Contentamento e esperança: ou porquê Paul Williams está errado sobre o budismo

Resposta do monge australiano Ajahn Sujato às críticas de Paul Williams, ex-budista convertido ao catolicismo. Williams afirma que o budismo não traz esperanças para os seus praticantes, em oposição ao cristianismo. Sujato argumenta que o budismo não foca na esperança porque ensina o caminho do amadurecimento que dispensa a fé na esperança e finca raízes no presente e na realidade.

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Em 2002 o acadêmico budista Paul Williams publicou um livro no qual ele detalha como e porque decidiu que não mais poderia ser budista e, ao invés disso, tornou-se católico. Recentemente um de seus artigos foi encaminhado a mim pelo Ven. Thich Quang Ba, um monge sênior na Austrália, que nos disse que os artigos dele estavam sendo usados pela comunidade católica vietnamita para evangelizar os budistas, e pediu que alguém escrevesse uma resposta. Bem, sendo eu alguém que não dispensa um desafio, aqui está. Este artigo não responde ao livro de William, que eu não li, mas sim ao artigo dele, On converting from Buddhism to Catholicism – One convert’s story. Este artigo está publicado no site whyimcatholic.com, um site que existe puramente para celebrar pessoas convertendo-se ao catolicismo.

Para começar, deixe-me esclarecer algumas coisas. Acho ótimo que Williams tenha encontrado um caminho espiritual que o satisfaça, depois de anos nos quais, ele agora admite, nunca foi um budista de verdade.  Também acho que é ótimo ele tirar um tempo para desenvolver uma crítica do budismo. Deveria acontecer mais vezes. Religiões não existem num vácuo, e precisamos de pessoas experientes e reflexivas para discutirem as similaridades e diferenças entre as religiões e abordagens espirituais, da mesma forma que o Buda fazia com frequência.

Mas a coisa é a seguinte: a crítica de Williams é uma montanha de erros. Se estávamos esperando por uma crítica inteligente e significativa do budismo a partir de um ponto de vista católico, não é essa.

Por quê? A essência da crítica é esta: o budismo é desesperançoso (por causa do renascimento), enquanto o cristianismo oferece esperança. Assim sendo, o cristianismo está correto, e é racional concluir que Jesus ergueu-se dos mortos e assim por diante.

Isso sequer se aproxima do formato de um argumento racional. Não passa da satisfação de um desejo, nada mais. Ele quer viver num mundo onde tudo ficará bem no futuro, e conclui que este deve ser o mundo onde vivemos. E, de alguma forma, os misteriosos ensinamentos de uma instituição que remonta a um judeu messiânico de 2000 anos atrás são a fonte, aparentemente a única, de esperança. É uma das piores teologias que já ouvi. Deveria ser um constrangimento para qualquer um interessado em desenvolver um relevante cristianismo moderno.

Se querem alguém que produz bem teologia moderna, dêem uma olhada nas leituras do Bispo John Shelby Spong. Há muitos interessantes e reflexivos cristãos como Spong; e uma das marcas registradas das genuínas tradições cristãs é que elas não se contentam com racionalizações simplistas. Há muitas tradições cristãs para se envergonhar: caça às bruxas, genocídio, milênios de perseguição, a queima de hereges, e por aí vai. Ainda assim, sem negação ou rodeios, é possível reconhecer a luta de pessoas [cristãs] comuns e extraordinárias para descobrirem e manterem algum sentido do divino, mesmo dentro do nosso mundo confuso. E há algo real e autêntico nisso, algo que nós, budistas, poderíamos utilizar mais.

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Encontro entre católicos e budistas na Tailândia

Esperança budista

Mas vamos considerar o problema central de Williams, a questão da esperança. Levantei esse tema num grupo de discussão com alguns jovens budistas daqui de Perth. Queria ver se meu entendimento destas coisas era só meu ou se refletia uma compreensão mais ampla  dentro da comunidade budista. E, como eu meio que já suspeitava, todas as coisas que eu havia pensado apareceram na discussão. Não são coisas complicadas.

Os budistas não falam muito sobre esperança porque ela está baseada no futuro, sendo assim, enganosa. Não sabemos o que o futuro reserva, portanto, basear nosso bem estar emocional em algo que não sabemos, e nunca poderemos saber, é um convite ao desapontamento.

