O mito do silêncio de Buda

De Bhante Dhammika

O que é muitas vezes referido como o silêncio de Buda tornou-se algo quase proverbial e tem sido amplamente comentado por escritores populares e acadêmicos. Alguns afirmaram que o Buda permaneceu em silêncio quando lhe perguntaram sobre a realidade última porque ele queria evitar a especulação ociosa, porque ele era agnóstico ou até porque não sabia como responder. Outros disseram que ele ficou em silêncio a respeito de Deus, porque “o Divino está além das palavras”. Um escritor diz: “Os budistas entenderam mal o Buda, tomando o seu silêncio como negação. O silêncio de Buda sobre Deus foi mal entendido e os budistas sentiram que Buda indicou a ausência de Deus através do silêncio. Uma vez que você conclui que Deus não existe, então, qual fica sendo o objeto de sua meditação? Se você disser que o Eu é o objeto, não resta nenhum benefício em se interessar por si mesmo, já que você sempre está interessado em si mesmo.”

O respeitado pensador católico Raimon Panikkar escreveu: “A razão última para o silêncio do Buda parece-me não estar enraizada nem na limitação inerente do sujeito humano, nem na imperfeição da nossa cognição, nem na natureza misteriosa e recôndita da realidade. Em vez disso, parece-me que a razão última do silêncio de Buda reside precisamente no fato de que essa realidade última não é”. Essas e inúmeras outras interpretações dão a impressão de que manter um silêncio “paradoxal” ou “místico” em resposta a perguntas era uma característica importante do estilo de ensino do Buda e uma das principais maneiras pelas quais ele comunicava as verdades que havia percebido. A realidade é muito diferente.

O Buda era um defensor do silêncio, mas não como resposta a perguntas, fossem metafísicas ou de outra natureza, mas como uma alternativa à tagarelice ociosa que frequentemente ocorre em um contexto social (MN 26). Ele também encorajou o silêncio em face da raiva e provocação (SN 3.2). Ocasionalmente, ele ficava na solidão por meio mês, período durante o qual ele provavelmente não falava (SN, 45.11). Uma das poucas fontes originais já mencionadas nas discussões sobre o suposto silêncio do Buda é seu diálogo com o errante asceta Vacchagotta. Esse homem fez uma série de perguntas ao Buda: o universo é infinito, infinito, ambos ou nenhum? A alma é o mesmo que o corpo? É diferente do corpo? Uma pessoa iluminada existe depois da morte?… etc. Para cada uma dessas perguntas, o Buda respondeu: “Não sou dessa opinião, Vaccha” (Na kho aham Vaccha evamditthi). Finalmente, Vacchagotta perguntou ao Buda por que ele não tinha opinião sobre esses assuntos e ele respondeu que tais perguntas e quaisquer respostas que poderiam ser dadas a eles são apenas “uma ideia emaranhada, uma ideia confusa, uma ideia contorcida, uma ideia vacilante, uma ideia que agrilhoa (…) está atormentada pelo sofrimento, pela aflição, pelo desespero e pela febre e ela não conduz ao desencantamento, ao desapego, à cessação, à paz, ao conhecimento direto, à iluminação, a Nibbāna.’ Longe de responder às perguntas de Vacchagotta com o silêncio, o Buda era vocal e articulado. Ele explicou claramente que não tem uma opinião e nem a outra sobre as questões colocadas a ele e deu suas razões para tal; porque tentar responder tais questões apenas desvia a atenção das coisas que realmente importam (MN 73). Esse diálogo dificilmente é um exemplo do silêncio do Buda.

Na verdade, só existem dois lugares no Tipitaka onde o Buda se recusou a responder a perguntas feitas a ele. Em outra ocasião, Vacchagotta perguntou ao Buda: “Existe um eu?” O Buda ficou em silêncio. Vacchagotta continuou: “Então não há eu?” e novamente o Buda não respondeu. Talvez aborrecido ou desapontado Vacchagotta se levantou e saiu. Então, Ananda perguntou ao Buda por que ele encarou essas questões com silêncio. Ele respondeu:

“Ānanda, se eu, tendo sido perguntado pelo errante Vacchagotta se existe um eu, tivesse respondido que existe um eu, isso estaria conforme com aqueles brâmanes e contemplativos que são os expoentes da doutrina eternalista (isto é, a idéia de que existe uma alma eterna). E se eu … tivesse respondido que não existe um eu, isso estaria conforme com aqueles brâmanes e contemplativos que são os expoentes do niilismo (isto é de que a morte é a aniquilação da experiência). Se eu … tivesse respondido que existe um eu, isso seria compatível com o surgimento do conhecimento de que todos os fenômenos são não-eu?”

“Não, Senhor.”

“E se eu … tivesse respondido que não existe um eu, o confuso Vacchagotta ficaria ainda mais confuso: ‘Aquele eu que eu costumava ter, agora não existe?’”

(SN. 44.10).

Nesse diálogo, o Buda explicou clara e simplesmente por que ele permaneceu em silêncio; porque ele não queria ser identificado com nenhum ponto de vista filosófico particular e porque ele não queria confundir ainda mais quem fez a pergunta.

O único outro exemplo do Buda permanecendo em silêncio quando questionado é o seu encontro com Uttiya, que perguntou se todo mundo acabaria por alcançar a iluminação. O Buda permaneceu em silêncio e Ananda respondeu por ele (AN. 10.95). Nenhuma razão é dada para o silêncio do Buda neste caso, mas parece que ele considerou a questão irrelevante para a tarefa em questão.

Todas as explicações fantasiosas e especulativas sobre o suposto silêncio do Buda baseiam-se nesses dois incidentes. Elas têm sua origem numa falha em examinar as fontes originais ou, mais provavelmente, num desejo de cooptar o Buda de acordo com as crenças particulares dos escritores, ao invés de qualquer coisa que o Buda tenha dito ou decidido não dizer.

Original: https://www.bhantedhammika.net/essays/the-myth-of-the-buddhas-silence

Tradução: Tiago Ferreira

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