Carta de Dzongzar Kyentse Rinpoche em apoio à Aung San Suu Kyi a respeito da crise rohingya

Em seu texto mais polêmico dos últimos anos, o lama butanês Dzongsar Lamyang Khyentse sai em defesa de Aung San Suu Kyi, afirmando que as críticas que ela recebe por seu suposto corpo-mole diante da crise rohingya, não passam de propaganda colonialista do Ocidente. O posicionamento dele causou polêmica em parte da comunidade budista, que reagiu com críticas. O blog Budismo & Sociedade publica a carta e a resposta de uma ativista social budista do Mianmar.

 

Querida Honorável Aung San Suu Kyi,

Nestes tempos difíceis, sinto-me motivado a escrever-lhe para expressar o meu profundo respeito e apreço por tudo o que fez durante tantos anos em prol da luta pela liberdade do seu povo e, especialmente, pela sua grande coragem e perseverança na defesa dos seus princípios ao longo de quase 15 anos de prisão domiciliar.

Você permanece em minha mente uma verdadeira heroína desta era, mais do que digna do Prêmio Nobel e outras honras que você recebeu. E também estou escrevendo para dizer que fiquei chocado nos últimos meses com a remoção de muitos desses prêmios – das cidades de Edimburgo, Oxford, Glasgow e Dublin à sua cidadania honorária canadense.

Essas ações chocantes contra você revelam um flagrante dois pesos e duas medidas.

Sem fazer nada e apenas há oito meses no cargo, o presidente Obama recebeu o Prêmio Nobel da Paz. No entanto, ninguém exigiu que o mesmo fosse retirado depois que ele matou milhares de civis em ataques aéreos e bombardeios no Oriente Médio. De fato, a desnuclearização da Coreia do Norte fará mais pela paz mundial do que qualquer coisa que Obama já tenha feito, tornando Donald Trump e Kim Jong-un muito mais dignos de um Prêmio Nobel.

Ainda mais sutilmente, no entanto, a hipocrisia de tirar prêmios é um sinal do insidioso colonialismo que continua a estrangular a Ásia e o mundo. Nós, asiáticos, fomos ensinados a menosprezar nossas próprias nobres tradições e, em vez disso, a valorizar os valores ocidentais, a literatura e a música, a mascar chiclete e a usar jeans desbotados, abraçar o Facebook e a Amazon e imitar as maneiras e instituições ocidentais.

Estamos atormentados por nos sentirmos culpados pelo Holocausto Europeu da Segunda Guerra Mundial, enquanto nossos próprios holocaustos são convenientemente esquecidos e enterrados no lixo da história. Quantos ocidentais lamentam os 15 milhões de deslocados e milhões de mortos na partição britânica da Índia, ou os cinco milhões de civis mortos na Coreia e no Vietnã?

Quem recorda que os EUA lançaram dois milhões de toneladas de bombas no Laos entre 1964 e 1973; número quase igual ao montante das bombas que caíram na Europa e na Ásia durante toda a Segunda Guerra Mundial – tornando o Laos o país mais fortemente bombardeado da história em relação ao tamanho da população. E quão rapidamente nos esquecemos dos holocaustos genocidas dos séculos XVI ao XVIII que mataram cerca de 130 milhões de americanos nativos – mais de 90% dos povos indígenas de lá. Nós, não ocidentais, temos considerável razão para nos queixarmos dos invasores europeus que agora reivindicam autoridade moral sobre nossas vidas.

Hoje, estamos tão ensoberbecidos pelo Ocidente e tão imersos na mentalidade ocidental que tal crítica é vista quase como um sacrilégio. Dessa forma, devo acrescentar que nada que eu esteja escrevendo para você aqui significa qualquer falta de apreciação pelas grandes contribuições do Ocidente para a civilização humana. Da música, arte e literatura soberbas às descobertas científicas e médicas brilhantes, à filosofias como o anarquismo, as criações do Ocidente são surpreendentes.

Mas ao observar as ações do farisaísmo ocidental contra você nos últimos meses, eu me convenci que finalmente é hora de dizer a verdade sobre as estruturas coloniais e visão de mundo que eles nos impuseram e que persistem até hoje. Acima de tudo, é hora de restaurar a dignidade de legados e tradições da nossa própria sabedoria oriental.

Muitos pensam erroneamente que a era “colonial” de invasão e controle ocidentais já passou há muito, uma vez que a maioria dos países asiáticos e africanos conquistou aparente independência política há mais de meio século. Mas, como os “pós-colonialistas” notam com razão, a estrutura econômica e política da era colonial continua a moldar a vida em todo o mundo.

De fato, as ideologias, os estilos de vida e os sistemas de moralidade ocidentais estão agora mais profunda, sutil e perigosamente arraigados do que nunca. Alheio às profundas tradições de sabedoria do oriente, o legado colonial de hoje continua a corroer e destruir nossa própria herança.

