Os sete fatores de uma morte tranquila: uma abordagem budista Theravada à morte na Tailândia

Algum parente ou amigo seu está morrendo? Sem dúvida alguma é uma situação difícil, mas inevitável. Phra Paisal Visalo, um experiente monge tailandês que tem trabalhado duro em fornecer cuidados budistas para quem está no fim da vida, explica os sete fatores para uma morte tranquila.

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De Phra Paisal Visalo

O cuidado a quem está morrendo na Tailândia

No passado, a maioria das pessoas na Tailândia morria em suas próprias casas. Quando uma pessoa ia morrer, um monge ou um grupo de monges seria enviado para guiá-la a uma morte tranquila. Os monges entoariam cânticos budistas ou lembrariam o desfalecido dos Três Refúgios do Buda, do Darma e da Sangha como objetos de veneração. Os esvaídos, com a ajuda de parentes, realizariam seu último ato de fazer méritos dando oferendas aos monges. Em algumas partes do país, como no Nordeste, os moribundos seguravam flores para homenagear a relíquia sagrada do dente do Buda, que se acredita estar localizada no céu, onde eles esperavam renascer. Se a morte fosse consciente o suficiente, eles se sentariam na vertical, encostados em um pilar, meditando ou cantando para acalmar a mente.

Uma mente tranquila no momento da morte era muito importante para os tailandeses, uma vez que, de acordo com o budismo, isso levaria a uma benéfica próxima vida; enquanto um estado mental negativo contribuiria para uma prejudicial. A atmosfera em torno de quem estava morrendo, portanto, era pacífica. Os primos se reuniriam em torno dos desfalecidos, lembrando-os de suas boas ações no passado e ajudando a aliviá-los de toda a ansiedade. Alguns pediriam perdão aos moribundos ou vice-versa. Todos eram desencorajados a chorar perto do leito de morte.

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Wat Pa Sukato, Tailândia.

No entanto, hoje em dia, o padrão de morte na Tailândia mudou. Existem mais doenças industriais que exigem longa e intensa hospitalização. Assim, há uma necessidade crescente de cuidados paliativos, e isso muda a percepção de como cuidar das pessoas em geral. Há um foco maior no cuidado terminal, dessa forma os cuidados espirituais e psicológicos se tornaram mais importantes nos hospitais. O conceito de saúde holística (física, social, psicológica e espiritual, conforme definido pela OMS) está se tornando dominante e parte da vigente lei tailandesa. Muitos hospitais tem falado sobre esses quatro aspectos, que estão sendo colocados em prática em grandes hospitais e hospitais universitários, especialmente para os doentes terminais. Na prática, no entanto, ainda é difícil fornecer esses cuidados devido à falta de compreensão e habilidades entre os funcionários.

Na Tailândia, os cuidados paliativos permanecem centrados no hospital e não no domicílio ou nas clínicas de cuidados. Alguns hospitais têm programas de atendimento psicológico e espiritual sem vinculação religiosa, especialmente para crianças. No Hospital Universitário de Chulalongkorn, existe o programa “Poço dos desejos”, no qual as crianças recebem seu último desejo. Outros grandes hospitais têm incentivado algum apoio religioso, fornecendo espaço para enfermeiras ou monges fazerem este trabalho, já que os médicos não podem fazê-lo.

Na Tailândia, no CTI ou internação comum, monges são comumente convidados a virem e fornecerem a oportunidade para o paciente “fazer mérito” (no tailandês, tan-bun), ou talvez para orientar o paciente na meditação. Os enfermeiros também começaram a se encarregar de oferecer atendimento psicológico e de aconselhamento. Tal aconselhamento envolve frequentemente acalmar o paciente ou ajudá-lo a reconciliar-se com a família. Os enfermeiros podem também estar engajados em fazer a família se envolver mais no apoio ao paciente, o que ajuda os parentes com a culpa por não poderem fazer mais. Os enfermeiros podem até oferecer cuidados espirituais, como a meditação.

Recentemente, há mais incentivo para médicos e enfermeiros apoiarem e estarem envolvidos em cuidados domiciliares, especialmente no controle da dor. Ter habilidade de gerenciamento da dor é importante para permitir que os pacientes mantenham uma clareza livre de dor. Os médicos também podem prever quais etapas físicas virão a seguir. Por exemplo, uma amiga minha morreu em casa de câncer de mama há alguns anos cercada de bom apoio domiciliar de seu médico. A certa altura, o médico lhe disse que sua respiração ficaria difícil, então ela começou a mudar seu método de meditação, que era atenção plena com a respiração (anapanasati).

Na Tailândia, existem apenas algumas Casas de Cuidados Paliativos. Elas ainda não são tão populares, porque o sistema de saúde tailandês ainda é centralizado, e não há a infra-estrutura apropriada para elas. Atualmente, apenas os ricos podem pagar por uma. A mais famosa e maior, com mais de duzentos leitos, é a Casa de Cuidados Dhammarak Niwet, estabelecida em 1992 e localizado nas terras do Templo Phrabat Nampu, em Lopburi, algumas horas ao norte de Bangcoc. No entanto, este local é voltado para pacientes com aids pobres e abandonados. Há também algumas Casas de Cuidado cristãs e privadas, mas, em geral, o atendimento domiciliar é mais popular do que os cuidados paliativos.

Após o sucesso da Casa de Cuidados Dhammarak Niwet, outros templos começaram a estabelecer Casas de Cuidados. No entanto, elas estão diminuindo porque é muito difícil mantê-las. Os monges ainda fazem esse tipo de trabalho, mas num nível micro, de templo em templo, especialmente no interior e principalmente através de visitas domiciliares. De certa forma, isso é uma continuação de seus antigos papéis tradicionais. No entanto, essa tradição está enfraquecendo, pois os monges tendem agora a se concentrar mais em funerais, mesmo no interior.