Alegar que a esperança é baseada no que é desconhecido não é um argumento apenas meu. Foi usado por Paulo, cujos ensinamentos bíblicos sobre esperança são citados por Williams.

Pois nessa esperança fomos salvos. Mas, esperança que se vê não é esperança. Quem espera por aquilo que está vendo? (Rm. 8:24).

Para os budistas, isso nunca poderia ser aceitável. Nossa maior preocupação é estarmos firmados naquilo que podemos ver. Nunca poderíamos ficar satisfeitos com um ensinamento cujos princípios fundamentais são não apenas desconhecidos como incognoscíveis.

É por isso que cultivamos o contentamento. Contentamento é simplesmente estar feliz com o que se tem, aqui e agora. Baseia-se na realidade do presente, não em algum futuro imaginado. Se aprendemos a ficar contentes agora, podemos carregar o contentamento para qualquer lugar que formos. De acordo com Paulo, entretanto, temos esperança precisamente porque não sabemos de alguma coisa. Isso é uma doutrina que eleva a ignorância permanente como virtude.

A esperança não é meramente enganosa, ela está impregnada de aversão. Por que temos necessidade de esperança? Porque o presente é ruim. Aqui, este lugar onde estou, as pessoas com quem estou, esta mente que eu tenho: tudo isso é, de alguma forma, errado, doloroso, insuportável. Em vez de lidar com a realidade, a esperança nos diz que em alguma terra da fantasia do futuro, tudo vai ficar bem.

O contentamento, por outro lado, é baseado na aceitação e no amor. Não tentamos afastar a realidade. Não tentamos evitar as dores e aflições da vida. Aceitamos e ficamos contentes. Tudo bem. Por isso o budismo é um caminho para amadurecidos. Não estamos procurando por alguém que vá consertar nossos problemas por nós. Procuramos desenvolver uma madura e sábia conexão com a realidade.

Isso não quer dizer que ter uma perspectiva positiva para o futuro é impossível. É claro que fazemos isso, tanto no nível secular quanto espiritual. Estudamos agora para que possamos ter um emprego depois. Ou vamos às aulas de Dhamma para que possamos meditar com mais compreensão depois. Nosso mundo ainda existe diacronicamente e lidamos com isso da mesma forma que uma pessoa comum.

A diferença é que, enquanto budistas, não tentamos transformar este processo ordinário em um grande princípio espiritual. Claro que tem-se esperança. Se você é uma boa pessoa, produz bom carma, então terá um bom renascimento. Sensacional! E se você pratica o Dhamma em profundidade e compreende as quatro nobres verdades, então irá desfrutar da alegria do Nibbana. Melhor ainda! Há muita coisa para se ter esperança na prática e filosofia budista.

Mas isso não é importante no final das contas. Não fazemos disso algo tão relevante porque é tudo incerto. É muito melhor focar no aqui e agora e desenvolver contentamento com o que quer que seja.

Portanto, de forma alguma é correto dizer que o budismo é desesperançado, se entendermos a coisa neste sentido limitado. Ele é “sem esperanças” apenas no sentido de que não baseamos nossa prática espiritual na “esperança” de alguma intervenção divina desconhecida e incognoscível em algum momento no futuro.

O argumento de Williams é, creio, baseado numa distorção da língua. Normalmente não seria tão crítico a alguém por causa disso; é algo comum, e a maioria de nós faz isso o tempo todo. Mas ele estudou e ensinou a filosofia Madhyamaka por muitos anos, portanto deveria saber melhor.

A distorção está nas palavras “esperança” [hope] e “sem esperança” [hopeless]. Na língua inglesa, a palavra “hope” [esperança] soa bem. A palavra “hopelessness” [desesperança] soa mal: significa “desespero”. Como discuti acima, existe um sentido no qual o budismo é “sem esperanças”. Mas esse tipo de desesperança não tem nada a ver com “desespero”. Pelo contrário, tem a ver com uma maturidade espiritual que encontra a felicidade na realidade, não na fantasia. Não nos falta esperança porque procuramos por ela e não a encontramos; nós superamos a necessidade dela.

