Porque os budistas deveriam apoiar o casamento igualitário

Muitos budistas tem se posicionado sobre a homossexualidade e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas raramente se fala sobre o que o próprio Buda disse a respeito. Neste texto, Ajahn Sujato examina no Cânone Páli o que Buda Gotama falou sobre o tema tanto nos Suttas quanto na Vinaya.

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O casamento igualitário é uma das problemáticas sociais e legais fundamentais dos nossos tempos. Gostaria de oferecer uma perspectiva budista.

Assim como tantas questões éticas e sociais, especialmente aquelas que envolvem sexualidade, percebemos que as religiões querem estar no centro das atenções. As igrejas cristãs conservadoras lideram a oposição ao casamento igualitário. Mas não podemos fazer generalizações sobre as religiões. Muitos cristãos acreditam que a mensagem de Cristo de compaixão e amor, e o fato dele nunca ter feito nenhuma afirmação sobre a homossexualidade, dão margem ao apoio ao casamento igualitário.

Na Austrália, houve um interessante intercâmbio entre o líder católico super conservador, George Pell, e o grupo Australian Marriage Equality. O AME pediu para encontrar o Cardeal Pell, e ele consentiu em fazê-lo, desde que o AME concordasse que nem toda oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo era resultado de homofobia ou discriminação. A AME concordou e publicou a seguinte declaração:

“Assim como reconhecemos que é possível se opor ao casamento igualitário sem odiar os homossexuais, pedimos aos que diferem de nós a respeito dessa importante questão que reconheçam que é possível apoiar o casamento igualitário sem ter a intenção de arruinar o casamento, a família ou a religião.”

É um excelente ponto de partida e um raríssimo exemplo de diálogo como deveria ser.

Mas e o budismo? Assim como qualquer problemática, vamos encontrar uma variedade de posições; e assim como qualquer problemática – e peço desculpas se isso soa cínico – a maioria dessas posições tem pouco a ver com qualquer coisa que o próprio Buda disse ou fez.

Em alguns casos encontramos líderes budistas que expõem esse tema ético com franqueza. Ajahn Brahm (i) tem se adiantado no apoio à comunidade gay por muitos anos, tanto na Austrália quanto no exterior. O Mestre Hsin Yun, o líder da ordem internacional Fo Guang Shan, disse:

As pessoas frequentemente me perguntam o que penso sobre a homossexualidade. Eles se perguntam, está certo, está errado? A resposta é que não é certo nem errado. É apenas algo que as pessoas fazem. Se as pessoas não estão prejudicando umas às outras, suas vidas privadas são da sua conta; devemos ser tolerantes com eles e não rejeitá-los.

Por outro lado, o Dalai Lama tem repetidamente sustentado que atos homossexuais são uma violação dos preceitos (ii). Ao mesmo tempo, ele insiste na compaixão e plenos direitos humanos para todos. Sua posição está unicamente preocupada com qual é o comportamento apropriado para o praticante budista, não com o que deveria ser legislado.

O argumento dele é que os órgãos sexuais são projetados para a procriação e deveriam ser usados unicamente para este propósito. Então, toda forma de sexo que não é para procriação fica excluída.

Isto é, para minha cabeça, uma posição extrema e irrealista. O Dalai Lama diz que se baseia em certos estudiosos medievais indianos (Vasubandhu, Asanga – mas eu nunca vi as passagens). Certamente não tem base nos Suttas. Pelo contrário, os Suttas reconhecem livremente que o sexo é para o prazer, e nunca fazem disso um problema. O budismo não é uma religião de fertilidade, então por que deveríamos insistir que o sexo é para a procriação está além da minha compreensão.

O preceito encontrado nos textos budistas primitivos não menciona nada sobre se o sexo é para procriação ou não. O que fala, unicamente, é se a relação sexual envolve a traição de um contrato social. Aqui está o texto. É uma passagem conhecida, encontrada por exemplo no Majjhima Nikaya 41 e no Anguttara Nikaya 10.176 e 10.211:

Eles cometem má conduta sexual. Eles têm relações sexuais com mulheres que têm mãe, pai, irmão, irmã, parentes ou clã como guardiões. Eles têm relações sexuais com uma mulher que é protegida por princípio, ou que tem um marido, ou cuja violação é punível por lei, ou que foi enaltecida com um noivado.