Nos hospitais, os médicos e monges infelizmente não colaboram bem. Há uma lacuna entre eles. Os médicos não sabem como tratar ou conversar adequadamente com os monges. Os monges são recebidos em hospitais como ritualistas ou conselheiros, mas não como parte da equipe de atendimento ou da equipe médica de aconselhamento. Primeiramente, eles necessitam de um convite e não fazem parte do sistema. Eles não estão de plantão, mas costumam visitar hospitais durante épocas de festival. Além disso, muitos monges não estão interessados neste tipo de trabalho. Cada vez mais os monges estão sendo vistos como precursores da morte, por isso algumas pessoas se sentem desconfortáveis quando aparecem. Desta forma, as famílias acabam sendo melhores que os monges em fornecer orientação espiritual, uma vez que possuem um relacionamento íntimo e pessoal com o paciente.

A Rede de Cuidados Para o Fim da Vida, estabelecida em 2004, coordena o pessoal de vários hospitais e outras pessoas interessadas, como monges, na acumulação e compartilhamento de conhecimento sobre como cuidar de doentes terminais. A cada dois meses esta rede realiza uma sessão de estudo para desenvolver habilidades e conhecimentos. Espera-se que esta rede possa ajudar na promoção de, por um lado, mudanças no sistema médico em favor de um atendimento mais espiritual aos desfalecidos e, por outro, um currículo nas escolas de medicina. O treinamento de cuidado espiritual não é fornecido pelas faculdades de medicina, mas essa rede começou a oferecer esse treinamento para enfermeiros de todas as unidades e para alguns médicos. Há uma demanda crescente, mas recursos humanos limitados nessa área.

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Wat Phanan Choeng, Ayutthaya, Tailândia.

O cuidado espiritual budista para quem está morrendo

A doença não afeta apenas o corpo, mas também a mente. Dessa forma, quando a maioria das pessoas fica doente, elas precisam lidar não apenas com a dor física, mas também com a dor mental. Especialmente no caso de pacientes que estão prestes a morrer, a angústia mental não é menos uma causa de sofrimento do que a dor física e, de fato, pode até ser a causa maior. Isso ocorre porque o que esses pacientes enfrentam bem diante deles é a morte, juntamente com uma separação e perda que são derradeiras. Tudo isso provoca sentimentos de medo, ansiedade e isolamento que surgem intensamente de uma forma que nunca experimentaram antes.

Por essa razão pacientes precisam de seu bem-estar espiritual tanto quanto de bem-estar físico. Especialmente no caso de pacientes em estágio terminal, cujos médicos determinaram não haver esperança de recuperação ou melhora, cuidar do bem-estar espiritual torna-se mais importante do que o bem-estar físico. Isso porque, embora o corpo esteja irremediavelmente desfalecendo, a mente ainda tem a oportunidade de aperfeiçoar-se. Ela pode cessar sua agitação e alcançar um estado de paz, mesmo nos últimos momentos da vida. Ainda que o corpo e a mente estejam intimamente relacionados, quando o corpo sofre, a mente não precisa necessariamente sofrer também. Pode-se cuidar da mente de tal forma que ela não sofra junto com o corpo.

No tempo do Buda, tiveram muitas ocasiões em que ele e seus discípulos ajudaram aqueles que estavam doentes e quase morrendo. O tipo de ajuda que deram focava diretamente em tratar o sofrimento da mente. No Cânone Budista Páli, há várias histórias de pessoas à beira da morte que foram instruídas pelo Buda a contemplar sua morte iminente e a verdadeira natureza de todas as coisas condicionadas, e eventualmente foram capazes de atingir altos níveis de realização. Alguns até se tornaram totalmente despertos.

A partir dessas histórias, há dois pontos principais a se considerar:

1. Estar doente e prestes a morrer é uma momento de crise e desintegração física, mas ao mesmo tempo também pode ser uma oportunidade para libertar a mente ou elevar o estado mental da pessoa. Estar doente e perto de morrer não são, portanto, condições negativas em si mesmas. Se alguém sabe como usá-las bem, elas podem ser de grande benefício.

2. Os ensinamentos do Buda sobre doença e morte podem ser classificados em duas partes principais:
a) Incline a mente a ter fé nos Três Refúgios (o Buda, o Dhamma e a Sangha) e confiança na moralidade que a pessoa manteve ou boas ações que fez no passado. Em outras palavras, incline a mente a recordar o que é bom e saudável.
b) Abandone as preocupações e tudo mais, enxergando com sabedoria que não há nada em que alguém possa se apegar.

Esses ensinamentos do Buda fornecem um excelente modelo de como fornecer ajuda espiritual às pessoas que estão morrendo, aplicável aos dias atuais. Este artigo mostrará como esses princípios apresentados pelo Buda podem ser adaptados para uso por médicos, enfermeiros, familiares e amigos ao ajudar pacientes que estão morrendo. Experiências retiradas de outros casos da vida real também foram utilizadas para criar as diretrizes a seguir.

1. Ofertando amor e simpatia

Pessoas que estão morrendo não precisam apenas enfrentar dor física, mas também temores, como o de morrer, do abandono, de morrer sozinho(a), do que virá após a morte, ou da dor. O medo pode causar ainda mais sofrimento do que a dor física. O amor e o apoio moral de familiares e amigos é muito importante durante este período, porque reduz o medo e ajuda-os a se sentirem seguros. Deve-se lembrar que os pacientes em seus estágios finais se sentem muito vulneráveis. Precisam de alguém em quem sintam que podem confiar, alguém que esteja pronto para estar presente em tempos de crise. Se eles tiverem alguém que possa lhes dar amor incondicional, terão a força de espírito para lidar com todas as várias formas de sofrimento que convergem sobre eles neste momento.

