A Arte da Vida Leiga (Parte VII)

A maior parte dos ensinamentos do Buda foi dada a monásticos. Mas e quanto aos praticantes leigos? Nessa série de estudos que o blog Budismo & Sociedade está publicando semanalmente, o Bhikkhu Cintita Dinsmore discorre sobre a arte de viver do budista leigo. Nesse sétimo de dez capítulos, o autor nos sugere incluir em nossa vida cotidiana rituais de devoção. A devoção, tão fora de moda no Ocidente, ajuda nossa mente a encontrar pequenos contentamentos para além de uma vida utilitarista. Isso é o que ele chama de tratar os elementos da vida como um hobby, ou seja, encontrar contentamento servindo aos outros, ao invés de procurar vantagens para si mesmo. A devoção, portanto, faz com que a gente busque servir ao invés de ser servido. Se tratarmos nosso casamento como um hobby, por exemplo, ele nos trará contentamento sem precisarmos esperar que ele nos dê alguma vantagem utilitarista.

Arte da Vida Leiga 7: Equilibrando Elementos

De Bhikkhu Cintita Dinsmore

 

Espero que nas últimas semanas que passaram os conselhos que dei tenham sido úteis no exame dos elementos de sua vida, do que é e do que não é apropriado no contexto da prática budista, mas ao mesmo tempo o que é ou não importante para você. Eu me interessaria em ouvir alguém que possa ter se inspirado ao ponto de fazer algumas mudanças significativas. Contudo, em geral esse exame se dará continuamente; as mudanças que você fizer certamente obterão diferentes resultados em diferentes momentos. E os resultados deveriam ser satisfatórios para você antes que possam ser totalmente incorporados em sua vida. No Dighajanu Sutta (NA 8.54), um grupo de leigos se aproxima do Buda, e eles lhe dizem o seguinte:

 

“Nós somos discípulos leigos que desfrutamos dos prazeres dos sentidos; vivemos numa casa cheia de crianças; gozamos do sândalo de Benares; usamos grinaldas, perfumes e unguentos; recebemos ouro e prata. Que o Abençoado possa ensinar o Dhamma para pessoas como nós, para a nossa felicidade e bem-estar nesta vida, para nossa felicidade e bem-estar nas vidas que virão”.

 

Em resposta, o Buda não os descarta por considerá-los sem valor; não tenta convencê-los, tampouco, de que aquilo que consideram importante não o seja de fato. Ao invés disso, ele respeita liberdade deles para fazer suas próprias escolhas, e usa o que eles disseram como parâmetros nos quais uma vida budista pode ser construída. Nessa semana, levarei adiante o terceiro paço na “Arte da Vida Leiga” que eu chamei de “Equilibrando Elementos”. Vou assumir que há uma série de elementos que são importantes para você e que tem uma relação potencialmente questionável com a prática budista, e discutir como estes podem ser integrados da melhor forma numa vida budista.

 

Vamos supor, apenas como um exemplo, que os seguintes são elementos fixados por você:

  • Assistir Dr. Who (ou algum outro programa de TV semanal);
  • Tomar vinho com amigos;
  • Jogar xadrez, ou um esporte competitivo;
  • Ah! Além disso criar uma família e ater-se a um(a) esposo(a).

 

Você pode substituir os itens acima pela sua própria lista. Essas coisas são importantes para você por motivos alheios à prática budista. Se você fosse monástico, pediria-se que você as deixasse de lado e outras coisas do tipo, pelo menos substancialmente; um sacrifício por vezes muito custoso. Mas uma vez que você não é, por ser um budista leigo, você escolhe fazer malabarismos com essas coisas e outras do gênero na sua vida leiga juntamente com a prática budista. Poderia se pensar que, ao escolher isso, que você dividiu sua vida em duas: vida de prática + o resto da vida, assim se tornando um budista em meio-período. Contudo, pode ser que esse não seja o caso: você pode transformar quaisquer elementos incidentais em uma prática de cunho budista! O princípio orientador é o esvaziamento desses elementos de egocentrismo, pelo menos ao máximo possível. O esvaziamento do ego exige uma mudança em nossa relação com as coisas. Nossa tendência humana é usar as coisas tendo em vista o ganho pessoal; mesmo em nossas amizades e relacionamentos familiares. Podemos fazer isso até mesmo com a prática budista, mas isso geralmente não é uma necessidade exceto para aqueles elementos que já marcamos para exclusão nas duas semanas que passaram. Eu gostaria de considerar três maneiras de ajudar a esvaziar os elementos de egocentrismo: devoção, ritualização e atenção plena, e constância.