‘Kāmesu micchācārī hoti, yā tā māturakkhitā piturakkhitā mātāpiturakkhitā bhāturakkhitā bhaginirakkhitā ñātirakkhitā gottarakkhitā dhammarakkhitā sasāmikā saparidaṇḍā antamaso mālāguḷaparikkhittāpi, tathārūpāsu cārittaṃ āpajjitā hoti.’

A maior parte destes textos é bem direta. Referem-se às mulheres que não são “independentes” em nosso sentido moderno, mas que vivem sob a autoridade de outras pessoas. Normalmente, é claro, essas moças viviam em casa e depois em uma família com o marido. Existem variações significativas, portanto os arranjos eram flexíveis.

É digno de nota que, enquanto os textos hindus dizem que uma mulher deve sempre estar sob a autoridade de um homem, encontramos aqui que viver sob a autoridade de uma mãe está no mesmo nível que viver com o pai, e [viver com] uma irmã está no mesmo nível de viver com um irmão, sem nenhuma implicação de quem tem a preferência.

Em alguns casos, parece que as mulheres viviam sob a proteção da família mais ampla. Aquela que é “protegida por princípio” é provavelmente alguém adotado, órfão ou que de algum outro modo recebe cuidados. Aquele que é “punível” está ambíguo: significa que a mulher deve ser punida (como criminosa)? Ou significa que ter relações sexuais com ela é punível? O texto não esclarece. A mulher “enaltecida como um noivado refere-se a uma mulher que é, no nosso sentido moderno, “comprometida”, mas ainda não casada.

Obviamente, a passagem destacada acima se refere apenas ao homem como agente. Isso não significa que as mulheres não possam quebrar esse preceito! Como muitos dos textos budistas, esse aqui é formulado a partir do ponto de vista masculino (andocêntrico) e se aplicaria igualmente a ambos os gêneros. A implicação desta passagem é que são as mulheres que ficam sob proteção. Isso reflete a realidade social do tempo do Buda; não endossa a situação, nem diz que as mulheres não possam ou não devam viver de forma independente. Apenas diz que se uma mulher (e presumivelmente um homem) está vivendo um relacionamento comprometido, então não deve trair.

Está claro: o preceito contra má conduta sexual não tem nada a ver com a homossexualidade (ou qualquer outra forma de atividade sexual como tal). Ele preocupa-se com o rompimento dos laços de confiança com aqueles que amamos e nada mais. Embora as especificidades das relações sociais no tempo do Buda sejam diferentes das atuais, não é difícil descobrir como aplicá-las em nosso contexto, pelo menos na maioria dos casos.

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Casamento homossexual no Mianmar

Então, se o preceito não se preocupa com a homossexualidade, o que o Buda disse sobre o assunto? Nós no Budismo temos muita sorte de termos milhares de discursos, onde o Buda faz observações ou críticas a respeito de vários tipos de questões éticas. Estupro, pedofilia, adultério: estes e muitos outros problemas são claramente mencionados nos textos primitivos e o Buda deixou claro que não os aprovava.

No caso da homossexualidade, entretanto, não temos nada nos Suttas. Nos milhares de discursos, nenhum sequer tratou a homossexualidade como um assunto significativo.

Há uma passagem no Cakkavattisihanada Sutta que é às vezes citada por aqueles que tentam provar que o Buda era anti-gay. O texto discute vários exemplos de decadência moral na sociedade. Uma das práticas mencionadas é, em Páli, micchā-dhamma. Trata-se do mais genérico termo para atos incorretos que pode ser feito em Páli. Pode ser traduzido como “ensinamentos errados”, “más práticas”, “ações equivocadas”. O comentário, compilado 1000 anos depois no Sri Lanka, entretanto, diz que significa “Desejo lascivo de homem para homem e de mulher para mulher” (Micchādhammoti purisānaṃ purisesu itthīnañca itthīsu chandarāgo.) Uma vez que isto não tem base no texto [original], permanece como registro da atitude do comentador medieval. Não há evidência, até onde eu saiba, que essa atitude foi representativa da cultura theravadim ou cingalesa em geral.

