Não deixem Aung San Suu Kyi de fora de seu papel no genocídio no Mianmar

Na semana passada, um proeminente professor budista defendeu Aung San Suu Kyi, a budista vencedora do Prêmio Nobel da Paz e líder civil do Mianmar, contra as críticas de que ela é parte do genocídio. Khin Mai Aung explica por que essa defesa não se sustenta.

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Recentemente, o respeitado lama butanês Dzongzar Khyentse Rinpoche postou uma carta aberta no Facebook minimizando o brutal genocídio dos rohingyas no Mianmar e expressando apoio à líder de fato do país, Aung San Suu Kyi. A líder política tem sido criticada nos últimos anos por seu apoio tácito ao atual genocídio em seu país. Em sua carta, Rinpoche rejeita essas críticas como colonialismo ocidental. Ao deixar Aung San Suu Kyi livre da sua cumplicidade no genocídio do Mianmar e em grande parte fechar os olhos para o sofrimento dos rohingyas, Rinpoche endossou implicitamente a desenfreada mentalidade anti-rohingya no Mianmar e na diáspora birmanesa. O assombroso fracasso de Rinpoche em demonstrar o princípio central budista da compaixão diante do sofrimento dos rohingyas nas mãos dos militares do Mianmar é profundamente decepcionante.

Em sua carta, Rinpoche apresenta argumentos válidos e reverberantes sobre os dois pesos e duas medidas, a hipocrisia e o paternalismo do ocidente. Vestígios do colonialismo perduram até hoje tanto para os colonizadores quanto seus antigos súditos. Como já escrevi antes, o colonialismo é de fato culpado por grande parte dos problemas contemporâneos do Mianmar. As autoridades coloniais britânicas intencionalmente alimentaram as tensões entre a maioria budista bamar e as minorias étnicas por meio de uma estratégia de “dividir para conquistar”, semeando o ressentimento entre os bamares e minorias como os rohingyas. Rinpoche lembra-nos ainda que as atrocidades cometidas pelas potências ocidentais – antes, durante e depois do colonialismo – são frequentemente subestimadas e convenientemente esquecidas. Ele está certo de que os abusos cometidos por potências ocidentais, como os Estados Unidos, que atingiram o Laos com um número sem precedentes de bombas durante a guerra do Vietnã, não são tão amplamente lembrados como deveriam ser. Em um nível mais mundano, ele também está certo de que os ocidentais às vezes cooptam, descontextualizam e exotizam as tradições e práticas orientais (como a ioga e a meditação) – roubando-lhes seu significado e essência.

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Khin Mai Aung é ativista dos direitos humanos.

Mas sua defesa da dolorosa cumplicidade de Aung San Suu Kyi no genocídio dos rohingyas com base nessas preocupações legítimas é onde Rinpoche sai dos trilhos. Rinpoche diz que a crítica a Suu Kyi é “um sinal do insidioso colonialismo que continua a estrangular a Ásia e o mundo”. Ele está errado. O clamor global a respeito da perseguição aos rohingyas – e a falha de Aung San Suu Kyi em denunciá-lo – não é paternalismo do Ocidente impondo seus valores ao Mianmar. Pelo contrário, é uma resposta válida à subjugação sangrenta de uma minoria profundamente destituída de poder pelas forças armadas birmanesas (usando táticas que os militares também implementaram contra outras minorias étnicas e religiosas durante décadas) e à falta de vontade da liderança civil eleita do país em questionar essa brutalidade.