Por exemplo, outrora sabíamos como respeitar e viver em harmonia com a natureza. Hoje, fomos engolidos pelo sistema capitalista ocidental juntamente com seu materialismo ganancioso, engarrafamentos, poluição, emissões de gases do efeito estufa e insaciável consumo de recursos. Se esse sistema não está servindo ao ocidente e está literalmente destruindo o planeta, por que ele deveria servir ao oriente?

Para sustentar esse sistema, o Ocidente se põe tão orgulhoso de seus supostos “direitos humanos” e “democracia”, os quais deveríamos imitar cegamente. Mas são apenas com limitados direitos individuais que o Ocidente se preocupa e, mesmo assim, sobretudo para os ricos e poderosos. Os EUA e a maioria das outras constituições ocidentais não dão proteção aos direitos sociais, como o direito a um emprego, habitação, educação, saúde e água potável.

E quando convém, o Ocidente viola de modo agressivo esses mesmos direitos individuais. Escrever isso, em tese, é um exercício do meu direito à liberdade de expressão. Mas a liberdade de expressão é um embuste se os ouvintes são intolerantes e se rotulam, estigmatizam e demonizam o escritor. De fato, “a tirania da maioria” atualmente inclui os chamados “progressistas” que nos campi dos EUA obstruem com frequência pontos de vista com os quais não concordam, especialmente se esses pontos de vista ofenderem certos grupos.

Isso é tão irônico, porque a obsessão atual dos progressistas ocidentais com a política de identidade contribui diretamente com seus inimigos professos. Nas palavras do ultra-direitista Steve Bannon: “Quanto mais eles falam sobre políticas de identidade, mais eu ganho. Quero que eles falem sobre racismo todos os dias. Se a esquerda está focada em raça e identidade e nós focamos no nacionalismo econômico, podemos esmagá-los.”

Com efeito, para se rebelarem contra toda essa síndrome liberal-democrática capitalista, a China, o Vietnã, o Laos e a Coréia do Norte engoliram outra importação ocidental, o comunismo, que está totalmente em desacordo com história e cultura deles. Não admira que esse modelo falso esteja desmoronando por toda parte diante do aperto do mesmo capitalismo que ele buscava contornar.

Até mesmo a palavra “desenvolvimento” é uma imposição colonial ocidental. Os países industrializados do Ocidente são considerados “desenvolvidos”, enquanto supostamente “nos desenvolvemos” em direção ao seu ideal ocidental disfuncional. Para o Ocidente, há apenas uma direção aceitável para todo o mundo – ser capitalista, “democrático”, individualista e, portanto, “desenvolvido” e consumir mais de forma imprudente.

Enquanto isso, nossos próprios pontos de vista e tradições que poderiam literalmente salvar a humanidade são rotulados de “subdesenvolvidos” e “supersticiosos”. Enquanto se espera que nos submetamos à moralidade ocidental, ignoramos os profundos valores morais decorrentes de nossa herança da sabedoria oriental; que os colonizadores não só dilaceraram, como nos ensinaram a odiar e a sobrepujaram com a sabedoria deles.

E as partes de nossa tradição que o Ocidente acha úteis agora também são colonizadas e cooptadas, perdendo inteiramente a profunda herança da sabedoria indiana. A Flórida e a Califórnia agora “certificam” professores de yoga.

Alguns “professores budistas” ocidentais escrevem livros que convenientemente distorcem os ensinamentos budistas de acordo com suas próprias propensões racionais e científicas. “Gurus” autoproclamados editam e plagiam pedaços úteis desses ensinamentos como se fossem sua própria invenção, perdendo-se sua essência e nunca reconhecendo a fonte.

De fato, o próprio budismo está sendo colonizado e tornado irreconhecível à medida que seus insights e métodos extraordinários são alterados, desmantelados e estripados para se adequarem às tendências da ciência ocidental e dos modismos da autoajuda.

Para manterem a “objetividade” e serem socialmente aceitos, acadêmicos budistas de terno e gravata escondem sua própria afiliação, evitam a terminologia budista e destinam qualquer manifestação da cultura oriental a festas de vestidos extravagantes. Até mesmo professores orientais agora evitam conscientemente a iconografia e o visual budistas e customizam sua vipassana e outras meditações para atender às expectativas ocidentais seculares. Mais amplamente, os profissionais asiáticos são rápidos ao se curvarem aos valores ocidentais e descartarem suas próprias tradições como arcaicas e supersticiosas, equiparando erroneamente modernização e a ocidentalização – colhendo, dessa forma, as recompensas de ser rotulado como “moderno”, “progressista” e “mente aberta”. Sem validação ocidental, eles vêem suas próprias realizações como sem valor.

A ironia é que quando músicos japoneses, coreanos e chineses aprendem e tocam música clássica ocidental, eles têm o maior respeito pela integridade da música tal como ela é e como foi composta. Mesmo na vida cotidiana e na cultura popular, os asiáticos tentam fielmente copiar a forma como os ocidentais pensam, olham e agem, em contraste com muitos estudiosos ocidentais que manipulam, retiram coisas de contexto e até mesmo alteram o que eles tomam do oriente e depois impõem sua própria versão modificada a nós com autoridade moral obstinada.