Os Suttas essencialmente ignoram assuntos relacionados à homossexualidade. Argumentos derivados da omissão são sempre complicados. Mas a presença de milhares de discursos detalhando listas de vários tipos de violações éticas, sugere fortemente que o Buda tentou ser razoavelmente abrangente no tratamento de preocupações éticas e a homossexualidade não era uma delas.

O panorama na Vinaya é um pouco diferente. A Vinaya é um código legal para monásticos e uma vez que regula a conduta de uma ordem celibatária, lida com todo tipo de comportamento sexual possível. Ela o faz com tamanho grau de franqueza e candura que muito chocou os primeiros tradutores europeus que simplesmente omitiam longas partes do texto ou com uma estranha consideração pela delicada sensibilidade dos jovens leitores, os traduziam para o latim.

Atos homossexuais, assim como quaisquer outros atos sexuais imagináveis, são retratados muitas vezes na Vinaya, tanto entre monges quanto monjas. Em cada caso, o Buda é mostrado respondendo de sua maneira usual e direta. Obviamente, o comportamento homossexual, como qualquer comportamento sexual, é inadequado dentro da comunidade monástica celibatária, por isso o Buda a proíbe. No entanto, isso é feito em um tom direto e verdadeiro, e nunca há uma sugestão de que haja algo errado com o sexo gay em si.

Em muitos casos a pena é, na verdade, menor em caso de comportamento homossexual. Por exemplo, um monge tocar outro homem eroticamente é uma ofensa menos grave do que o mesmo ato cometido com uma mulher. Sexo entre mulheres, da mesma forma, é tratado com menos seriedade do que entre uma mulher e um homem. Há uma passagem onde se diz que o Venerável Sariputta, o principal discípulo do Buda, teve dois noviços como estudantes. Entretanto eles fizeram sexo um com o outro. O Buda estabeleceu uma regra de que não se deveria pegar dois noviços como estudantes ao mesmo tempo! (Essa regra, como muitas outras, mais tarde foi atenuada.)

No entanto, seria um erro ler isso como indicação de que o Buda considerava a sexualidade homossexual como sendo mais permissível dentro da Sangha. A Vinaya, como um código legal, freqüentemente faz julgamentos por várias razões técnicas, e não há correlação forte entre o peso moral de um ato e a severidade com que ele é tratado na Vinaya. Por exemplo, construir uma cabana excessivamente grande é uma ofensa séria, ao mesmo tempo em que bater em alguém que está à beira da morte é uma ofensa menor.

Então não devemos levar muito em conta a relativa leniência de como alguns atos homossexuais são tratados na Vinaya. O ponto principal é simplesmente que a homossexualidade é tratada da mesma maneira que qualquer outra expressão da sexualidade.

Nestes relatos, não há nada que realmente corresponda à nossa noção moderna de orientação sexual. De modo geral, atos homossexuais não passam disso, atos. Não há a ideia de uma pessoa que seja exclusiva ou principalmente atraída por pessoas do mesmo sexo.

Os textos falam de um certo tipo de pessoa, chamado paṇḍaka. Eles eram tipicamente masculinos, mas também havia mulheres (itthīpaṇḍikā). Um paṇḍaka está proibido de ordenar-se e é regularmente associado à sexualidade desenfreada. No entanto, não está claro exatamente o que significa paṇḍaka. As descrições dos paṇḍakas são poucas e nem sempre consistentes, mas parece que havia algum atributo físico envolvido, bem como um conjunto de comportamentos culturais. Talvez eles fossem algum tipo de eunuco que prestasse serviços sexuais. Em qualquer caso, um paṇḍaka claramente não é um homossexual no sentido moderno da palavra. Eles podem estar relacionados com as classes modernas de Hijras e similares, que são consideradas um “terceiro sexo” na Índia, incluindo transexuais, hermafroditas e eunucos.

