As tradições Theravāda e Mahāyāna precisam uma da outra. Sem cooperação, o Budismo estará condenado!

Neste artigo, Bhikkhu Cintita Dinsmore discorre, com argumentos históricos, sobre como ocorreu o distanciamento entre as duas tradições. Segundo ele, nunca houve, de fato, uma desunião como a que vivenciamos em séculos recentes. Além disso, o autor aponta a extrema necessidade de uma ajuda mútua entre estas escolas, deixando de lado possíveis contradições e conflitos.


As tradições Theravāda e Mahāyāna precisam uma da outra (1/4)

por Bhikkhu Cintita Dinsmore

 

A divisão do Buda-Sāsana  (S: Śāsana) [I] entre as tradições Theravāda e Mahāyāna começou na Índia como diferenças doutrinárias, mas foi na própria Índia, quando a Sāsana acabou por se extinguir, que estas duas grandes tradições começaram a se isolar geográfica e substancialmente uma da outra, Theravāda ao sul e Mahāyāna ao norte; tradições que passaram a se tratar de forma não amigável e, principalmente, apenas por conhecimento teórico. Desta forma, o que começou como distinções nas doutrinas tornou-se uma separação geográfica e cultural. Nós, agora, vivemos em um mundo globalizado, onde estas duas grandes tradições não podem deixar de se encontrarem; elas estão próximas uma da outra, vivendo lado a lado em quase todas as grandes cidades ocidentais e em muitas cidades asiáticas. Além disso, a curiosidade, juntamente com o incentivo acadêmico, ampliou o diálogo entre os dois lados. No entanto, o Theravāda e o Mahāyāna ainda permanecem, geralmente, distantes um do outro.

Minha opinião é a de que há muito mais coisas que unem o budismo do que o separam, de que a Sāsana é forte e tolerante à diversidades, sendo ainda notavelmente capaz de reter seus ensinamentos básicos, que estão – na maior parte – em ambos os lados desta divisão. No entanto, devido à delicada sofisticação dos ensinamentos de Buda, a Sāsana passou historicamente por ciclos de declínio e recuperação. Além disso, o isolamento geográfico não só separou o Theravāda e o Mahāyāna, como também acabou com a possibilidade de cada tradição de se recuperar de suas respectivas falhas. O Mahāyāna tornou-se rapidamente uma tradição desligada de seu próprio passado e o Theravāda, por sua vez, desligado de seu próprio futuro.

Começarei desfazendo dois mitos criados historicamente que sustentam a ideia de que a separação destas duas escolas é irreconciliável, de que o Theravāda e o Mahāyāna não podem fazer muita coisa para se ajudarem mutuamente. Um mito é baseado na disciplina monástica e o outro baseado na doutrina em si. Posteriormente, mostrarei o processo de declínio da Sāsana, seguido de sua recuperação, e argumentarei que a re-união destas duas tradições criaria uma Sāsana muito mais saudável de ambos os lados. O Theravāda e o Mahāyāna precisam um do outro.

 

Mito 1: o cisma como a origem do Mahāyāna

As escolas e as tradições diferenciam-se espacial, doutrinal e formalmente no âmbito da sangha. Um erro comum é achar que as diferenças entre o Theravāda e o Mahāyāna começaram no nível da sangha, com um cisma. A sangha tem sido tradicionalmente o coração da comunidade budista, pois é ela a encarregada de preservar, propagar e viver os ensinamentos. O cisma na comunidade monástica (P: saṅghabedha) era uma séria preocupação do Buda, pois uma disputa na sangha dividiria-na em duas e levaria toda a comunidade com ela. Por sorte, cismas formais e explícitos têm sido relativamente raros na história do Budismo. No entanto, é uma crença comum de que as sanghas Theravādas e Mahāyānas nunca mais poderiam estar em comunhão. Esta crença errônea tem trazido péssimas consequências.