Ser paciente, tolerante, simpático, gentil e saber perdoar são maneiras de mostrar seu amor. A dor física e um estado mental vulnerável podem fazer com que os pacientes ajam de maneira mal-humorada e abrasiva. Podemos ajudá-los suportando pacientemente essas explosões e não reagindo de maneira negativa. Tente perdoá-los e simpatizar com eles. Se formos pacíficos e gentis, isso os ajudará a se acalmarem mais rapidamente. Apontar a negatividade deles pode ser algo que devemos fazer às vezes, mas sempre de maneira gentil e amorosa. Família e amigos precisam ter atenção plena em todos os momentos, o que nos ajuda a não perder o auto controle e mantém nossos corações cheios de bondade, amor e contenção.

Mesmo que você não saiba o que dizer para fazê-los se sentir melhor, apenas tocá-los fisicamente de maneira gentil permitirá que eles sintam o seu amor. Podemos segurar suas mãos ou tocá-los nos braços e apalpá-los gentilmente, abraçá-los ou tocar a testa ou o abdômen com as mãos, enquanto enviamos nossos bons votos. Para aqueles que têm alguma experiência praticando meditação, enquanto tocam o paciente, repouse sua mente num estado de paz. A bondade amorosa (metta) que emana de uma mente que está focada e em paz terá uma energia que o paciente será capaz de sentir.

Por exemplo, quando dois voluntários da minha rede vieram visitar um paciente, eles o encontraram gritando, sofrendo de dor abdominal. Eles perguntaram se o paciente permitiria que eles recebessem (ou dividissem) parte de sua dor. Depois de obterem permissão, pediram ao paciente que fechasse os olhos enquanto tocavam delicadamente seu corpo com as mãos. Eles começaram a visualizar a dor como uma fumaça cinzenta emergindo do corpo do paciente e entrando no corpo deles antes de ser transformada em um raio branco que voltava ao paciente. Após cerca de cinco minutos dessa prática compassiva, o paciente disse que se sentia muito melhor.

2. Ajudando pacientes a aceitarem a morte iminente

Se o paciente não tiver muito tempo de vida, deixá-los cientes lhes dará tempo para se prepararem enquanto ainda estão fisicamente aptos. No entanto, há um grande número de pacientes que não faz ideia de que têm uma doença terminal grave e que estão em seus estágios finais. Permitir que o tempo passe mantendo-os na ignorância irá deixá-los com menor tempo para se prepararem. Ainda assim, dar-lhes as más notícias sem prepará-los psicologicamente de alguma forma antecipada pode piorar sua condição. Em geral, os médicos desempenham o importante papel de dar a notícia, especialmente depois de terem construído um relacionamento próximo com os pacientes e conquistado sua confiança. No entanto, a aceitação dos pacientes de sua morte iminente envolve um processo que leva muito tempo. Além do amor e da confiança, médicos, enfermeiros, familiares e amigos precisam ter paciência e tolerância e estar prontos para ouvir os pensamentos e sentimentos do paciente.

Às vezes, porém, cabe à família dar a notícia. Muitas famílias tendem a pensar que é melhor esconder a verdade do paciente. No entanto, de acordo com uma pesquisa feita com pacientes na Tailândia, a maioria respondeu que preferiria ser informada da verdade do que ser mantida na ignorância. Mesmo quando os parentes tentam esconder, o paciente pode discernir a verdade a partir da mudança de agir e de comportamento da família e amigos, tais como rostos não sorridentes, vozes mais leves ou esforço maior para agradar o paciente.

Nem todos os pacientes conseguem aceitar a verdade depois de serem informados. No entanto, podem haver várias razões para isso além do medo da morte. Poderia ser algum negócio inacabado ou outras preocupações. Os parentes devem ajudá-los a expressar tais preocupações. Se sentirem que têm alguém pronto para ouvi-los e entendê-los, se sentirão seguros o suficiente para confidenciar seus pensamentos internos. Fazer perguntas apropriadas também pode ajudá-los a identificar o que está impedindo-os de aceitar a morte ou ajudá-los a perceber que a morte pode não ser tão assustadora. O que os parentes podem fazer é ouvi-los com um coração aberto, compreensivo e sem julgamento, devendo se concentrar mais em fazer perguntas do que dar lições ou sermões. Ajudar os pacientes a diminuir suas preocupações com seus filhos, netos, cônjuge ou outros entes queridos pode ajudá-los a aceitar sua morte.

Os pacientes podem ficar com raiva de médicos, enfermeiros e familiares por darem ou esconderem deles as más notícias por um longo tempo. Seja compreensivo com essas explosões de raiva. Se o paciente conseguir superar sua raiva e negação em relação à morte, terá mais facilidade de aceitar a realidade de sua situação.

Quando os pacientes são informados das más notícias, eles devem receber ao mesmo tempo apoio moral e garantia de que a família, amigos, médicos e enfermeiros não os abandonarão, mas permanecerão a seu lado e os ajudarão o máximo que suas habilidades permitirem até o derradeiro fim. Dar apoio moral durante os momentos de crise, quando a condição do paciente piora, também é muito valioso.

Na Tailândia, o direito do paciente à informação não é muito respeitado. Muitos pacientes com câncer não são informados sobre sua real situação porque a família ou parentes têm medo de que a situação dos pacientes piore. Uma vez que o(a) médico(a) almeja ter um bom relacionamento com os parentes dos pacientes, ele ou ela tem que se adequar aos seus desejos. Na Tailândia, os parentes têm grande poder no que se refere ao tratamento do paciente. O consentimento informado não é, portanto, praticado quando dois voluntários da minha rede fazem visitas. No entanto, esse direito está se tornando cada vez mais conhecido e exercido pelos pacientes, especialmente aqueles que possuem um alto nível de escolaridade. Além disso, testamentos em vida e diretrizes antecipadas dos pacientes são agora legais e estão sendo promovidos na Tailândia.

