A Arte da Vida Leiga (Parte I)

A maior parte dos ensinamentos do Buda foi dada a monásticos. Mas e quanto aos praticantes leigos? Nessa série de estudos que o blog Budismo & Sociedade começa a publicar semanalmente hoje, o Bhikkhu Cintita Dinsmore discorre sobre a arte de viver do budista leigo. Nesse primeiro de dez capítulos, o monge explica que o budismo é uma religião que permite diversas formas de práticas e que não há um modelo único e exclusivo para os leigos praticarem o Dhamma. Entretanto, ele afirma também que a prática budista se dá a todo instante, não havendo uma separação entre praticar o budismo e realizar outras atividades. Quando se realiza “outras atividades” também devemos praticar o budismo, pois nosso kamma (carma) se manifesta a todo momento.

De Bhikkhu Cintita Dinsmore

wat_pho Interno
Monges à esquerda e leigos à direita no Wat Pho, um dos maiores e mais importantes templos budistas da Tailândia.

Capítulo 1 – Introdução

 

Diligente na administração

ou trabalhando na sua ocupação,

mantendo a vida equilibrada,

a pessoa protege a sua fortuna.

Uma pessoa com convicção,

perfeita em virtude,

magnânima, livre de egoísmo,

constantemente limpa o caminho

para proteção das vidas que virão.

Dessa forma para aquele que busca a vida em família,

essas oito qualidades, que trazem o bem-estar e a felicidade

tanto nesta vida como nas vidas que virão,

foram declaradas por aquele cujo nome é a verdade.

E é assim como, para aqueles que vivem em família,

a generosidade e o mérito se incrementam.

                AN 8.54 (http://www.acessoaoinsight.net/sutta/ANVIII.54.php)

 

A prática do leigo é consistentemente contrastada com a prática monástica nos textos budistas antigos ao longo da história do budismo em todos os países budistas e em quase todas as tradições da Ásia. A segmentação da comunidade religiosa entre os componentes monástico e leigo é uma peculiaridade do budismo, assim como algumas seitas hindus e certas seitas cristãs. No ocidente, geralmente não compreendemos o quão inerente é essa característica em virtualmente todas as sociedades budistas da Ásia, embora se tenha, em geral, ciência de que o Buda e seus discípulos mais próximos foram monásticos e que a maioria dos seus ensinamentos tenham sido dados a monásticos. Essa bifurcação é necessária, ou ainda, é desejável no ocidente democrático?

            O cerne da prática budista, o que realmente distingue o budismo de outras práticas religiosas, é o Nobre Caminho Óctuplo. Notavelmente, o Nobre Caminho Óctuplo não conta com uma distinção entre leigo e monástico; os dois são completamente capazes de cumprir todos os oito nobres passos e nenhum deles está isento de seguir todos estes com o fim de alcançar o mais alto objetivo. Então, o que torna a prática do leigo diferente da prática monástica?

            Não é uma “religião fôrma de bolo”. As obrigações de prática tendem a ser bastante uniformes provavelmente na maior parte das religiões do mundo. O islã é um exemplo primordial porque nele as obrigações diárias são bem definidas para todos. Outro exemplo é o dos quakers: sua governança é até mesmo altamente democrática e não inclui sacerdócio. Provavelmente, a maior parte das seitas protestantes pode ser incluída. Eu chamo essas religiões de “religiões fôrma de bolo”, porque têm uma definição uniforme do que se espera do praticante: que ele viva de acordo com certo código moral, aceite certo credo, siga certas práticas rituais diárias; se espera que isso tenha resultados semelhantes. É claro que as pessoas inevitavelmente se distinguem umas das outras em termos de dedicação ou negligência, mas há bastante força comunitária e um apelo conceitual na uniformidade do paradigma da fôrma de bolo.