Vamos a um pouco de história: além de um possível cisma formal, as divergências na comunidade budista começaram a se desenvolver nos primeiros séculos da Sāsana devido à dispersão geográfica da sangha, pois as distinções nos comportamentos e nas opiniões doutrinárias dos monges passaram a se desenvolver em comunidades distantes umas das outras no sul asiático; tais opiniões e comportamentos eram preservados oralmente nos primeiros séculos, tendo posteriormente as suas próprias versões nas primeiras escrituras, geralmente em linguagens distintas. No entanto, mesmo com estas diferenças, a maior parte de tais comunidades ainda estavam em grande comunhão. Nesta época, dezoito escolas separadas podiam ser contadas na área budista, quase todas formadas desta mesma maneira. A escola Theravāda foi possivelmente a mais periférica, já que migrou para a ilha do Sri Lanka durante o reinado de Aśoka.

No entanto, parece ter havido um cisma histórico, formal e documentado no início da sangha, cerca de um século após o parinirvana de Buda, pois foi registrado na literatura de escolas que vieram posteriormente. Um lado deste cisma tornou-se conhecido como a tradição Mahāsāṃghika, e o outro lado como a tradição Sthavira, ambas nascidas de diferenças alegadamente irreconciliáveis. Foi Mahāsāṃghika que mais tarde seria identificada como Mahāyāna. O Sthavira, por sua vez, daria origem às escolas Theravāda, Sarvāstivādin, Dharmagelupka e à maioria das outras escolas. O Theravāda é o única destas escolas que ainda existe, tendo sobrevivido preso em uma ilha [Sri Lanka]; no entanto, espalhou-se para o sudeste asiático enquanto o budismo se extinguia na Índia continental.

Dentre os antigos relatos das tradições a respeito de tal cisma, não há um consenso sobre a sua origem [II]. Em algumas narrativas o cisma teve a ver com a disciplina monástica, e em outras, com a doutrina em si. A tradição Theravāda relata que ele ocorreu por causa do enfraquecimento da disciplina monástica do Mahāsāṃghika, que, por sua vez, relata que o cisma aconteceu porque os Sthaviriyans tentaram impor uma disciplina mais rigorosa. Em nenhum destes dois casos há uma diferença significativa em termos de conflito em suas respectivas regras monásticas.

Por outro lado, os registros de Sarvāstivādin – como também do Theravāda, no lado de Sthavira – atribuem tais diferenças a cinco questões doutrinárias, todas elas a respeito do status de Arahant. Foi um registro chinês posterior [III], baseado nas narrativas de Sarvāstivādin, que foi visto pela primeira vez a escola Mahāsāṃghika como sendo a precursora do Mahāyāna, embora esta última tenha relatado que a Mahāsāṃghika tentou incorporar alguns de seus suttas antes do cisma (o que sabemos agora que não é verdade, pois os suttas do Mahāyāna vieram depois do cisma) [IV]. De fato, alguns Mahasanghikas – não todos – tinham opiniões que, nos séculos posteriores, caracterizariam a tradição Mahāyāna, a respeito da natureza supramundana do Buda e dos bodhisattvas [V], o que explica o esforço de alguns Mahāyānistas em se identificarem como Mahāsāṃghikas.

A teoria de que as tradições Mahāyāna e Theravāda foram divididas por este antigo cisma é amplamente aceita em ambas as tradições e tem causado um aumento ainda maior desta separação, a qual persiste até hoje. Mas tal teoria a respeito desta divisão é falsa. Estes registros da origem do Mahāyāna estão incorretos, tendo em vista os relatos dos famosos peregrinos chineses Faxian (início do século V) e Xuanzang (século VII), que nos fornecem uma ideia mais clara do processo de propagação do Mahāyāna. Ambos relatam que todos os mosteiros da Índia, daquele período, geralmente possuíam monges de crenças Mahāyānas vivendo de forma bastante harmônica com monges não-Mahāyānistas [VI].

Além disso, enquanto as tradições estavam geograficamente definidas, as ideias Mahāyanistas pareciam espalhar-se silenciosamente sobre toda a região budista, de tradição à tradição, parecendo as músicas pops atuais, que transpassam os limites geográficos dos países. Como concluiu Gombrich: “Mahāyāna não é uma escola, mas uma corrente de opiniões que perpassa as outras escolas” [VII]. A “mania” Mahāyāna chegou próximo ao território Theravāda no Sri Lanka, às vezes com sucesso, mas nem sempre; no entanto, por fim foi suprimida pelo rei Parakkama Bāhu I no século XII como parte de um programa de “limpeza” doutrinária [VIII].