 

Devoção. A devoção transforma seu relacionamento com os elementos; se antes ele o servia, com a devoção é você que serve a ele. Transforma este elemento num passatempo (hobby).

 

A família, em especial o cônjuge, é um bom exemplo. Se você tem marido ou esposa, há dois aspectos distintos de seu casamento e um deles pode vir a predominar. O primeiro é bastante autocentrado e calculista: seu cônjuge lhe serve como vazão para seu desejo sexual, uma barreira contra a solidão, apoio parcial do fardo de manter um lar e criar filhos, possivelmente é exibido como um troféu para aumentar sua própria reputação, e assim por diante. Se esse aspecto predomina, então o casamento se torna bastante dispensável: se você conhecer um homem ou mulher mais atraente, mais jovem, mais saudável, menos difícil de lidar, mais trabalhador ou que cozinhe melhor, pode ser que abandone o casamento anterior tendo em vista obter maior vantagem pessoal. Isso é porque esse casamento serve a você. O segundo aspecto é altruísta e fiel. O casamento é um refúgio, um tesouro, algo que você escolheu trazer para sua vida, preservar e aprimorar. É significativo por si só e a vantagem pessoal está fora de questão. O casamento se torna um fim em si ao invés de um meio para algum outro fim. É claro que motivos egoístas podem ameaçar essa atitude, muito comumente atração sexual por alguém novo, mas um casamento altruísta e fiel resistirá mesmo a isso, talvez com alguns retoques.

 

Da perspectiva da prática budista, a devoção é ótima. É um meio primordial de desapegar-se da compulsão pela vantagem pessoal, que, ao contrário da justificativa que venha a ter, nunca resulta em felicidade. A devoção é o que trazemos à tona quando iniciamos a prática budista: devoção ao Buda, ao Darma e ao Sanga. Eu penso na devoção como a mente de quem tem um passatempo: um alegre pescador, um costureiro, um ornitólogo, um colecionador de linhas. Você já notou como a maioria dos passatempos (hobbies) é inútil, o quão difícil é explicá-los a pessoas que não os conhecem, e, quando eles têm alguma utilidade, o quão circunstancial ela é? Um casamento é baseado na devoção quando se torna inteiramente um passatempo. Eu penso que o que atrai as pessoas aos passatempos é que eles aliviam de modo sensível a tensão de lidar com a compulsão implacável por vantagem pessoal com a qual a maioria de nós somos dotados.

 

Ora, a maioria das coisas pode ser abordada de modo devocional, mesmo se essa não seja a motivação original – mesmo tomar álcool! Como você transforma o hábito de beber vinho num passatempo ao invés de uma indulgência luxuriosa de entornar litros de álcool? Bem, muitas pessoas fazem exatamente isso: se tornam degustadores. Aprendem tudo que podem sobre a variedade de vinhos, o processo de manufatura, visitam vinhas e experimentam o bouquet e gosto de cada tipo, compram garrafas de vinho especial que colocam em alteres especiais chamados “estantes de vinho”. Eles levam muito a sério o ritual de tirar a rolha da garrafa, e frequentemente têm equipamentos muito especializados para fazê-lo, então cuidadosamente areiam um vinho tinto, refrescam um vinho branco, tomam vinho tinto com carne vermelha, branco com peixe ou frango, e assim por diante. (Eu compreendo que a rolha não tem nenhuma função prática na preservação do sabor do vinho; a tampa de rosca moderna na verdade funciona melhor, mas ela deixa a desejar na ritualística da coisa, e, portanto, a rolha sobreviveu até nossos dias como um selo de escolha para os degustadores.) Uma das coisas interessantes sobre tudo isso é que impede o impulso de entornar rapidamente a bebida; esse impulso, na verdade, é malvisto pelos degustadores de vinhos cultos, ainda que uma festividade moderada seja apreciada.

 

Outra coisa interessante é que, em nossa cultura, particularmente na “alta sociedade”, há muitas práticas semelhantes a essa e que elas raramente são consideradas práticas religiosas, ainda que eu pense que suas motivações sejam idênticas. Elas são práticas religiosas. Como uma generalização disso tudo, eu deveria indicar que há uma grande diferença, que pode ser caracterizada como devoção, entre o modo como um músico ouve música, do modo como um diretor de cinema ou aficionado assiste um filme, e assim por diante. Se para a maioria das pessoas música e filmes são uma questão de consumo pessoal, para o devoto eles perdem muito dessa qualidade.