Um benefício útil de dizer aos pacientes a verdade em tempo hábil é que isso lhes permite decidir antecipadamente qual o nível de intervenção médica que eles gostariam de receber quando atingem um ponto de crise ou ficam inconscientes, ou seja, se gostariam que os médicos prolongassem sua vida o maior tempo possível usando todos os meios tecnológicos disponíveis, como RCP, respirador, tubo de alimentação, etc., ou se gostariam que os médicos se abstivessem de usar essas medidas, apenas mantendo sua condição e deixando que pereçam em tranquilidade. Muitas vezes os pacientes não decidem de antemão porque desconhecem o real estado de sua condição. O resultado é que quando entram em coma, os parentes não têm outra opção a não ser pedir aos médicos que utilizem todas as medidas possíveis para sustentar a vida do paciente. Isso muitas vezes causa muito sofrimento ao paciente, com o único efeito de prolongar o processo de morte sem ajudar a melhorar sua qualidade de vida e, ao mesmo tempo, desperdiçar uma grande quantidade de dinheiro em despesas médicas.

3. Ajudando pacientes a focarem suas mentes na bondade

Pensar na bondade ajuda a mente a tornar-se saudável, serena, brilhante, menos temerosa e mais capaz de lidar com a dor. O que o Buda e seus discípulos frequentemente recomendavam àqueles que estavam à beira da morte era lembrar-se e ter fé firme nos Três Refúgios, que podem ser pensados como algo virtuoso ou sagrado que o paciente pode prestar respeito. O Buda também fazia com que se restabelecessem na observância da moralidade (sila), bem como lembrassem as boas ações que haviam feito no passado. Há muitas maneiras de ajudar os pacientes a se lembrarem dessas coisas. Por exemplo:

– Coloque no quarto do paciente uma estátua de Buda, outros objetos sagrados ou imagens de professores espirituais respeitados para servir de ajuda à lembrança;
– Convide o paciente para recitar cânticos ou orar juntos;
– Leia livros do dharma em voz alta para o paciente;
– Reproduza gravações de palestras ou cantos do dharma;
– Convide monges, especialmente aqueles com os quais o paciente tem uma conexão, a visitarem o paciente e fornecerem aconselhamento.

Ao aplicar essas ideias, tenha em mente o histórico cultural e os hábitos pessoais do paciente. Por exemplo, pacientes de origem chinesa podem responder melhor às imagens da bodhisattva Kuan Yin. Se o paciente é cristão ou muçulmano, pode-se usar os símbolos apropriados dessas religiões.

Outra maneira de inclinar a mente do paciente para o bem é encorajando-o a fazer boas ações, tais como oferecer bens necessários aos monges e fazer doações de caridade. Também é essencial encorajar o paciente a pensar nas boas ações que fizeram no passado. O que não  significa necessariamente apenas atividades religiosas, mas também ações como criar os filhos para serem boas pessoas, cuidar dos pais de uma maneira amorosa, ser fiéis ao cônjuge, ser útil para os amigos ou ser dedicado no ensinando aos alunos. Todas essas são boas ações que podem fazer o paciente se sentir feliz, satisfeito consigo mesmo e confiante de que, quando morrer, irá para um bom lugar. Essa satisfação pelas boas ações que eles fizeram e a fé no efeito benéfico de tais atos torna-se muito importante para aqueles que estão perto de morrer. Neste momento, está ficando claro para eles que não poderão levar sua riqueza material consigo quando morrerem. Somente o mérito que acumularam através de boas intenções e ações (karma) que podem levar consigo.

Todos, não importa o quão ricos ou pobres, ou quais erros tenham cometido no passado, devem ter feito boas ações que valham a pena recordar. Não importa quantas coisas terríveis tenham feito no passado, quando estão prestes a morrer, o que devemos fazer é ajudá-los a recordar suas boas ações. Se eles estiverem sobrecarregados de sentimentos de culpa, talvez não consigam ver nenhuma de suas boas ações. No entanto, quaisquer boas ações, mesmo pequenas, serão valiosas para elas se lembradas durante este período de crise. Ao mesmo tempo, os pacientes que sempre fizeram boas ações não deveriam permitir que quaisquer atos prejudiciais (dos quais há muito poucos) ofusquem toda a bondade que fizeram, fazendo com que se sintam mal consigo mesmos. Em alguns casos, a família e os amigos podem precisar listar suas boas ações passadas como forma de confirmar e reiterá-las, dando aos pacientes confiança na vida que levaram.

Um exemplo com o qual aprendi em nossa rede diz respeito a um paciente com câncer terminal que sofria episódios de dor que precisavam ser tratados repetidamente no hospital. Em seu último mês, uma sobrinha vinha visitá-lo quase todos os dias. A cada vez ela perguntava ao avô sobre seu passado. O paciente ficou encantado em falar sobre seu papel heróico na Primeira Guerra Mundial e sua vida como funcionário público honesto. Finalmente, eles começaram a falar sobre a impermanência da vida de acordo com o budismo. Em seus últimos dias, ele parecia feliz e finalmente morreu em paz. Foi notável que durante seu último mês ele nunca tenha sofrido com a dor que o levara anteriormente ao hospital.

Outro exemplo foi um policial que ficava tremendo apesar de estar em estado de coma. Testemunhando essa situação, sua esposa começou a chorar, mas a enfermeira a advertiu que seu choro tornaria as coisas piores. Ela foi incentivada a falar coisas boas sobre seu marido. Depois de se recompor, a esposa contou ao desfalecido marido que tinha orgulho dele por ter sido um bom policial e um marido amoroso que a ajudava a vender comida no mercado. Seu filho também contou a ele como ele tinha sido um bom pai. Gradualmente, o tremor do paciente se acalmou e ele morreu em paz.

