A comunidade budista deveria se engajar em ativismos sociais? Confira nesta entrevista com Ajahn Sujato.

Em dezembro de 2016, Ajahn Sujato concedeu uma entrevista a Raymond Lam, escritor sênior do site Buddhistdoor. O monge, engajado politicamente, falou sobre várias questões sociais contemporâneas, incluindo: ambientalismo, política e direito das bhikkhunis. Confira abaixo:


Uma tarde com Ajahn Sujato: coragem pessoal e a restauração do objetivo moral da Sangha

por Raymond Lam

O alto e robusto professor da tradição da floresta, de Ajahn Chah, da Tailândia fala com um sotaque australiano tipicamente grosseiro, mas suas palavras de sabedoria e compaixão não soam nem um pouco como grosseria. Embora eu tenha tendências e inclinações tradicionalistas, há tempos venho admirando o Bhante [n. t.: venerável monge] Sujato, que se ordenou em 1994 e renunciou à sua identidade como Anthony Best para viver a vida monástica. Ele é um dos mais incisivos e corajosos pensadores progressistas do Budismo Ocidental da atualidade. Ele não tem atualizado o seu famoso blog, que continua sendo uma fonte interessante de críticas sociais budistas, por causa de seu isolamento criativo em Taiwan durante o ano passado para trabalhar em seu principal projeto, o Sutta Central, que é um site que hospeda textos antigos de budismo em mais de 30 idiomas.

A decisão deste venerável monge de se envolver crítica e intelectualmente em questões de justiça social veio há muitos anos, na Tailândia. Ele tinha visto um artigo a respeito das Bhikkhunis, as monjas completamente ordenadas.  Segundo o Bhante: “O monge que estava sendo entrevistado naquele artigo estava fazendo declarações a respeito das bhikkhunis que eu, por ser estudante do Vinaya [n. t.: código de disciplina budista] sabia que estavam erradas. Então o que eu deveria fazer sobre isso? Eu deveria ficar sentado e deixar isto acontecer? Eu deveria escrever uma carta ao editor ou entrar em contato com aquele monge…?”.

“Então eu percebi que, enquanto estivesse vivendo na Tailândia, eu seria simplesmente um convidado no país dos outros. Alguém já estava cuidando do meu visto e tal. E eu sabia que estas questões eram muito delicadas, então mesmo eu fazendo algo condizente com a verdade, alguns considerariam isto como sendo pura controvérsia. Me parece que dizer coisas que não são verdades não é controverso, mas dizer a verdade é controverso”, acrescentou rindo.

“Esta foi uma das coisas que me impulsionaram a querer voltar para a Austrália, meu lar, e achar um jeito de viver o Budismo onde eu pudesse continuar com minhas meditações e contemplações, mas também viver de um modo que eu pudesse me sentir autêntico em relação às minhas opiniões. Eu acho que o mundo que temos hoje é muito dominado por opiniões que não possuem muita sabedoria. Não estou dizendo que eu tenho uma grande sabedoria, mas espero que, por causa do Dhamma, eu possa ter pelo menos um pouco da sabedoria de Buddha para compartilhar”.

Os acadêmicos leigos e monásticos (como o Ven. Analayo e o próprio professor de Sujato, Ajahn Brahm) têm feito extensas pesquisas que já deveriam ter mostrado que o Vinaya do Theravada permite a recriação da ordem das bhikkhunis. Além disso, na verdade, a ordem das bhikkhunis já está ressurgindo nos países onde o Theravada está presente, como na Indonésia, Sri Lanka e Tailândia. Estes movimentos de base são apoiados por muitos leigos ansiosos pelas produtivas contribuições que as monjas poderiam estar oferecendo, e não podem ser simplesmente deixados de lado por conta da maioria ideológica budista, que é dominada por homens.

O Bhante ainda tem ouvido inúmeras afirmações incorretas sobre as bhikkhunis. “’Bem, como você não pode viver como uma bhikkhuni hoje em dia, quer dizer que o Buddha não se preocupou com igualdade’… e este é um dos mais leves. Ouvi coisas como ‘se você apoia as bhikkhunis, você vai para o inferno’. É uma linguagem grosseira que não se baseia em sabedoria ou amor. Baseia-se no ódio e no medo. Por isso, muitas pessoas ficam intimidadas e preferem não se envolver nestas questões. As pessoas estão presas em suas próprias maneiras de pensar e há ganância, ódio e ilusão em todos os lugares. É perceptível a existência de muito interesse próprio”.

Ele é perspicaz ao diferenciar o Dhamma do modo que a tradição budista se manifestou em uma cultura como a da Tailândia. “Muito do que é considerado como Budismo em várias culturas tem pouquíssimo a ver com o verdadeiro Dhamma, e mais a ver com prestígio e bilhares de dólares em patrimônios”. Foi oferecido ao Bhante vários mosteiros durante seu último ano a Tailândia e ele ainda conta do caso com incredulidade. “O número de monges entrou em colapso e, portanto, há estes mosteiros completamente vazios. Minha ideia é que as bhikkhunis poderiam se mudar para estes mosteiros – do meu ponto de vista isso seria uma coisa boa – mas também significaria que os monges perderiam a posse deles”.