Rinpoche estabelece uma dicotomia Oriente versus Ocidente e esconde sua defesa de Aung San Suu Kyi dentro da linguagem correta do anticolonialismo, escrevendo “esperam que nos prostremos diante da moralidade ocidental” e “é hora de restaurar a dignidade de nossas próprias grandes tradições e legados da sabedoria oriental”. Ao fazê-lo, Rinpoche involuntariamente dá apoio à narrativa alternativa do Mianmar sobre os maus tratos aos rohingyas. Essa abordagem abre a porta para que apologistas birmaneses – incluindo, mas não exclusivamente, líderes políticos como Aung San Suu Kyi – façam uso abusivo dos rohingyas como parte do nobre esforço do Mianmar para preservar sua identidade étnica e religiosa em face da opressão ocidental. Nessa narrativa, o Mianmar está simplesmente rejeitando o jugo do domínio colonial, purgando o país de estrangeiros “bengalis” trazidos para o país por superintendentes britânicos – não exterminando e expulsando um grupo minoritário vulnerável e impotente. A alegação de que os rohingyas não são nativos do Mianmar é infelizmente reforçada pela declaração de Rinpoche de que os britânicos trouxeram “a maioria” dos rohingyas para a Birmânia durante o período colonial como mão-de-obra barata para trabalhar em plantações de arroz. É verdade que muitas pessoas descendentes de sul-asiáticos foram importadas do subcontinente indiano para o Mianmar pelas autoridades coloniais britânicas. Mas, como outros salientaram em resposta à carta de Rinpoche, tanto os muçulmanos rohingyas quanto meus próprios ancestrais, os budistas rakhines (outra minoria étnica no Mianmar), coexistiram pacificamente durante séculos em ambos os lados do rio Naf, que agora marca a fronteira Mianmar-Bangladesh. Rinpoche ignora este fato importante, se rende e reforça a crença birmanesa de que todos ou a maioria dos rohingya são estrangeiros do Bangladesh.

Também não é exato sugerir que Aung San Suu Kyi está sendo julgada de acordo com a moralidade ocidental, quando ela mesma passou a maior parte de sua vida fazendo campanha pela democracia e liberdade de expressão. Em 2010, ela disse: “A base da liberdade democrática é a liberdade de expressão”. Se é essa a crença dela, por que seu partido político proibiu os muçulmanos de buscarem cargos nas eleições do Mianmar de 2015? E por que ela permanece em silêncio enquanto jornalistas são presos por denunciarem o genocídio rohingya? É colonialista apelar a Aung San Suu Kyi para que defenda os próprios princípios que ela passou a vida promovendo?

Apesar de sua extensa crítica ao Ocidente, Rinpoche lamentavelmente omite um exemplo óbvio e relevante da influência ocidental que impacta negativamente o Mianmar. Ele repudia apaixonadamente a infeliz influência da sociedade ocidental, afirmando que “nós, asiáticos, fomos ensinados a menosprezar nossas próprias nobres tradições e a valorizar valores ocidentais, literatura e música, a mascar chiclete e usar jeans desbotados, abraçar o Facebook e a Amazon, e a imitar as maneiras e instituições ocidentais”. Rinpoche esquece-se do fato de que o exército birmanês usou ativamente o Facebook para divulgar sua propaganda e encorajar a violência religiosa. Se Rinpoche quer realmente que Aung San Suu Kyi rejeite o jugo do colonialismo ocidental, ele deve questionar porque ela tolera o uso da tecnologia ocidental pelos militares birmaneses para implementar sua própria versão de “dividir para governar”, inflamando as tensões étnicas e religiosas no Mianmar.

A profunda ironia da declaração de Rinpoche de que “nossos próprios holocaustos são convenientemente esquecidos e enterrados na lata de lixo da história” me assombra. Cegado pela raiva dos dois pesos e duas medidas do Ocidente, Rinpoche não vê como suas palavras podem ajudar o Mianmar a enterrar seu próprio genocídio na “lata de lixo da história”. Sua disposição de deixar Aung San Suu Kyi (e, por extensão, o restante do governo civil do Mianmar) livre por falhar na defesa dos rohingyas e outras minorias étnicas no Mianmar é desanimador. O que a comunidade budista internacional precisa é de uma liderança moral e ética de líderes religiosos proeminentes como Rinpoche, e não de desculpas para políticos incapazes ou não dispostos a defender os mais vulneráveis. Rinpoche está absolutamente correto sobre o mundo ocidental ser capaz de ser hipócrita e detrator em relação aos não-ocidentais, e que os não-ocidentais, por sua vez, são às vezes indevidamente deferentes em relação ao Ocidente. Mas, ao ver a crítica estrangeira contra Aung San Suu Kyi apenas por esse ângulo, ele obscurece a verdade maior sobre os abusos aos direitos humanos no Mianmar. E, tragicamente, ele ignora o fato de que a liderança civil do Mianmar abandonou a crença budista central na dignidade humana inata de cada pessoa – inclusive a dos rohingyas.

Original em inglês: https://www.lionsroar.com/aung-san-suu-kyi-letter/
Tradução: Tiago Ferreira

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