Esse tipo de colonialismo psicológico e moralizante é sutil e perigoso, como você mesmo já experimentou dolorosamente. Para o Ocidente, as únicas “vítimas” qualificadas são aquelas que o próprio Ocidente oprimiu, e espera-se que o resto de nós se junte ao seu coro de culpa e penitência.

Não nos atrevemos a ressaltar que as supostas vítimas deles vitimaram brutalmente o nosso povo durante séculos. Para mim, a outorga e a remoção dos seus prêmios tipifica a cultura da hipocrisia criada por esse legado colonial predominante. Esses prêmios não significam nada além de outro meio para nos colonizar e nos tragar para o sistema de valores ocidentais, enquanto eles felicitam uns aos outros. Na verdade, eu pessoalmente pago os correios para você enviar sua cidadania honorária canadense de volta à Ottawa. Você não precisa dela!

Para mim, você continua sendo a heroína que você verdadeiramente é. E para muitos que não ousam falar, mas que secretamente concordam, você personifica nosso próprio movimento MeToo.

Nada do que escrevo aqui justifica os erros cometidos pelos militares birmaneses. O que estou dizendo é simplesmente que as ações ocidentais contra você e todo o histórico e contínuo legado colonial que eles refletem estão errados. O impacto pós-colonial da dominação econômica e da imposição ideológica é muito mais prejudicial aos nossos povos e ao planeta do que qualquer coisa que você tenha feito. Uma pessoa culpada não pode ser um juiz e não tem credencial para dar ou remover um prêmio.

Além disso, nada que eu escreva aqui nega o sofrimento do povo rohingya. Mas em vez de culpar você, os britânicos irão pelo menos reconhecer sua responsabilidade colonial por trazerem a maioria dos rohingyas de Bengala nos séculos 19 e 20 como mão-de-obra barata para trabalhar nos arrozais birmaneses?

Se os britânicos realmente se importarem e quiserem reparar os danos que causaram à Birmânia e aos rohingyas, eles migrarão os rohingyas para o Reino Unido e lhes darão cidadania, em vez de deixá-los definhar nos campos de refugiados. E em vez de revogar seus prêmios como eles fizeram, Oxford, Sheffield, Newcastle, Edimburgo e Glasgow vão reassentar os rohingyas lá.

Muitos vão rotular o que estou escrevendo para você aqui como “partidarismo”, “ataque ao ocidente” e coisas do tipo. Mas temos sido tão profundamente enredados pelo colonialismo ocidental por tanto tempo que agora não temos escolha a não ser romper o silêncio, falar e abordar o que há muito é um tabu. Faz tempo que celebramos as vitórias das guerras dos EUA e da Inglaterra, mas ousamos olhar para o que essa dominação global ocidental significou para nós?

Se nós mesmos evitarmos iniciar essa conversa, e se a Índia, a China e outros continuarem absorvendo modelos ocidentais, os únicos a falar serão aqueles que não fazem segredo de seu ódio pelo Ocidente. Será que realmente queremos deixar o campo de jogo aberto apenas ao ISIS e aos piores extremistas para que digam a verdade sobre desafiar a arrogância ocidental?

E é por isso que estou escrevendo isso para você – porque para muitos de nós, você representa soberbamente esse caminho do meio. Você permaneceu forte, manteve seus princípios, lutou incansavelmente por seu povo e recusou-se a curvar-se ao moralismo ocidental hipócrita que agora se revela na remoção desses prêmios. Nisso, tenha certeza de que você tem a nossa admiração e apoio.

É mais difícil sugerir uma estratégia eficaz para um diálogo genuíno sobre as questões difíceis que estou levantando aqui. Parece que os colonizadores ocidentais só ouvirão se tivermos muito petróleo ou outros recursos de que necessitem.

Alternativamente, temos que procurar o ponto fraco dos ocidentais, que parece ser seu orgulho e culpa. Hoje em dia, eles não ousam criticar muçulmanos ou judeus por medo de serem rotulados de islamofóbicos ou antissemitas. Por isso, talvez precisemos começar cunhando novas palavras para preconceitos anti-budistas e anti-asiáticos para evocar sua culpa e medo dessas fobias.

Mais uma vez, por favor, aceite meus sinceros agradecimentos por tudo que você fez e continua a fazer pelo seu povo e por nossa orgulhosa herança oriental.

Sinceramente Seu,

Dzongsar Lamyang Khyentse

Texto original: http://buddhistchannel.tv/index.php?id=8,13276,0,0,1,0#.XAx8OGhKjIV
Tradução: Tiago da Silva Ferreira
Confira a resposta de Khin Mai Aung, uma ativista budista birmanesa aqui.

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