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Wat Phanan Choeng, Tailândia.

4. Ajudando pacientes a resolverem assuntos inacabados

Uma das principais causas do sofrimento que impede as pessoas de morrerem em tranquilidade são questões inacabadas. Tais ansiedades ou outros sentimentos negativos precisam ser liberados o mais rápido possível. Caso contrário, farão com que o paciente sofra, sinta-se com o coração pesado e rechace a morte, tornando-se incapaz de morrer em paz e resultando em um renascimento infeliz. A família e os amigos do paciente devem se preocupar muito com esses assuntos e agir rapidamente sobre eles. Às vezes, os pacientes podem não trazer o assunto à tona diretamente. Aqueles que estão ao redor dos pacientes devem, portanto, ser muito sensíveis ao tema e perguntar com genuína preocupação e gentileza, sem aborrecimento. Estas são algumas diretrizes gerais que podem ajudar em tais situações:

– Se eles tiverem uma tarefa inconclusa, responsabilidades ou um testamento que não tenha sido resolvido, encontre uma maneira de ajudar a levar essas questões a uma conclusão.
– Se eles quiserem ver alguém pela última vez, especialmente um ente querido ou alguém que desejam pedir perdão, corram e contatem essa pessoa.
– Se eles estão nutrindo um ressentimento furioso contra alguém ou sentimentos de mágoa e ofensa contra uma pessoa íntima, aconselhe-os a perdoar essa pessoa e deixar ir qualquer raiva.
– Se eles estão se sentindo culpados por algum erro que fizeram, essa não é hora de julgá-los ou criticá-los. Em vez disso, deve-se ajudá-los a liberar seus sentimentos de culpa. Pode-se ajudá-los a se abrir e se sentirem seguros o suficiente para pedir perdão a alguém, enquanto ao mesmo tempo orienta-se a outra parte a aceitar o pedido de desculpas e perdoar a pessoa.

Pedir perdão não é fácil. Uma forma de facilitar para pacientes terminais é fazer com que escrevam suas desculpas e tudo o que desejam dizer ao outro. Eles podem mandar alguém entregar o escrito para essa pessoa ou escolher mantê-lo para si. O importante é que, ao fazer este exercício, começaram a abrir seus corações. Mesmo que nenhuma comunicação real tenha ocorrido com a outra pessoa, houve alguma liberação desses sentimentos de culpa. Se em algum momento eles se sentirem mais dispostos a falar diretamente com essa pessoa, podem decidir fazê-lo em outra ocasião.

Muitas vezes, a pessoa a quem o paciente terminal pede perdão é alguém próximo que está ao lado de sua cama, como um cônjuge ou filho. Nesse caso, é mais fácil se essa pessoa inicia a conversa oferecendo primeiro seu perdão e dizendo ao paciente que não tem qualquer má vontade em relação a ele por seus erros do passado. No entanto, para fazer isso, a pessoa deve primeiro deixar de lado qualquer orgulho ou raiva que possa sentir. Ao realizar o primeiro movimento, a pessoa abre o canal para o paciente terminal pedir perdão mais facilmente. Sentimentos de culpa, uma vez que não sejam liberados, podem perturbar grandemente a quem está morrendo e torná-los incapazes de morrerem em paz. No entanto, uma vez que o paciente foi capaz de pedir desculpas e perdão, consegue morrer sem angústia.

Em alguns casos, é o filho, parente ou amigo do paciente terminal que deve pedir perdão. Não há outra ocasião em que um pedido de desculpas seja tão importante quanto neste momento. No entanto, muitas vezes os filhos não se atrevem a se abrir para os pais, mesmo quando estão prestes a morrer. Em parte, isso ocorre porque eles podem não estar acostumados a conversar com seus pais abertamente. Em parte, pode ser porque eles acham que seus pais não guardaram mágoas dos seus erros ou sequer sabem deles. Este poderia ser um erro de cálculo grave e irreparável.

Pedidos de perdão, na verdade, não tem que ser feitos apenas para pessoas específicas, porque todos nós provavelmente prejudicamos os outros sem ter a intenção ou a percepção disso. Como tal, para ter paz de espírito e evitar qualquer hostilidade persistente com alguém, familiares e amigos devem aconselhar os pacientes que estão morrendo a pedirem desculpas e perdão a alguém com quem tiveram hostilidade mútua ou a qualquer pessoa que tenham ofendido ou prejudicado.

Da mesma forma, a família e os amigos de um paciente terminal devem pedir perdão a eles enquanto ainda estão conscientes e capazes de compreender. Isso proporciona a oportunidade para os pacientes concederem seu perdão. No caso em que o desfalecido é um pai ou parente idoso, os filhos, netos e outros membros da família podem se unir para realizar uma cerimônia para pedir perdão na cabeceira da pessoa e selecionar um representante para falar pelo grupo. Eles podem começar falando das qualidades virtuosas da pessoa que está morrendo e das boas coisas que fizeram por seus descendentes. Depois, podem pedir perdão por qualquer coisa que tenham feito que possa ter causado dano ou ofensa.

5. Ajudando pacientes a desapegarem-se de todas as coisas

A recusa em aceitar a morte e a realidade de sua iminência podem ser grande causa de sofrimento para as pessoas que estão prestes a morrer. Uma razão para tal recusa pode ser que elas ainda estão profundamente ligadas a certas coisas e incapazes de serem separadas delas. Tais coisas podem ser filhos ou netos, namorados(as), pais, trabalho ou o mundo inteiro com o qual estão familiarizadas. Um sentimento de apego profundo pode ser experimentado por elas mesmo quando não há um sentimento persistente de culpa em seus corações. Uma vez que o apego é sentido, leva à preocupação e ao medo de separação daquilo que amam. A família e os amigos, bem como os médicos e enfermeiros, devem ajudar as pessoas que estão morrendo a abandonar seus apegos tanto quanto possível, como por exemplo:

– Reafirmando-lhes que seus filhos e outros descendentes podem cuidar de si mesmos.
– Reafirmando-lhes que seus pais serão bem cuidados.
– Lembrando-lhes que todos seus bens materiais são deles apenas temporariamente. Quando chega a hora, eles precisam ser dados aos cuidados de outras pessoas.