Este tipo de distorção linguística, a propósito, não é novo a Williams. Já o encontramos nos textos budistas primitivos, onde o Buddha é igualmente acusado de vários tipos de negatividade, similares à desesperança, e responde com uma nuançada análise linguística das exatas implicações dos termos usados.

 

Razão e emoção

Williams afirma que sua posição é “racional”. No entanto, parece ser uma razão puramente teórica, uma inferência dos princípios da teologia, sem qualquer consideração da realidade da vida das pessoas. Se você passar um tempo com verdadeiros praticantes budistas, vai saber que não somos mais desesperançosos do que ninguém. Na verdade, a prática budista faz exatamente o que budistas vem dizendo há milênios: levam à paz, ao contentamento e à felicidade.

Parece-me que a falta de contentamento é o que conduz o argumento de Williams. Por que outro motivo ele sentiria a necessidade de persuadir pessoas de sua atual religião atacando sua antiga religião? Para cada Williams há literalmente milhares de ex-cristãos, como eu, que abandonaram a fé onde foram criados e encontraram paz nos caminhos do Buddha. Mas os budistas não se envolvem em toda essa coisa de evangelização, porque estamos contentes. Estamos contentes em sermos budistas e felizes de dividir o Dhamma com pessoas interessadas; mas estamos também felizes pelas pessoas poderem escolher seu próprio caminho.

Esta tolerância não é uma ideia new age, uma vez que a encontramos nos próprios discursos do Buda. Ontem mesmo, estava editando o Udumbarika-sīhanada Sutta (DN 25), onde o Buda diz isso a um monge de uma outra tradição religiosa:

Nigrodha, você talvez pense: ‘o asceta Gotama fala desse jeito porque ele quer discípulos’. Mas você não deve ver as coisas deste jeito. Deixe que seu professor continue a ser seu professor.

Você pode pensar: “O asceta Gotama fala assim porque quer que desistamos de nossa recitação”. Mas você não deve ver as coisas deste jeito. Deixe sua recitação permanecer como está.

Você pode pensar: “O asceta Gotama fala assim porque quer que abandonemos nosso modo de vida.” Mas você não deveria ver as coisas deste jeito. Deixe seu modo de vida permanecer como está.

Você pode pensar: “O asceta Gotama fala assim porque quer que comecemos a fazer coisas que são inábeis e consideradas inábeis em nossa tradição”. Mas você não deveria ver as coisas deste jeito. Deixe que as coisas que são inábeis e consideradas inábeis em sua tradição permaneçam como são.

Você pode pensar: “O asceta Gotama fala assim porque quer que paremos de fazer coisas que são hábeis e consideradas hábeis em nossa tradição”. Mas você não deveria ver as coisas deste jeito. Deixe que as coisas que são hábeis e consideradas habilidosas em sua tradição permaneçam como são.

Eu não falo por nenhuma dessas razões. Nigrodha, existem coisas que são inábeis, corrompidas, levando a vidas futuras, prejudiciais, resultando em sofrimento e renascimento futuro, velhice e morte. Eu ensino o Dhamma para que essas coisas sejam abandonadas. Quando você pratica adequadamente, as qualidades corruptoras serão abandonadas em você e as qualidades de limpeza crescerão. Você entrará e permanecerá na plenitude e abundância de sabedoria, tendo percebido isso com sua própria percepção nesta mesma vida.”

Budistas não estão interessados em conversão. Não nos importamos se você diz que é budista ou não. Apenas queremos que seja feliz. Não somos tão desesperados, tão emocionalmente frágeis e carentes que precisamos sair por aí fazendo todo mundo acreditar no que acreditamos. Se você quer aprender e praticar o Dhamma, ótimo! Se está feliz fazendo alguma outra coisa, então seja feliz. Estaremos aqui se precisar de nós.

Às vezes acontece que as pessoas que se aproximam da religião através do intelecto negligenciam suas necessidades emocionais e espirituais subjacentes. Na verdade, chegamos à religião não por causa da razão, mas porque ela fala com nossas emoções e intuição mais elevadas. Sentimos uma conexão de coração com um método, um caminho ou uma comunidade. Por que pessoas diferentes sentem essa conexão de maneiras diferentes é difícil de saber; talvez seja por causa de vidas passadas.