            O budismo, em sua forma pura, jamais poderia ser uma “religião fôrma de bolo”. O budismo tem um sistema de sofisticação e profundidade incomuns com muitas partes interligadas e um caminho de prática muito longo e rigoroso que passa por muitos diferentes estágios de desenvolvimento, geralmente concebidos como um processo que toma muitas vidas inteiras, e que culmina no completo despertar. Por conta da potencial profundidade extrema da prática budista, geralmente ela se define conceitualmente em termos de um ideal, em termos daquilo que os mais sinceros, dedicados e afortunados praticantes conseguirão colocar em prática, mas poucos, mesmo entre estes, poderão levar a cabo nessa mesma vida.

            Praticamente todo mundo deixa a desejar em relação ao ideal budista, em graus que variam absurdamente. É reconhecido logo de início que os praticantes vão ser diferentes em se tratando de fé, comprometimento, obrigações e interesses fora do budismo, preferências também no seio da prática budista, zelo, oportunidades de inspiração e de receber instrução, e assim por diante. Disso resulta que alguns praticantes meditarão, mas sem seguir os preceitos, enquanto que outros seguirão os preceitos e praticarão generosidade, mas não terão sucesso em lidar com a moderação nas questões sensuais… Em resumo, no budismo há pouca uniformidade de práticas e, consequentemente, há pouca obrigação em manter algum padrão de prática predefinido. A quantidade e natureza da prática budista são, em última instância, assuntos de gosto e oportunidades pessoais e, assim, há grande tolerância para uma variedade de escolhas pessoais.

            Iniciar o caminho budista é como sair para uma longa caminhada esportiva com um grupo altamente diversificado de pessoas; pessoas de todas as idades, estados de saúde, tipos de calçados, tamanhos de mochilas, graus de embriaguez e assim por diante. Um grupo como este se espalhará ao longo do caminho, sendo que os mais fortes, saudáveis, melhor equipados (com calçados apropriados e carga leve), mais corajosos, persistentes e intrépidos lideram o caminho. No meio, pode ser que haja um casal de adolescentes apaixonados que mantém bom ritmo com arrancadas intensas, mas que, de tempos em tempos, sai da trilha e desaparece do caminho minutos a fio, algumas pessoas de meia idade acima do peso que ficam bufando esbaforidas, lado a lado com alguns ornitólogos em forma, mas idosos. Para o fim da fila estão os pais que arrastam seus filhinhos que já não aguentam “nem mais um passo”, algumas pessoas sentadas numa pedra bebendo cerveja, um senhor de idade assistindo cupins devorarem sua bengala, que ficou cravada num buraco, uma dama que quebrou um de seus saltos na primeira pedra que encontrou pela frente… O caminho budista é definido segundo os líderes da caminhada, os que estão na frente. O resto de nós tenta o seu melhor para acompanhar, manquejando e se arrastando em variados graus; fazemos o que podemos e frequentemente os sucessos dos líderes, histórias sublimes e vistas panorâmicas nos inspiram a tentar com um pouco mais de determinação. Os guias, mapas de trilhas e botas de caminhada high-tech são geralmente projetados tendo os líderes em mente.

Não, não necessariamente os monásticos são os líderes. Entretanto, individualmente as pessoas fazem compromissos com a prática em diferentes alturas nessa diversidade toda, muitas vezes compromissos muito vigorosos. E o budismo fornece referências e apoio comunitário para muitos diferentes níveis, de acordo com o comprometimento individual. Os Refúgios trazem consigo certo incentivo. Há vários conjuntos de Preceitos, de cinco a mais de trezentos, que alguém pode tomar para a vida toda ou para ocasiões especiais. Há práticas ritualísticas comunitárias, palestras do Darma, meditações e outros eventos para encorajar a prática individual a se estruturar. Trabalhar junto a um professor pode ser um apoio para uma forte prática pessoal. A prática monástica é um padrão particularmente forte enraizado no apoio da comunidade budista. A questão é que o budismo tem sim suas fôrmas de bolo, mas são muitos tipos de fôrmas diferentes, incluindo a que dá em monjas e monges, mas muitos praticantes também não se encaixam bem em nenhuma delas.