Antes do movimento Mahāyāna, as doutrinas das várias escolas estavam centradas nos discursos do Buda; já o movimento Mahāyāna veio a centrar-se em um desenvolvimento posterior da doutrina que acrescentou novas escrituras na Sāsana de forma discreta e desigual, mas aparentemente com pouca oposição ou discórdia. Em resumo, não houve nenhum cisma histórico que dividiu o Theravāda e as suas escolas irmãs de um lado, e o Mahāyāna do outro. Tecnicamente, ambas as sanghas deveriam ainda estar em comunhão. Na verdade, estou ciente de uma ordenação de monges e monjas Mahāyānas e, inclusive, Theravadas, por um grupo monástico do mosteiro “Cidade dos Dez Mil Budas” na Califórnia, no dia 9 de agosto de 2013 [n. t.: um mosteiro peculiar que prestigia as duas tradições – http://www.cttbusa.org/founder3/ascetic_monk17.asp]

A história não acaba por aqui, pois ainda resta mostrar como o mito deste cisma prejudicou a sangha Theravāda em particular. O Budismo surgiu na Ásia Central e, no primeiro século depois de cristo, arriscou-se pela Rota da Seda até a China. Esta complexa migração implicou na participação de vários monges de diferentes tradições, mas os mais comuns foram os monges das regiões do sudoeste indiano, pois estavam mais próximos das rotas comerciais marítimas. De forma semelhante, as escrituras originais foram transmitidas por várias escolas e em várias línguas, juntamente com os novos suttas e textos acadêmicos do Mahāyāna. A maioria dos monges que viajaram para a China aparentemente eram associados ao Mahāyāna, mas não houve números significativos de mestres indianos famosos nestas viagens [IX].

A jornada pela Rota da Seda foi feita por monges corajosos, que viajavam em caravanas insalubres, lideradas por comerciantes durões, em um ambiente extremamente hostil. Mas, mesmo com estas dificuldades, foi estabelecida uma ordem de monges chineses, em torno da qual foi consolidada a tradição Mahāyāna na China. Por fim, ela se desenvolveria com base no Vinaya da escola Dharmaguptaka – uma escola Sthirāvada, historicamente próxima do Theravāda – do oeste da Índia, e colocaria este Vinaya como o padrão para os procedimentos monásticos em todo o leste da Ásia.

Como poucas mulheres e monjas fizeram esta perigosa viagem pela Rota da Seda, as primeiras ordenações de monjas chineses apareceram somente no século IV, e mesmo assim foram ordenadas por monges, ao contrário do que prevê o Vinaya, de que monjas poderiam ser ordenadas somente por monjas. Contudo, a sangha das monjas foi totalmente estabelecida com a ordenação de trezentas monjas chinesas por monjas estrangeiras, no ano de 433 d.c. Isto foi possível graças a um capitão naval chamado Nan-t’i, que conseguiu trazer o número necessário de monjas completamente ordenadas do sul asiático para Nan-ching, a fim de realizarem a cerimônia de ordenação [X]. Importante destacar que estas monjas trazidas à China vieram do Sri Lanka e, portanto, certamente teriam pertencido à tradição Theravāda. De fato, provavelmente foram as monjas do Sri Lanka ordenadas por Saṅghamitta Theri, a filha do imperador Aśoka da Índia.

Está claro que o cisma e a divisão em relação às tradições não eram problemas na China do século V; Vinaya era Vinaya, ordenação era ordenação, e as possíveis diferenças doutrinárias que poderiam existir entre as sanghas do Sri Lanka e da China não eram tão relevantes. As sanghas consideravam-se unidas, as mulheres chinesas eram ordenadas pelas monjas Theravādas e estas ordenações eram aprovadas pelos monges chineses, certamente de bases Mahāyānas.

