais brilhantes do começo de sua carreira era um cientista amador e “puro”), mas esse núcleo de fato representa uma concentração de talento que mantêm a ciência viva e não permite que ela seja distorcida na forma de pseudo-ciência ou especulação maluca. Um cientista amador produtivo terá ficado próximo do fogo e raramente estará mais que um passo atrás de professores que moldaram sua capacidade de fazer pesquisa e seu senso de urgência em comunicar os resultados de modo íntegro.

Com isso eu concluo essa série da Arte da Vida Leiga. Eu espero ela tenha fornecido aos leitores muita coisa com a qual trabalhar conforme você revisa os muitos aspectos de sua vida. O conceito-chave que espero ter passado é: simplicidade! No domínio de seus assuntos pessoais e daquilo escolheu ter como elementos de importância pessoal, simplifique o máximo que puder. No ano seguinte, reconsidere e tente simplificar ainda mais, e assim por diante.  As pessoas têm tanto peso nas costas… A simplicidade vai dar muita energia à sua prática. Nossa carga é a projeção externa de nosso ego. A prática budista tem a ver com desapegar-se gradualmente e cada vez mais dessa noção do ego substancial. Nossos estilos de vida são a manifestação mais tangível e, portanto, o lugar mais óbvio por onde começar. Quando o senso do ego desaparecer totalmente, isso é a Libertação. E a Libertação é possível nos parâmetros de uma vida leiga.

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