A razão é o que utilizamos mais tarde para justificar nossas crenças e comunicá-las aos outros; como Williams disse “Eu me convenci que era racional acreditar em Deus”. Se não atendermos às nossas necessidades emocionais, elas podem ficar devolutas, intocadas por anos de filosofia. Não há nada de errado com isso, em si; às vezes desenvolvemos diferentes aspectos do caminho em diferentes momentos. Mas há algo errado quando tomamos nossa própria experiência pessoal altamente incomum e a transformamos em um argumento universal enganoso.

Nenhum budista de uma cultura tradicional budista tem esse problema. Budistas tradicionais se aproximam do Dhamma primeiramente via coração, desenvolvendo a fé, o contentamento, a alegria de participar do Dhamma. Somente muito depois, se ocorrer, eles se voltam para uma investigação mais racional dos ensinamentos.

Esta é outra área onde acho que os escritos de Williams são dissimulados. Ele apresenta seu artigo como se fosse uma jornada pessoal e usa a técnica retórica padrão de ganhar conexão emocional com seu público ao contar sua história de vida; um truque barato que políticos usam o tempo todo. No entanto, ele resvala facilmente da “jornada pessoal” para declarações alegres e radicais sobre o “budismo” e o “cristianismo”. Estes não são os métodos de um filósofo ou estudioso, que é como ele se apresenta. São os métodos de um evangelista.

O renascimento e a barata

Os principais argumentos de Williams assentam-se sob suas análises do renascimento. Ele não argumenta, como fazem os secularistas, que o renascimento é factualmente incorreto, uma vez que não há evidências para tal. Ele não pode dizer isso uma vez que, obviamente, a crença cristã envolve muitas coisas para as quais há muito menos evidência que o renascimento. Ao invés disso, ele alega que o que renasce não pode ser “eu”. Ele diz que os budistas estão corretos ao dizer que o que renasce é não-eu, uma vez que o que quer que renasça tem apenas uma relação limitada a quem somos nesta vida. No entanto, a implicação disso, para ele, é que ele, a pessoa que é Paul Williams, irá desaparecer. Nesse sentido, o ensinamento do renascimento é desesperançoso [hopeless]: não há esperança para ele como pessoa.

Este é um argumento tão errado que eu não sei por onde começar. Mas deixe-me dizer: o fato de você não gostar de algo não significa que não seja verdade. O mundo não existe para atender às suas necessidades emocionais. Se é realmente o caso que o renascimento é real, então o papel da religião é nos ajudar a aprender a lidar com isso.

Isto realça uma falácia adicional em seu argumento. A esperança não é algo que existe [concretamente] no universo. O mundo não é esperançoso nem desesperançado. Da mesma forma, construções sociais abstratas como “budismo” ou “cristianismo” são o tipo de coisa que pode ser tanto esperançosa quanto sem esperança.

Pelo contrário, a esperança é uma maneira de responder ao mundo. O budismo nos ensina que podemos treinar nossas emoções e aprender a reagir de maneira saudável ou não saudável. Se você acha que a esperança é uma maneira saudável de olhar o mundo, então pode usar os ensinamentos e técnicas budistas ou cristãos para desenvolvê-la. Ótimo! Mas a esperança não é algo que lhe é dado. Como todas as emoções, é uma resposta condicionada.

Williams nos pede para nos imaginarmos sendo uma barata, argumentando que é isso que budistas dizem que podemos acabar nos tornando. Qual é a conexão entre uma barata e nós? Como é ser uma barata? Ele argumenta que, se renascemos como uma barata, não há sentido significativo em que possamos dizer “nós” ainda existimos, e assim, para todos os efeitos, deixamos de existir.

Mais uma vez, ele exibe uma cegueira aparentemente voluntária aos muitos ensinamentos budistas que abordam exatamente essa questão. Para começar, deixe-me dizer que, embora seja verdade que, em teoria, os ensinamentos budistas parecem dizer que poderíamos renascer como uma barata, na maioria dos casos, quando essas coisas são discutidas, a forma de renascimento é muito mais próxima da humanidade. Então ele escolheu um exemplo extremo, não representativo, para ilustrar seu caso.

Mas a experiência de uma barata é tão diferente da nossa? Vamos ver. Considere os cinco agregados, um ensinamento budista básico cuja finalidade é nos ajudar a entender a natureza da experiência e da identidade. Os cinco agregados são a forma, a sensação, a percepção, as intenções e a consciência.