Ao dar orientação espiritual a quem morria, o Buda ensinou que depois de ajudá-los a relembrar e ter fé nos Três Refúgios e após firmá-los na bondade de seus atos passados, o próximo passo é aconselhá-los a abandonar todas as suas preocupações. Devem deixar de lado até mesmo qualquer aspiração de renascimento nos reinos celestes. Se ainda estiverem presos a todas essas coisas, irão reprimir suas mentes, fazendo-as resistir à morte, ficando agitados até o fim. Assim, quando a morte se aproxima, não há nada melhor do que abandonar tudo, até mesmo a noção de eu.

De todos os apegos, nenhum é tão profundamente enraizado quanto o apego ao Eu. Na visão de algumas pessoas, a morte significa a aniquilação do eu, que é algo que elas não podem tolerar e acham muito difícil aceitar porque, no fundo, nós seres humanos precisamos sentir que nosso eu continua. A crença de que o Paraíso existe ajuda a satisfazer essa necessidade profunda, porque nos faz sentir seguros de que viveremos depois da morte. No entanto, para pessoas que não acreditam no céu ou no renascimento, a morte se torna a coisa mais aterrorizante.

Do ponto de vista budista, na verdade não existe tal coisa como um eu. É algo que inventamos por ignorância. Aqueles que têm alguma base no budismo podem entender esse assunto até certo ponto. No entanto, para aqueles cuja experiência de budismo foi limitada a rituais ou formas básicas de criação de méritos, provavelmente não é fácil entender o conceito de não-eu (anatta). Não obstante, nos casos em que família, amigos, médicos e enfermeiros têm uma compreensão adequada dessa verdade, eles devem aconselhar os pacientes que estão morrendo a abandonar gradualmente seu apego ao eu.

Comece aconselhando-os a desapegar do corpo, reconhecendo que não podemos controlar nosso corpo para ser como desejamos que ele seja. Temos que aceitar sua condição tal como é. Um dia, todos os nossos órgãos terão que se deteriorar. O próximo passo é deixar de lado seus sentimentos, não se identificar ou se apegar a nenhum sentimento como sendo seu. Fazer isso ajudará grandemente a reduzir o sofrimento e dor, porque o sofrimento tende a surgir quando alguém se apega à dor e se identifica com ela como sendo sua. Considera-se que “eu” estou com dor ao invés de apenas ver que a condição da dor surgiu.

Ser capaz de desapegar desta maneira requer uma experiência considerável de treinamento da mente. No entanto, não está fora do alcance das pessoas comuns fazê-lo, especialmente se alguém começar a treinar a mente quando ficar doente pela primeira vez. Já houve muitos casos de pessoas com doenças graves que foram capazes de lidar com a dor extrema sem usar nenhum analgésico ou apenas pequenas doses. No passado, houve muitas pessoas que morreram em paz numa postura sentada ereta, porque elas foram capazes de deixar sua identificação com a dor como sendo delas. Pode-se dizer que elas usaram a medicina espiritual para curar suas mentes. O método que é amplamente sugerido é a prática da atenção plena da respiração (anapanasati), que ajuda a acalmar a mente e impedir que ela se identifique com a dor.

Deve-se notar que uma grande quantidade de dor é causada pela ansiedade, medo e outras emoções negativas. A dor pode ser reduzida se o paciente for aliviado dessas emoções. Num exemplo relatado a mim por um médico, um paciente ficou agitado durante o estágio terminal de sua morte. O analgésico funcionou por apenas dez minutos, depois ele começou a tremer novamente. Como ele não sabia como meditar, o médico ofereceu-se para guiá-lo em total relaxamento. Ele pediu ao paciente para ficar ciente de cada parte do seu corpo, começando nos pés em direção até à cabeça. Ele o guiou no sentido de ficar consciente e relaxar com a ajuda de uma música leve. Depois de trinta minutos, ele ficou tranquilo, tanto o corpo quanto as emoções. O médico também ensinou seus parentes a ajudá-lo a fazer esse exercício. Com essa prática, ele se tornou mais responsivo ao medicamento, exigindo doses menores para ajudar a acalmá-lo.

Sei de outro caso em que uma mulher adquiriu câncer. Ela era de uma família sino-tailandesa moderna e urbana, e em seu estágio final também sofria de toxinas em seu fígado. Ela se recusou a receber mais medicamentos e decidiu ir para casa para o seu último período de vida. Segundo o médico, ela  muito provavelmente ficaria inconsciente e sofrendo durante seus últimos dias. No entanto, pelo contrário, ela manteve sua consciência até a última hora, porque procurou manter sua mente de forma positiva com a ajuda de seus parentes, como relatado abaixo.

6. Criando uma atmosfera tranquila

Para que os pacientes que estão morrendo possam sentir-se em paz e deixar de lado todas as preocupações e apegos persistentes é necessário que tenham o apoio de uma atmosfera tranquila ao seu redor. Se seu quarto está repleto de pessoas entrando e saindo, e cheio de sons de pessoas falando o tempo todo ou os sons da porta abrindo e fechando o dia todo, naturalmente será difícil manterem sua mente em um estado saudável e calmo. Isso inclui ambientes social e físico tranquilos, tal como uma família tranquila. Uma família briguenta ou profundamente enlutada não ajuda. É por isso que algumas pessoas escolhem morrer nas próprias casas.