Em suma, o budismo primitivo está bem ciente dos atos homossexuais e nunca os trata como um problema ético. A homossexualidade como orientação sexual não é encontrada.

Isso está completamente de acordo com a postura do Buda sobre ética. O Buda não julgou eticamente pessoas, julgou atos. As pessoas são simplesmente pessoas que fazem vários tipos de coisas, algumas boas, outras ruins. Se uma pessoa realiza um ato que causa dano, isso é o que o Buda considerou “inábil”. Se a ação não causar danos, não será inábil.

O problema básico da ética sexual, abordado no terceiro preceito, é a traição. “Má conduta sexual” é um comportamento sexual que causa danos ao quebrar a confiança que um ente querido depositou em nós. O Buda era compassivo e nunca estabeleceu regras éticas que causassem dano ou sofrimento. Estabelecer uma proibição moral contra a homossexualidade marginaliza e prejudica pessoas que nada fizeram de errado, e isso é contra os princípios básicos da ética budista.

É muito importante manter essa questão ética essencial em mente. Nas discussões sobre a homossexualidade, como em qualquer outra questão ética controversa, existe uma tendência generalizada para confundir a questão. Por que achamos tão difícil olhar racionalmente para uma questão ética? É verdade, existem alguns problemas que são complexos e os detalhes podem ser difíceis de resolver. Mas esse não é um deles.

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União poliamorosa na Tailândia

Inúmeras vezes nos dizem, por exemplo, que a homossexualidade não é natural. Certamente uma rápida reflexão nos mostraria que isso não é verdade porque há vasta homossexualidade no mundo animal. De qualquer forma, como o sexo gay seria mais antinatural do que, digamos, digitar em um teclado ou embrulhar alimentos em plástico? Mas isso tudo é irrelevante. Ser “não natural” não é uma questão ética. A questão é saber se [a ação] causa dano e não se ela é natural ou não. Isso não é mais uma questão ética do que a escolha, digamos, entre comer vegetais orgânicos ou não orgânicos.

A homossexualidade também é comumente ligada à “decadência” sexual em geral. Dizem que os homossexuais são pedófilos, ou promíscuos, ou que causam doenças como a aids. Permitir relações homossexuais seria licenciar todo tipo de devassidão. Essa objeção também não é válida: os gays se comportam de todas as maneiras possíveis, assim como os heterossexuais.

Culpar os gays pela aids é um dos argumentos mais cruéis possíveis. Nos sentimos na obrigação de trazer exemplos que mostram o absurdo dessas visões. E os bebês nascidos com aids? E aqueles que contraem a aids por transfusão de sangue? A incidência da malária é muito maior entre os pobres – devemos culpá-los também? Pelo fato da incidência de aids entre lésbicas ser muito baixa – o lesbianismo teria preferência cármica?

Nem deveríamos ter que nos importar com esses exemplos. Assim como os argumentos mencionados acima, a ideia toda está equivocada. Peguemos o “pior cenário possível”, o clichê do homem gay promíscuo, irresponsável, drogado e descuidado. Podemos não pensar que seu comportamento é louvável ou sábio, mas ele merece uma morte lenta, prolongada e dolorosa? Estamos realmente confortáveis em proclamar o direito de destruir uma vida humana, porque pensamos que o modo como eles buscaram o prazer foi irresponsável? Todo esse argumento é desumano e indigno.

Se existem comportamentos que os gays praticam e que aumentariam a transmissão do HIV, por exemplo, podemos tentar mudar esses comportamentos, da mesma forma que tentaríamos ajudar qualquer pessoa que inadvertidamente estivesse causando mal. O que o movimento pela igualdade no casamento quer é permitir que pessoas de várias orientações sexuais vivam em uma estrutura aceita, reconhecida e legal que assegure o desenvolvimento de relacionamentos afetivos compromissados. Banir o casamento gay é a melhor maneira de garantir que os gays permaneçam marginalizados.