            A falácia do malabarista. Uma vida mundana comum é cheia de diferentes atividades e compromissos, obrigações e preocupações. Muitas coisas que nós fazemos não são escolhidas como sendo parte de nossa prática budista, ou podem até mesmo ir no sentido contrário de uma boa prática. Por exemplo, fazemos determinada coisa porque é uma obrigação familiar ou porque é nosso trabalho e o chefe mandou que fizéssemos. Fazemos outra coisa porque parece divertido, mesmo que não leve à serenidade e seja de virtude questionável. Nós podemos preferir fofocar, ouvir música alta, assistir um programa de aventura, fazer amor ou dormir a meditar. São escolhas de estilo de vida. Cada um de nós valoriza coisas diferentes e nem todos nossos valores vêm do Buda. Eu sou um monge, então é uma boa estimativa dizer que a maior parte de meus valores está de acordo com os ensinamentos budistas. Porém, eu também sou pai de adultos, e estou ciente de quão significativa e compensadora a paternidade pode ser. A maior parte das pessoas faz malabarismo com muitas coisas além de sua prática budista.

            Esse tema do malabarismo é mais cabeludo do que a maioria percebe: suponha que nossas vidas sejam divididas entre nossa prática budista e outras coisas numa proporção de talvez 10% para 90%.  Então calculamos: “Hmm, se eu praticasse 100%, poderia me tornar iluminado em 1 ano. Seguindo essa lógica, se eu praticar como estou agora, nos 10%, poderia me tornar iluminado em 10 anos; isso parece tanto razoável como aceitável.” Essa mesma lógica é usada para computar o tempo até a completude de diversas tarefas, como, por exemplo, a construção de uma casa quando apenas os fins de semana estão disponíveis, ou aulas noturnas com o propósito de se formar. Porém, essa lógica é falaciosa quando se aplica à prática budista: vou chamar isso de “falácia do malabarista”. A razão pela qual a lógica da falácia do malabarista está errada é que tudo que fazemos é relevante para nossa prática, potencialmente fazendo-a ir de lá pra cá, para frente e para trás, ou dar piruetas. Não importa se chamamos de prática ou não, nada está jamais excluído da prática, seja essa coisa uma prática correta, incorreta ou um meio termo.

            A razão porque nada se exclui de nossa prática é que o carma é sua substância; quero dizer com isso que nosso caráter e destino se desenvolvem de acordo com nossas ações intencionais com corpo, fala e mente. Se esse não fosse o caso, a prática não daria frutos. Contudo, estamos produzindo carma o tempo todo, não somente durante os 10% do tempo que estamos “praticando o budismo”. Na verdade, os 90% do tempo em que estamos fazendo outra coisa que não “praticando o budismo” estão fadados a ditar o ritmo de nosso avanço. Por isso que o Modo de Vida Correto, por exemplo, é tão importante; 40 horas trabalhando num abatedouro é bastante carma acumulado ao fim de uma semana, o suficiente para sobrepujar uma hora de meditação diária independente de quantos anos, ou em quais jhanas estamos meditando. Não podemos traçar uma linha que divide nossa prática e o resto de nossa vida. Todas as coisas com as quais fazemos malabarismo influenciam nosso ritmo e progresso no caminho.

            A vida monástica é uma vida sem malabarismo. Ela é a que mais apoia a prática budista porque não tem nada sobressalente em si, a não ser nossos próprios pensamentos indomados, que se interponha ao desenvolvimento pessoal, e, por causa disso, tem muitas coisas no que se apoiar. De fato, quase todo elemento na vida monástica existe porque envolve puramente a prática budista. Mesmo se minha meditação está frouxa e minha atenção plena descuidada, enquanto eu seguir o estilo de vida monástico, o meu desenvolvimento pelo menos não retrocederá. Pode ser que eu seja como uma pessoa de meia idade acima do peso bufando esbaforida na trilha, mas farei progresso. Se minha prática for ardente, enquanto eu seguir o estilo de vida monástico o progresso no caminho budista será, de fato, bem veloz, e eu poderia ser um dos líderes fortes e em forma, usando botas de caminhada high-tech. A vida monástica foi cuidadosamente formulada e descrita no Vinaya pelo Buda, que usou elementos de práticas ascéticas comuns na Índia de seu tempo. É uma vida de renúncia, mas não de asceticismo extremo; dispensa tudo aquilo que me forçaria a fazer malabarismos.