Por exemplo, uma grande amiga minha, chamada Supaporn, que desenvolveu câncer de mama terminal, recusou a hospitalização e acabou decidindo morrer em casa. Ela preparou uma atmosfera em casa que foi favorável a uma morte tranquila. Ela havia cultivado um lindo jardim que poderia ser apreciado da sua cama. No seu quarto, ela tinha uma imagem de Buda e fotos de seus grandes professores como Buddhadasa e Maha Ghosananda. Às vezes, ela também ouvia música espiritual e agradável.

Com relação ao bem-estar espiritual do paciente, o mínimo que família, amigos, médicos e enfermeiros podem fazer é ajudar a criar uma atmosfera de paz para eles. Eles devem evitar conversas que perturbam o paciente. Os membros da família devem abster-se de discutir entre si ou chorar. Essas coisas só aumentariam a ansiedade e desconforto do paciente. Se a família e os amigos podem tentar manter suas mentes em um estado saudável – não triste ou deprimido – isso já será uma grande ajuda para os pacientes que estão morrendo. Os estados mentais das pessoas que cercam quem está à beira da morte podem afetar a atmosfera na sala e a mente da pessoa. A mente humana é sensível; pode perceber os sentimentos de outras pessoas mesmo que não digam nada em voz alta. As pessoas não têm essa sensibilidade  quando estão bem e conscientes. É possível até mesmo pacientes em coma perceberem a energia mental dos que estão ao seu redor.

Além disso, a família e amigos podem criar um ambiente de paz, encorajando os pacientes que estão morrendo a praticarem meditação junto com eles. Uma forma de meditação é anapanasati ou atenção plena à respiração. Ao inspirar, recite mentalmente “Bud”. Ao expirar, recite mentalmente “Dho”. Quando juntos, “Buddho” é a recitação do nome do Buda. Alternativamente, a cada expiração, conte “1, 2, 3… .10” e comece novamente. Se não for fácil estarem conscientes da respiração, eles podem concentrar sua atenção na subida e descida do abdômen enquanto inspiram e expiram colocando ambas as mãos em cima do abdômen. Na inspiração, quando o abdômen se eleva, mentalmente recite, “subindo”. Na expiração, quando o abdome cai, mentalmente recite, “descendo”.

Houve relatos de pacientes com câncer que encararam a dor física usando meditação. Mantendo suas mentes focadas na respiração ou no abdômen, acabaram precisando usar pouquíssima medicação para a dor. Além disso, suas mentes estavam mais claras e alertas do que os pacientes que usavam muitos analgésicos. Supaporn é a pessoa anteriormente citada que preferiu ter clara consciência no lugar dos analgésicos. Sua prática regular de meditação ajudou-a a suportar a dor sem analgésicos, para surpresa de seu médico.

Encorajar pacientes morrendo a fazer recitação de cânticos junto com a família e amigos num quarto preparado para produzir uma aura de serenidade e santidade (como mencionado anteriormente, colocando uma estátua de Buda ou outros objetos de veneração no local) é outra maneira de estabelecer uma atmosfera calma ao redor de pacientes que estão morrendo e, de uma maneira sadia, induzir suas mentes. Até mesmo tocar música instrumental suave tem um efeito benéfico no estado mental do paciente.

No caso  mencionado acima da mulher de uma moderna e urbana família sino-tailandesa que morreu de câncer, ela na verdade era mais dedicada ao budismo Theravada do que ao budismo chinês. No entanto, sua mãe gostava da recitação chinesa do nome do Buda Amitabha (namo ami-to-fo). Tem um estilo mais musical do que o cântico tailandês geralmente usado na hora da morte, que é o refúgio no Buda Sakyamuni (namo tassa bhagavato arahato samma-sambuddhassa). Os chineses normalmente cantam para o Buda da Medicina até o último derradeiro momento, e então mudam para o Buda Amitabha quando a morte é certa.

Até o último instante, ela manteve a consciência. No fim, ela não mostrou sinais de dor ou conflito, e muito disso foi através da ajuda de sua família. Eles a lembraram de todas as coisas boas que ela havia feito em sua vida. Na hora final, sua família cantou o nome de Amitabha em chinês mil vezes, e ela faleceu quase imperceptivelmente, como uma vela. Isso mostra do que a família é capaz sem a ajuda de monges, e é por isso que nossa rede começou a realizar workshops para enfermeiros, médicos e famílias para que possam realizar esse processo sozinhos.

Mesmo que uma mente tranquila seja importante, do ponto de vista budista, é a sabedoria que é considerada a coisa mais importante para uma pessoa próxima à morte (e, na verdade, para todos os seres humanos, doentes ou não). Sabedoria significa conhecimento claro das verdades da vida: impermanência (anicca), inclinação à mudança (dukkha) e abnegação (anatta). Estas três verdades sobre todas as coisas nos mostram que não há uma única coisa a que possamos nos apegar. Acharemos a morte assustadora se ainda estivermos apegados a certas coisas. No entanto, uma vez que compreendemos plenamente que não há realmente nada a que possamos nos apegar, a morte não será mais temível. Uma vez que percebemos que, por natureza, tudo deve mudar, que não há nada que seja permanente, então a morte se tornará algo natural. Finalmente, uma vez que percebemos que realmente não temos tal coisa como um “eu”, então não haverá “eu” que morra. Não haverá ninguém que morra. A própria morte se torna apenas uma mudança de estado de uma forma para outra, de acordo com causas e condições. A sabedoria, o conhecimento e a compreensão dessas verdades é o que faz a morte não mais temerosa ou repugnante, e é o que permite encontrar-se com a morte tranquilamente.