Outro ponto negativo, a meu ver, é o argumento “nasci desse jeito”, que é frequentemente usado por aqueles que apoiam a igualdade de casamento. A homossexualidade, conforme este argumento, não é uma escolha, algumas pessoas são assim e não podem mudar. Embora este seja um fato importante, se contestado, ele erra a questão ética. E se alguns gays não se sentirem “nascidos assim”? E se eles sentirem que fizeram uma escolha consciente? Se este é o caso ou não, ou se há de fato fatores biológicos ocultos envolvidos, e daí? Ter relações sexuais com alguém do mesmo sexo não é uma ação prejudicial, nem se casar com alguém do mesmo sexo. Seja por determinismo biológico ou por livre arbítrio, nada de nocivo é feito, então não há problema ético.

Talvez o argumento mais falacioso contra o casamento gay seja simplesmente o de perturbar os costumes da sociedade. O casamento sempre foi entre um homem e uma mulher, portanto, prejudicará a sociedade se for feito de outra forma.

Este argumento, favorecido pelos conservadores, mais uma vez, está completamente equivocado. O dano já ocorre. Violência, trauma e abuso fazem parte da realidade viva de milhões de pessoas perfeitamente boas ao redor do mundo, simplesmente porque fazem ou querem fazer sexo com pessoas do mesmo sexo. Parte da sociedade está ferida e precisa ser curada.

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União poliamorosa entre tailandeses.

Esse é o mesmo argumento que foi usado para se apor à abolição da escravatura, ao voto das mulheres, ao direito de propriedade para todos e assim por diante. Em cada caso, aqueles em posição de privilégio esforçaram-se para impedir outros de conseguirem os mesmos direitos. E como o custo da desigualdade é carregado pelo “outro”, ele não existe para os privilegiados.

Quando introduzimos a compaixão na equação, entretanto, reconhecemos que a sociedade tem sido sempre imperfeita. Só porque uma coisa foi feita no passado não quer dizer que fosse correta. Talvez tenha sido o caso de que em certos momentos e lugares nossos costumes matrimoniais fizessem mais sentido do que fazem agora. Mas esse não é o ponto. O ponto é, qual é a coisa certa a se fazer agora? Continuar a excluir, marginalizar e discriminar? Ou ampliar nossos horizontes morais para aceitar e incluir plenamente todas as pessoas?

Se a homossexualidade em si não é um problema, e o casamento entre pessoas do mesmo sexo? Nesta área o Buda tem menos ainda a dizer. Na verdade, não existe algo como um casamento budista. Os budistas simplesmente adotam os costumes de casamento das culturas em que se encontram. O modelo mais básico, portanto, era o costume da Índia antiga. Ele tem sido a base dos costumes familiares budistas, adaptado em cada sociedade onde o budismo chegou.

Na Índia antiga, havia diversas formas de casamento. Como todas as coisas indianas, não há insistência em uma verdade e forma correta de fazer as coisas. Alguns textos hindus listam toda uma variedade de possibilidades para o matrimônio, que estão correlacionadas com os níveis da cosmologia indiana. A forma mais elevada de matrimônio é o “Casamento de Brahma”, onde a noiva e o noivo, cada um deles puro em linhagem e casta, são unidos na mais perfeita das cerimônias. Se o casamento é carente de algumas perfeições de detalhes, é considerado como pertencente às classes inferiores de divindades. O mais baixo dos casamentos auspiciosos é o casamento de gandharva, onde a noiva e o noivo simplesmente fogem. Há ainda as várias uniões não auspiciosas, as dos yakkhas ou rakkhasas, onde, por exemplo, a mulher é raptada à força.