A história posterior do Theravāda revelou, mais uma vez, o quanto ele necessita do Mahāyāna: o Theravāda, em um dado momento, teve a sua própria ordenação de monjas extinguida, sendo que a ordenação das monjas na China começou a florescer, e isto aconteceu em todos os países Theravadas, como no Sri Lanka e no Sudeste Asiático, onde a ordenação feminina acabou por deixar de existir. Acredita-se que isto ocorreu por volta do século X ou XI, devido a guerras [XI]. A eliminação da sangha das monjas neste período criou uma situação semelhante àquela da China antes de 433 d.c., quando inexistia monjas para ordenar novas monjas. Em contrapartida, a ordem das monjas da China – originalmente ordenadas, como já vimos, pelas monjas Theravāda do Sri Lanka – desenvolveu-se ininterruptamente até os dias atuais em regiões do Mahāyāna. Se nós, como os chineses antigos e como eu proponho aqui, deixarmos de lado as diferenças doutrinárias, poderíamos solucionar o déficit Theravāda de monjas da seguinte forma: permitiríamos que as monjas Mahāyāna ordenassem monjas Theravādas e trouxessem de volta a sangha Theravāda, assim como esta última fez ao estabelecer a sangha Mahāyāna na China. Se, por outro lado, continuarmos com a ideia de que o suposto cisma separa definitivamente o Budismo em duas sanghas, então o Theravāda terá seu próprio futuro comprometido; e sua comunidade de monjas, inaugurada por esta mesma tradição, também ficará comprometida. Esta ideia tem trazido controvérsias, mas de certo trará resultados.

E de fato, recentemente a ordem de monjas Theravāda tem sido restaurada exatamente desta maneira: com a ajuda de suas irmãs Mahāyānas chinesas (geralmente de Taiwan), as quais gentilmente providenciaram o número mínimo de monjas para ordenar as novas monjas Theravāda. No entanto, a legalidade destas ordenações está sendo contestada por vários motivos, sendo um deles o mito deste antigo cisma. Mesmo assim, fico feliz em poder falar que o número de monjas Theravādas está aumentando, particularmente por causa de ordens de monjas Theravāda bem estabelecidas no Sri Lanka e, recentemente, também na California, com números suficientes de monásticas para ordenar outras mulheres na tradição Theravāda. E foi desta forma que o Mahāyāna ajudou o Theravāda a restaurar a proposta original do Buda, recuperando o próprio futuro que tinha sido perdido por esta tradição.


NOTAS DE RODAPÉ E REFERÊNCIAS

(I): Este termo budista, desenvolvido social e historicamente, será usado tendo por base duas línguas. A linguagem do Theravāda é Pali e a do Mahāyāna indiano é sânscrito. Estes dois idiomas estão intimamente relacionados e, muitas vezes, as palavras são idênticas em ambos. Onde o termo for fornecido em ambas línguas, será usado P para Pali e S para Sânscrito. [N. T.: Sāsana (pāli/tailandês) pode ser entendido como o período de tempo em que o ensinamento do Buddha está presente e ativo no mundo, em tailandês essa palavra é utilizada no sentido mais de genérico da palavra “religião” em português (retirado de http://dhammadafloresta.org/glossario/)]

(IV): Como veremos em breve, nenhuma dessas escrituras do Mahāyāna poderiam ter existido neste momento inicial.

(IX): Sharf (2001, 4-5) e Sharf (2001, 7) ressaltam que não dá pra ter certeza se o Mahāyāna  era realmente popular na Índia e na Ásia Central neste período ou se os monges Mahāyāna sentiram-se marginalizados de suas próprias terras.

——Atenção: A relação completa das notas de rodapé (números em algarismos romanos) e das referências bibliográficas utilizadas pelo autor podem ser encontradas no fim do artigo original (clique aqui). Foi optado por não disponibilizar todas aqui para que a leitura ficasse mais dinâmica e para que o texto deste blog não ficasse extremamente grande, prejudicando a visualização dos leitores. Além do mais, a maioria das notas de rodapé são de referências a livros/artigos que ainda não foram traduzidos para o português. Caso o leitor queira se aprofundar no assunto, por favor, não deixe de conferir as referências no texto original.


Blog oficial de Bhikkhu Cintita Dinsmore, clique aqui.

Texto original, clique aqui.

No futuro será disponibilizada a segunda parte traduzida desta série, que já está disponível em inglês (clique aqui para ver).

*** Traduzido por Caio Rafael Silveira

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