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7. Dizendo adeus

Para aqueles que gostariam de dizer o que está em seus corações para quem está morrendo, como pedir desculpas ou dizer adeus, não é tarde demais para fazê-lo. À medida que o pulso de uma pessoa enfraquece progressivamente e ela se aproxima do momento da morte, se a família e os amigos desejarem se despedir, devem primeiro estabelecer atenção plena e restringir a dor do paciente. Depois, podem sussurrar suas últimas palavras no ouvido da pessoa que está morrendo. Devem falar dos bons sentimentos que têm em relação à pessoa, elogiá-la e agradecer por todo o bem que fez e pedir perdão por quaisquer erros cometidos. Então, podem guiar a mente da pessoa para estados cada vez mais benéficos, aconselhando-a a deixar tudo de lado, abandonar todas as preocupações e lembrar-se dos Três Refúgios ou do que a pessoa venera. Se a pessoa tiver algum fundamento nos ensinamentos budistas, peça-a que deixe o “eu” e todas as coisas condicionadas, incline a mente para o vazio e mantenha-a focalizada no nirvana; então, diga adeus.

Mesmo se alguém se despediu quando o paciente ainda estava consciente, ainda assim é benéfico dizer adeus novamente antes da morte. O importante é ter em mente que conseguir dizer adeus e guiar a mente da pessoa que está morrendo para um estado saudável só pode ser bem realizado se a atmosfera que envolve a pessoa for calma e não for perturbada por tentativas de realizar intervenções médicas invasivas. Na maioria dos hospitais na Tailândia, se os pacientes estão na UTI e seu pulso enfraquece a ponto de estarem quase morrendo, médicos e enfermeiros tendem a fazer o que for necessário para mantê-los vivos, estimulando o coração com choques elétricos (desfibrilação) ou usando todas outras formas disponíveis de tecnologia médica. A atmosfera em volta dos pacientes será caótica, e será difícil para a família e os amigos dizerem alguma coisa para eles. As únicas exceções são os casos em que pacientes e familiares informam o pessoal do hospital com antecedência de seu desejo de que o paciente possa morrer em paz, livre de qualquer intervenção médica.

Em sua maioria, médicos e familiares tendem a pensar apenas em ajudar o paciente em termos de seu bem-estar físico e negligenciam pensar em seu bem-estar espiritual. Dessa forma, eles tendem a apoiar o uso de todas as formas disponíveis de tecnologia médica para prolongar a vida do paciente, a despeito do fato de que quando alguém está quase morrendo, o que mais precisa é de ajuda espiritual. A maioria dos familiares quer que o médico faça o possível para prolongar a vida do paciente, porque eles acham que essa é a única maneira de ajudá-los. No entanto, uma vez que ficam sabendo que há melhor escolha, que é ajudá-los a morrer em paz, a maioria prefere essa opção.

Se a condição do paciente piorar a ponto de não haver esperança de recuperação, os membros da família devem dar maior consideração ao cuidado do estado mental do paciente do que ao corpo. Isso pode significar pedir que os outros não se amontoem ao redor do paciente, permitindo que eles morram em paz, cercados por familiares próximos e amigos que se unem para criar uma atmosfera saudável e positiva que ajudará a levá-los a um bom renascimento. Em geral, o lugar mais propício para criar esse tipo de atmosfera tende a ser a casa do paciente terminal. Por essa razão, muitos pacientes desejam morrer em casa e não no hospital ou na UTI. Se a família e os amigos estiverem prontos para ajudar a atender às necessidades espirituais dos pacientes que estão morrendo, é mais fácil para os pacientes decidirem passar a última parte da vida em casa.

Há seis anos nossa rede iniciou o “Projeto Enfrentando a Morte Tranquilamente”, que visa educar os tailandeses sobre morte tranquila. Livros e outras mídias foram produzidos para dar conselhos sobre este tema. É interessante descobrir que muitos hospitais precisam de tal aconselhamento. Nossas oficinas sobre morte tranquila são hoje muito demandadas por muitos hospitais em todo o país.

Conclusão

Quando a morte é iminente, nada é mais importante que uma morte tranquila. Seja qual for o sucesso que se obtém nesta vida, ele não garante, obstante, uma morte calma. Somente a qualidade mental adequada pode permitir que alguém morra em paz. Influenciadas por uma cosmovisão materialista, as pessoas tendem a se concentrar nos aspectos físicos da doença, ignorando as emocionais ou espirituais. Tal abordagem tende a aumentar o sofrimento dos que estão morrendo e os desvia de uma morte tranquila.

Uma morte tranquila é possível quando os desfalecidos são envolvidos pelo amor e aliviados da ansiedade. É possível, por um lado, quando desapaga-se de tudo; por outro, quando concentra-se na bondade na vida da pessoa ou na bondade representada pelos seres sagrados. Viver uma vida decente também contribui para uma boa morte. A vida e a morte são, na verdade, uma e a mesma matéria. Nós morreremos mais ou menos da mesma maneira que vivemos. Se vivermos na ignorância, nosso momento final provavelmente será gasto em agonia, sem qualquer sentimento de paz e atenção plena. Contudo, se cultivarmos constantemente o mérito e a autoconsciência, seremos capazes de perecer tranquilamente, estando em estado de consciência até o nosso último suspiro.

Os sistemas de saúde devem ser orientados para apoiarem mortes tranquilas ao invés de prolongarem a vida a todo custo. Salvar vidas é importante, mas quando essa missão é impossível, nenhuma outra escolha é melhor do que facilitar uma morte calma, promovendo uma atmosfera propícia à prática espiritual e assistência espiritual aos esvaídos. Os hospitais não devem ser apenas um teatro para lutar contra a morte, mas também o lugar onde se pode estar em paz com a morte.

Texto original: http://www.visalo.org/book/BuddhistCare.htm
Tradução: Tiago Ferreira

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