Junto da diversidade de estilos matrimoniais, havia diferentes arranjos conjugais. A monogamia parece ter sido comum, e é claro que eram casamentos arranjados – mas antigos textos budistas também registram uma intensa luta das mulheres por autonomia nas escolhas conjugais. A poligamia também era comum e era a norma para os reis. A poliandria era menos comum, mas foi fundamental para o mais famoso de todos os textos hindus, o Mahabharata. Aparentemente, a poliandria era comum no Tibete.

Eu não estou tentando sustentar que o sistema de casamento indiano é superior ao do Ocidente. Eles tem seus próprios problemas com os casamentos entre castas, casamentos arranjados, violência doméstica e assim por diante. Estou apenas afirmando que tradicionalmente tem havido uma diversidade adaptativa de arranjos de vida que eram consideradas formas válidas de casamento, e que isso pode ser visto de certa forma como um precedente para a ideia moderna de casamentos entre pessoas do mesmo sexo.

Portanto, sempre houve uma flexibilidade e diversidade nos costumes matrimoniais na esfera indiana que contrastam claramente com a “única e exclusiva” forma correta de casamento que é, em geral, endossada pelas religiões monoteístas contemporâneas. Casamentos entre pessoas do mesmo sexo não eram, pelo que sei, historicamente reconhecidos na esfera cultural indiana. Tampouco tenho conhecimento de quaisquer leis contra eles, como as que encontramos nos dias de hoje. Dadas as grandes variações nos costumes matrimoniais, incluindo muitas formas de casamento que não seriam consideradas válidas nos tempos modernos, parece que a abordagem típica indiana era a da tolerância e inclusão. Consequentemente, quando a lei britânica que tornou o sexo gay um crime foi revogada na Índia em 2009, algumas autoridades hindus aplaudiram a medida, dizendo que a homossexualidade fazia parte da ordem divina.

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Cerimônia de casamento budista entre homens em Phuket, Tailândia.

Infelizmente, essa atitude tolerante nem sempre é o caso hoje em dia. Às vezes, encontramos polêmicas do Hindutva contra a homossexualidade. Tal discurso, infelizmente, muitas vezes vocifera contra a influência supostamente depravada da moral “ocidental”, indiferente ao fato de que as atitudes anti-gay foram importadas para a Índia pelas religiões monoteístas. Esta ambiguidade já foi expressa pelas mais altas autoridades da Índia. Goolam Vahanvati, então vice-procurador-geral e atual procurador-geral, declarou ao Conselho de Direitos Humanos da ONU:

“Por volta do início do século 19, vocês provavelmente sabem que a homossexualidade era desaprovada na Inglaterra e, portanto, há relatos históricos de que várias pessoas vinham à Índia para aproveitar sua atmosfera mais liberal em relação a diferentes tipos de conduta sexual.

Como resultado, em 1860, quando ganhamos o Código Penal Indiano, que foi elaborado por Lord Macaulay, inseriram a Seção 377, que introduziu o conceito de ‘ofensas sexuais contra a ordem da natureza’.

Já na Índia, não tínhamos esse conceito de algo ser ‘contra a ordem da natureza’. É essencialmente um conceito ocidental que permaneceu ao longo dos anos. Agora, a homossexualidade como tal não é definida no IPC, e será motivo de grande discussão se é ‘contra a ordem da natureza’”.

Uma situação semelhante também acontece em outros países budistas. No Japão, na China e em outros lugares, as primeiras gerações de missionários cristãos ficaram chocados com a aceitação casual do comportamento homossexual entre os budistas. Imediatamente começaram a tentar persuadir o mundo de que sua própria versão de caráter sexual era a correta para todos.

Infelizmente, gerações modernas de budistas e hindus estão agora fazendo esse trabalho por eles, alheios ao seu próprio passado mais tolerante e compassivo. Quando um monge tailandês como Thattajiwo, um dos líderes da Dhammakaya (iii), se dirige contra os “pervertidos sexuais”, que invocam a justiça kammica da aids (“o carrasco dos loucos por sexo”) sobre si mesmos, alheios ao poço do pecado em que caíram, e os sofrimentos ainda maiores que os esperam em futuros infernos de tormenta dominados por doenças; ele está meramente repetindo os excessos raivosos dos fundamentalistas cristãos e islâmicos. (Phra Thattajiwo Bhikku. Waksiin Porng-kan Rook Eet [Uma vacina para proteger-se contra a AIDS]. Pathumthani: Fundação Thammakay.) Tal “ética” apocalíptica e condenatória não tem base nos ensinamentos do Buda.