            A vida de malabarista. A vida leiga é a vida de malabarista, e a maioria das pessoas prefere fazer malabarismo com muitas coisas que um monástico rejeitaria. Para começar, os valores das pessoas são informados através de muitas influências, muitas das quais não são budistas, e esses valores podem ser difíceis de largar. Em segundo, as pessoas variam em níveis de fé e podem não estar convencidas de que os valores budistas ou a vida monástica sejam tal como se propagandeia. Em terceiro lugar, muitos têm obrigações familiares, dividas etc., que os mantêm presos à sua vida de malabarista. A razão mais notável de desacordo para muitos é que os monásticos são estritamente celibatários! Eles também minimizam as responsabilidades familiares, abstém-se de acumular riquezas ou fazer negócios de qualquer tipo ou de conduzir um modo de vida convencional. Eles restringem seus sentidos ao não ir a espetáculos, ouvir música e assim por diante. A vida monástica é simples e, contra toda expectativa, bastante alegre, mas não goza de um apelo universal.

            A prática leiga é a arte do malabarismo. Praticantes leigos seguem o Nobre Caminho Óctuplo do mesmo modo que monásticos, mas, além disso, devem seguir a nona prática extremamente desafiadora do Malabarismo Correto a fim de dar forma e balanço à suas vidas de modo que os aspectos menos budistas de sua vida não sobrepujem ou neutralizem os benefícios da prática budista. A prática leiga é desafiadora, mas não é limitada em seu potencial para o alcance das mais altas realizações da prática budista. O que é preocupante a respeito da vida leiga no ocidente é que tão poucas pessoas percebem que há um aspecto artístico no malabarismo que, se não for aprendido, pode tornar o progresso no caminho praticamente impossível. Eu já vi muitas vezes a prática budista terminar em frustração por conta disso. Espero que a série de textos que estou iniciando aqui ajude os leitores a se tornarem mestres na arte da prática leiga.

            Permitam-me apresentar tal arte em resumo, mas em termos metafóricos que podem ser enigmáticos o suficiente para deixá-los curiosos até semana que vem, mas sugestivos o suficiente para inspirá-los a pensar na prática leiga até lá.

            A arte do malabarismo:

            Selecione. Escolha suas bolas de malabarismo com cuidado. Escolha um conjunto de bolas que te pareça apropriado, sendo todas as bolas do tamanho, peso e aparência certos e que não sejam demasiadas em número.

            Rejeite. Livre-se de bolas que são defeituosas ou que impeçam seu malabarismo. Isso é um teste dos resultados do primeiro passo. Você pode ter sido cativado por uma bola por conta de sua aparência, por exemplo, mas não ter levado em conta seus inconvenientes. Jogue-a fora se for realmente pesada, leve ou pequena demais para ser de utilidade.

            Equilibre. Tenha um relacionamento saudável e equilibrado com suas bolas de malabarismo. Não seja cativado nem se orgulhe demasiado da bola nova, brilhante e dourada ao vê-la zunindo no ar. Sua tarefa é fazer com ela malabarismos com dedicação e habilidade.

            Simplifique. Não faça malabarismo com nada que não seja bolas. Ou seja, enquanto você tem, digamos, seis bolas no ar, não tente ao mesmo tempo responder seu celular, fumar, beber café ou flertar com um membro da audiência.

 

Traduzido por Luiz Fernando Rodrigues

7 comentários em “A Arte da Vida Leiga (Parte I)

  1. Bom dia! É um tema que nunca dediquei muito tempo para as leituras. Realmente exige dedicação e estudos. Vou ler devagar sua página para conhecer um pouquinho. Muito interessante. Grande abraço, Miriam

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