 

Então como você desenvolve uma atitude de devoção em relação a algum elemento que você gostaria de incluir em sua vida? A religião, não apenas o budismo, faz o uso comum desses elementos: votos, deveres, expressões de reverência e lembretes. Pode haver outros, mas esses me ocorrem neste momento.

O voto é uma expressão implícita de intenção. A palavra “voto” tem a mesma raiz que “devoção”. Normalmente, um casamento começa oficialmente com a recitação de um conjunto de votos:

 

Eu, José da Silva Sauro, recebo a ti, Rosa Cravo e Canela, como minha esposa legítima. Prometo ser fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza por todos os dias da nossa vida até que a morte nos separe”.

 

Curiosamente, o budismo não provê grande estrutura para esse tipo de voto leigo. Não sei o porquê. Praticamente toda sua vida pode ser levada com votos.

 

Os deveres enumeram maneiras de realizar devoções ou um voto. Por exemplo, no Sigalovada Sutta (DN 31, http://www.acessoaoinsight.net/sutta/DN31.php), o Buda dá uma lista resumida de deveres do marido para com sua esposa:

 

“De cinco formas um esposo deve servir a esposa (…) : honrando-a, não depreciando-a, sendo-lhe fiel, dando-lhe autoridade, dando-lhe ornamentos.”

 

Note o último. O Buda também dá uma lista resumida de deveres de um patrão:

 

“De cinco formas um senhor deve cuidar dos seus serviçais e empregados (… ): dando-lhes trabalho de acordo com as suas habilidades, dando-lhes comida e pagamento, cuidando deles na doença, compartilhando iguarias com eles, dando-lhes folga periodicamente.”

 

Mesmo seu relacionamento com empregados pode ser substancialmente um de devoção, e não um de vantagem pessoal.

 

As expressões de reverência desempenham um importante papel no budismo, em particular na forma de se curvar e do gesto de anjali/gassho, e dos padrões de cuidado a objetos representativos de devoção. Essas coisas não são tão desenvolvidas na cultura ocidental. O Sigalovada Sutta começa quando o Buda encontra alguém fazendo prostrações e questiona:

 

“Por que razão você, jovem chefe de família, tendo se levantado cedo pela manhã e partido de Rajagaha, está com as roupas úmidas e o cabelo úmido, orando, com as mãos postas, para as várias direções – o Leste, o Sul, o Oeste, o Norte, o Nadir, e o Zênite?”

 

“Meu pai, senhor, quando estava morrendo, me disse para fazer isso. E eu, senhor, respeitando, reverenciando e honrando a palavra do meu pai, levanto-me cedo pela manhã, parto de Rajagaha e oro, com as mãos postas, para essas seis direções.”

 

Ao invés de admoestar o jovem chefe de família por praticar ritualística vazia, o Buda lhe oferece uma interpretação útil:

 

“Mas, jovem chefe de família, essa não é a forma, que, de acordo com a disciplina dos nobres, as seis direções devem ser veneradas. (…) Essas seis coisas devem ser encaradas como as seis direções. A mãe e o pai devem ser encarados como o Leste, os mestres como o Sul, a mulher e filhos como o Oeste, os amigos e sócios como o Norte, os serviçais e empregados como o Nadir, os contemplativos e brâmanes como o Zênite.”

 

Outras expressões de reverência são tomar conta ou lavar pessoas ou objetos de devoção, ou dar presentes. É interessante notar que, na cultura ocidental, tal reverência é amplamente reservada para objetos de apego material, especialmente carros. Quando interpretadas adequadamente, as expressões de reverência são meios poderosos de manter uma atitude devocional, de modo a esvaziar o ego.

 

Os lembretes ritualísticos são como anéis de casamento ou chaveiros de golfe.

Continua na próxima seguinte.

 

Traduzido por Luiz Fernando Rodrigues

Revisão: Tiago da Silva Ferreira

Links:
A Arte da Vida Leiga Parte 1
A Arte da Vida Leiga Parte 2
A Arte da Vida Leiga Parte 3 
A Arte da Vida Leiga Parte 4
A Arte da Vida Leiga Parte 5
A Arte da Vida Leiga Parte 6

2 comentários em “A Arte da Vida Leiga (Parte VII)

  1. Agradeço o esforço e o empenho dos envolvidos na tradução e postagens desses artigos. Eles me têm sido de grande auxílio. Faltam- me palavras. Só agradecimentos. Muito obrigado.

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