A Arte da Vida Leiga (Parte X)

A maior parte dos ensinamentos do Buda foi dada a monásticos. Mas e quanto aos praticantes leigos? Nessa série de estudos que o blog Budismo & Sociedade está publicando continuamente, o Bhikkhu Cintita Dinsmore discorre sobre a arte de viver do budista leigo. Nesse décimo capítulo, o monge fala da importância ainda relevante da distinção entre monges e leigos e porquê os leigos devem apoiar a Sangha.

De Bhikkhu Cintita Dinsmore

Leigos e Monásticos

Ao longo das últimas nove semanas eu apresentei a arte da vida leiga. Resumidamente, o ideal é viver uma vida que inclui aqueles elementos que, além das práticas budistas reconhecidas, você tem que incluir, mas que, de outra forma, é uma vida tão próxima de uma vida monástica quanto for possível. Esse é um ideal que eu não espero que nenhum leitor leve absolutamente a sério; falta de convicção, falta de disciplina, impulsos avassaladores e todos esses tipos de coisas conspiram contra o ideal. Um praticante ideal é uma coisa rara. Porém, cada um de vocês pode se inclinar nessa direção e estudar sua própria vida para ganhar convicção de que o que eu escrevo pode ter algum mérito.

 

A arte da vida monástica é renunciar e simplificar, não se apegando a nada, especialmente não se apegando a nenhum sendo de identidade pessoal, além de todas aquelas coisas que nutrem e satisfazem uma pessoa especial. Ora, eu fiz uma grande distinção entre viver uma vida monástica e ser um monástico ordenado. A razão é que a maioria dos monásticos ordenados, do mesmo modo que os leigos, meramente se aproxima do ideal de uma vida monástica e, assim, não são muito diferentes de discípulos leigos devotos. É certamente possível que um leigo devoto mantenha uma vida mais monástica que a maioria dos monásticos ordenados, e, assim, realize grande benefício em sua prática. Isso traz o questionamento: “Por que temos monásticos?” A resposta é, de fato, muito importante para os budistas leigos.

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Em primeiro, embora um monástico ordenado possa ser imperfeito no que toca o modo de vida monástico, ele faz o voto e tem uma obrigação social de fazê-lo. Esses votos e obrigações podem ser comparadas com os votos de casamentos e as obrigações matrimoniais: também é comum que não sejam levados de modo perfeito, e ainda sim geralmente fazem uma grande diferença na manutenção do casamento, já que um ciclo de transgressão e arrependimento serve para manter o cônjuge dentro dos limites estabelecidos. Monásticos ordenados fazem uma série de votos que os leigos geralmente não fazem. Além do mais, assim como a aliança é a marca das obrigações conjugais de modo que convida o comportamento do cônjuge à atenção pública, os mantos e a cabeça raspada são a marca dos votos de um monástico ordenado.

 

Em segundo lugar, um monástico tem um plano muito claro de como levar sua vida em mais detalhes do que eu seria capaz de falar a respeito aqui. Os votos de um monástico tem a forma de centenas de preceitos que especificam em detalhes como deve selecionar, rejeitar, equilibrar e simplificar. Eles deixam muito pouco espaço de manobra. Se você examina-los cuidadosamente, vai descobrir que eles proíbem de modo sistemático praticamente qualquer oportunidade para a busca de vantagem pessoal, ou crescimento e satisfação egocêntricos. São fundamentalmente baseados na simplicidade, renúncia e contenção dos prazeres sensuais. O celibato é geralmente considerado como o definitivo da vida monástica. A um monástico não é permitido se embelezar, ter uma ocupação normal (como, por exemplo, arar o solo), fazer comércio ou compras; ele deve restringir de modo severo os prazeres sensuais. Ao monástico não é permitido a aproximação proposital de leigos com o propósito de receber ofertas melhores de comida e roupas. Deste modo, o monástico ordenado puro se torna o renunciante perfeito e pode-se esperar que progrida rapidamente no caminho. Isso não significa que o monástico não possa viver confortavelmente, mas sim que isso, exceto em casos de crise, não é de sua conta.