Então, na conjuntura atual, o que devemos fazer? Para o Buda, a homossexualidade claramente não era uma preocupação. Assim como também não era preocupação prescrever formas válidas de casamento. O que era uma preocupação, por outro lado, era a compaixão. A essência da compaixão é alcançar aqueles que estão sofrendo, aqueles que são marginalizados e perseguidos. As pessoas cuja orientação sexual variam da maioria sofrem discriminação, bullying na escola, violência e trauma emocional. Como budistas, devemos reconhecer um claro imperativo moral para ajudar onde pudermos.

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Casamento entre mulheres num templo budista em Taiwan.

Podem argumentar que uma vez que o Buda não fez nenhuma declaração sobre a legalidade do casamento gay, devemos fazer o mesmo. Mas o problema é um pouco mais sutil do que isso. Estamos vivendo em uma cultura onde, com base em denominadas ideias religiosas e culturais, certas formas de viver a vida foram tornadas ilegais. Isso é um resultado do condicionado e sempre arbitrário curso da história, não uma característica atemporal da paisagem humana. Na Austrália, por exemplo, não havia nenhuma lei federal clara que proibisse o casamento entre pessoas do mesmo sexo até 2004.

Apoiar o casamento igualitário não é introduzir algo novo, mas simplesmente abolir as leis que discriminam. A injustiça já está em vigor. O dano já está sendo feito. A mudança é apenas para remover a influência prejudicial de leis discriminatórias, que nunca deveriam ter existido para começo de conversa.

Pessoas são pessoas, independentemente do sexo, cor, nacionalidade ou orientação sexual. O Buda ensinou “para aquele que sente”. Esse é o único requisito para a prática budista: aquele que sente. No passado, nossa sociedade decretou que o casamento não deveria ser entre pessoas de raças diferentes, ou cores diferentes, ou religiões diferentes ou nacionalidades diferentes. Com o tempo, decidimos que essas regras eram prejudiciais e as abolimos.

Catástrofes foram previstas: elas não aconteceram.

O que houve, ao contrário, é que nos tornamos um pouco mais abertos e um pouco mais conscientes do sofrimento dos outros. O teste de nossa geração é se podemos continuar esse movimento em direção a um modo de viver mais receptivo e amoroso, ou se devemos regredir a um posição mais cruel e insensível.

Minha sociedade, minha cultura, aquela de que me orgulho e quero pertencer, é essa. A sociedade que é gentil, questionadora e que aceita. Vamos considerar os melhores aspectos de nossas próprias culturas, sejam eles culturas budistas ou modernas, e descartar tudo o que é injusto, discriminatório e prejudicial. Vamos dar todo o nosso apoio ao casamento igualitário, pois, se não o fizermos, estaremos traindo a melhor parte de nossa humanidade.

Ajahn Sujato

Texto original em inglês: https://sujato.wordpress.com/2012/03/21/1430/

Traduzido por Tiago da Silva Ferreira

NOTAS

(i) Monge britânico que é abade do Mosteiro Bodhinyana, na região de Perth, Austrália.
(ii) Aparentemente o Dalai Lama modificou sua visão sobre a homossexualidade depois deste texto ter sido escrito por Ajahn Sujato. Aqui há um vídeo sobre o novo posicionamento dele: https://www.youtube.com/watch?v=pJVvVSr8E2M

(iii) A Dhammakaya é uma seita budista que surgiu nos anos 70 na Tailândia e que é conhecida por suas práticas e ensinamentos controversos, como a cobrança de altas quantias de dinheiro em troca de méritos.

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