Houve uma quebra de confiança entre a Sangha [n. t.: comunidade monástica] Tailandesa e os budistas leigos que devem cuidados a ela? “Certamente, há menos confiança do que antigamente. A Tailândia é uma comunidade mista e, como em qualquer lugar, há monges bons e ruins. Penso que a tendência geral é uma diminuição da fé das pessoas em relação à Sangha. Uma das razões pelas quais eu acho que a confiança na Sangha entrou em colapso foi que, em geral, ela se tornou muito preguiçosa e decadente”. Ele relatou uma história durante a década de 1960, quando Ajahn Chah visitou Londres com um companheiro e um punk abordou-os verbalmente na rua: “Qualé a tua, meu chapa?”. Após o ocorrido, Ajahn Chah declarou, com ironia, que ele deveria trazer todos os seus monges sêniores à Grã-Bretanha.

“Eu também falei deste assunto com Ajahn Brahm. Nós não percebíamos o quão egoístas e arrogantes nós estávamos nos tornando até sair da Tailândia e voltar para a Austrália, por causa do modo como éramos venerados. Era muito, excessivo”.  Bhante insiste que uma coisa é tratar a sangha com respeito, outra coisa é tratar os monges de um jeito que promova um relacionamento doentio com os leigos. Ele, pessoalmente, teve um maravilhoso tempo na Tailândia, mas desapontou-se pelo fato de a sangha não ter acompanhado o desenvolvimento da Tailândia nas últimas três décadas. Ele também mantém um ousado desprezo por algumas práticas que vê como supersticiosas, como as bonecas amuleto (muitas vezes custando milhares de dólares) que são trazidas aos templos budistas para serem abençoadas. Alguns dizem que isto é apenas o Budismo tailandês, mas Bhante discorda, sugerindo que também é tradição tailandesa a autocrítica e a tentativa de melhorar.

Embora não tenha atualizado o seu blog há algum tempo, ele não desistiu de fazer críticas políticas e sociais ao mesmo tempo em que se concentra no Dhamma. “Eu acho que os budistas frequentemente se sentem muito tímidos para avançar e não são corajosos em seus discursos”, pontuou. “Creio que o mundo está perdendo muita sabedoria budista, ainda mais com algo que ouvi em meu país de origem, a Austrália Ocidental: o ex-primeiro ministro Geoff Gallop disse a um grupo de monges que os políticos precisam ouvir mais da comunidade budista. Eles querem ouvir mais, mas não sabem o que a comunidade budista realmente quer ou o que ela pensa a respeito dos problemas. O Budismo tem sim como contribuir na esfera política da Austrália”.

Bhante é particularmente crítico em relação ao modo como o governo australiano está lidando com as mudanças climáticas e acabando com as legislações ambientais. “Nós passamos de um dos países mais avançados nas questões do meio ambiente para um dos mais retrógrados, durante a última década”. Ele falou com dezenas de políticos do Partido Liberal a respeito das mudanças climáticas (na Austrália, o Partido Liberal representa as políticas de direita). “Muitos deles simplesmente não sabem nada, enquanto outros querem somente fazer dinheiro com combustíveis fósseis. Eu estava falando com o ministro do meio ambiente na época, Greg Hunt, e perguntei-lhe ‘O quanto você vem falando sobre as mudanças climáticas no Partido Liberal?’, e a sua resposta me surpreendeu: ‘eu penso nestas coisas todo dia’. Então eu disse: ‘com todo respeito, não foi isso que eu lhe perguntei’. Desde então nunca mais tive uma resposta dele”

Em seguida ele falou com um ministro indígena da Austrália Ocidental (o nome do ministro escapou-lhe naquele instante). “Ele era um homem amável, muito gentil e sábio, e eu lhe perguntei a mesma coisa. Ele disse, ‘nem um pouco, ninguém fala sobre isso”.

Ele vem respondendo por possíveis acusações de que poderia estar “politizando” o Budismo ao ressaltar que, no Vietnam e no Sri Lanka, há monges nos partidos políticos e no parlamento. Um conselho monástico nomeado pelo rei administra a sangha tailandesa, enquanto em Myanmar a sangha funciona de acordo com a decisão do parlamento. “O quão politizado podemos ficar?”, ele ri. “E no Tibet, os monges eram o governo. Esse envolvimento político se distancia muito do que fazemos ou defendemos no Ocidente”.

Por fim, as ideias do Bhante são tanto um aviso quanto um encorajamento. Se os budistas não falarem com vozes de compaixão e sabedoria, o vácuo será preenchido por vozes de ilusão e violência. Ao invés de ouvir as vozes budistas, os governos ouvirão os lobistas das industrias de carvão e de armas. “Ser engajado significa apenas falar sobre questões que envolvem as pessoas. Isto não significar que temos que fazer politicagem, tentando exercer poder sobre os outros, ou manipulá-los. Sempre seja claro, civilizado, educado e gentil. Lembre-se que a única razão pela qual estamos falando é a de tentar ajudar todos os seres. O Budismo tem sido uma potência compartilhada de valores que influenciou toda a Ásia, e eu adoraria ver estes valores sendo articulados no nosso mundo de hoje, porque eles podem ajudar a resolver questões extremamente urgentes”.

 


Fontehttps://www.buddhistdoor.net/features/an-afternoon-with-ajahn-sujato-personal-courage-and-restoring-the-sanghas-moral-purpose

Para conhecer o Budhhistdoor Global, site onde foi publicada a entrevista, clique aqui.

Para conferir o Blog de Ajahn Sujato, clique aqui.

*** Traduzido por Caio Rafael Silveira

 

 

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