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Em terceiro, o monástico tem o apoio institucional para levar uma vida monástica sem se preocupar com as muitas contingências da vida. A instituição é a própria ordenação e os votos, além da assistência da comunidade leiga. Muitas pessoas têm repulsa à mera ideia de instituições religiosas ou religiões organizadas. (Minha filha adulta sempre afirmou não acreditar em religiões organizadas. Ela costumava aparecer no Centro Zen de Austin, onde eu costumava viver como sacerdote, particularmente se algum evento com comes e bebes estivesse acontecendo. Eu dizia a ela que alguém teve que organizar aquilo. Ajahn Brahm gosta de descrever o budismo como a religião mais desorganizada.) A importância da instituição monástica para o budismo é evidente na importância que o Buda lhe deu. Considere que o Buda consistentemente se refere à totalidade de seus ensinamentos como “Dharma-Vinaya”. O Vinaya, metade dessa palavra composta, define em especial a instituição monástica em seus aspectos comportamentais, processuais e sociais. Então é importante entender à quais funções essa instituição serve, tanto para os monásticos como para os leigos.

 

A razão imediata para que os monásticos ordenados exijam assistência institucional é que, no desapego da busca de qualquer vantagem pessoal, se colocam em uma situação extremamente vulnerável e totalmente dependente da boa-fé dos leigos, que devem ter um interesse ativo no bem-estar dos monásticos. Monásticos são como seu gato, que também teria dificuldade de viver sem ajuda. Com esse apoio, os monásticos estão numa posição única de tomar para si inteiramente o estilo de vida monástico com praticamente zero distrações. Assim, o budismo institucionalmente fornece assistência excepcional para um estilo de vida excepcional, para que aqueles que sejam capazes e estejam dispostos a fazer o voto de se comprometer a ele. Uma comunidade budista, com efeito, se compromete a oferecer essa oportunidade àqueles capazes e dispostos de se aproveitar disso, portanto permitindo que um número significante de seus membros avance muito no caminho da prática budista.

 

E isso levanta muitas sobrancelhas no ocidente, talvez em particular numa cultura como a dos Estados Unidos, que valoriza a individualidade e a independência. Questiona-se o seguinte: “Por que os leigos tentando progredir em sua própria prática leiga dão assistência a monásticos para que estes possam progredir em suas próprias práticas?”.

 

Antes que eu responda essa pergunta, considere o seguinte: o monástico que se aproveita da oportunidade fornecida pela comunidade budista, quando se alinha mentalmente ao estilo de vida monástico, ou seja, quando todos seus pensamentos de vantagem pessoal são frustrados totalmente, tem uma enorme reserva de tempo e energia. Essas duas coisas podem ir a qualquer combinação de três direções: primeiro,  prática contemplativa e estudo; em segundo lugar, atividades que beneficiam outros diretamente; e, por último, o sono.

 

Infelizmente, muitos monásticos gostam de dormir muito, mas isso é desencorajado, e a maioria passa muito de seu tempo meditando. Muitos deles se envolvem não apenas em ensinar o Dharma e promover conselho pastoral (funções que se espera de um sacerdote), mas também, em geral, com educação, fundação de hospitais e outros serviços sociais e públicos. Esse envolvimento no bem-estar público não é muito reconhecido no ocidente; eu fiquei surpreso ao ver sua significância na sociedade birmanesa. Temos uma ideia preconcebida de que os monásticos vivem no ócio. Eles têm de ser ociosos no que tange sua própria vida, mas não há nada nos preceitos monásticos que os impeça de ser tão ativos quanto possam em benefício de outras pessoas. A prática monástica não tem nada a ver com fugir do mundo, mas sim com fugir de um envolvimento egocêntrico com o mundo. O venerável Walpola Rahula, autor do clássico “O Ensinamento do Buda”, escreveu outro livro no qual ele traça a história do envolvimento social de monásticos no Sri Lanka nos períodos pré-colonial e também colonial e argumenta que a ideia de que os monásticos são ociosos veio à tona conforme os poderes coloniais desautorizaram os monásticos de seus papéis sociais tradicionais de modo a reduzir sua poderosa influência na sociedade.

 

Então, porque os leigos dão assistência aos monásticos? Esse será o tópico do ensaio da semana que vem em Arte da Vida Leiga.

 

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