Nós sentimos prazer e dor; da mesma forma, suponho eu, a barata também. Nós temos percepção; podemos distinguir, por exemplo, o comestível de não comestível; assim como a barata. Nós fazemos escolhas; e o mesmo acontece com uma barata. E nós temos consciência; assim, ainda que minimamente, como a barata. Como nós, também, uma barata tem visão e outros sentidos, embora os use de maneira diferente, com o sentido do tato mediado por pelos finos e antenas, sendo de primordial importância. Mas estes são detalhes. No geral, a estrutura da consciência de uma barata, quando considerada nos termos que são importantes para o budismo, não é tão diferente da nossa. É uma questão de grau, não de tipo.

Pedir que nos imaginemos como uma barata é convidar a empatia, considerar como é ser outro tipo de ser senciente. E esta empatia está no coração do ensino e prática budista. Nós reconhecemos que até uma barata é algo como nós.

Ao mesmo tempo, o oposto é verdadeiro. Eu sou algo como uma barata, mas também algo diferente dela. E isso não se aplica apenas às baratas, se aplica até a nós mesmos. Eu não sou muito parecido comigo. Se eu tentar imaginar exatamente como me senti ontem quando estava lendo o artigo de Williams, não consigo. Lembro-me de alguns aspectos, vagamente e com incerteza, mas perdi para sempre o que significa ser eu lendo aquele artigo naquele momento. É assim que a realidade é. A única coisa que é clara e evidente é o presente. Assim, podemos imaginar, embora de modo vago e distante, como é ser uma barata, um alienígena ou um deus, ou ser nós mesmos uma hora atrás.

 

Sobre o conhecimento e o incognoscível

Considere ainda o método que usamos aqui, um método que é profundamente característico da prática budista. Começamos com nós mesmos, o aqui e agora, com o que podemos experimentar diretamente. Então, pouco a pouco, inferimos, para o passado e o futuro, para outras pessoas, para outros tipos de seres. É assim que podemos passar do que é familiar para o que não é familiar, sem fazer o tipo de gigantesco salto cognitivo que Williams nos pede.

Esse método é subjacente ao ensinamento budista sobre o não-eu, um pilar central do budismo que parece ter sido completamente mal compreendido por Williams. Estamos mudando, aqui e agora. Não podemos identificar uma única coisa que permaneça estável e constante em nossa experiência, mas nos apegamos à ideia de um “eu” constante. A noção de eu é puramente um conceito, um termo útil que usamos para propósitos pragmáticos, mas que não corresponde a nenhuma realidade única. Quando nos apegamos a esse conceito de “eu”, confundindo nossos conceitos com realidade, causamos sofrimento.

Os ensinamentos budistas não criam esse sofrimento ao afastarem o eu; eles aliviam o sofrimento, ajudando-o a entender por que o universo não é como você pensa que é. Sabemos que tudo vai passar, então aprendemos a estar em paz com isso. Eu vou desaparecer; na verdade, estou desaparecendo agora mesmo; e estou em paz com isso.

Mas você sabe o que é realmente incompreensível? Onde podemos realmente não ter nenhum conhecimento? Ideias metafísicas cristãs, como Deus, a alma, a trindade ou o céu. Os cristãos são profundamente vagos e ambíguos quando se trata da salvação que é a base de sua esperança. E por um bom motivo. No coração da noção cristã de salvação está a ideia de que “eu” irei para o “céu” para sempre. O céu é eterno e, por essa razão, é inerentemente incognoscível. Este não é apenas meu argumento; é declarado explicitamente na Bíblia, 2 Coríntios 4.18:

Assim, fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno.

Mas o que isso pode significar? Toda nossa experiência é impermanente. A consciência muda continuamente; isso não é apenas um detalhe aleatório, é como a consciência funciona. Nunca pode haver qualquer experiência do eterno, e podemos sempre inferir a eternidade de nossa consciência transitória. Tudo o que o “eu” já foi é impermanente. Não é possível sequer imaginar como uma experiência genuinamente eterna poderia ser, ou como ela tem alguma relação comigo como uma pessoa condicionada.

Nossa experiência pode parecer distante da de uma barata; mas estamos mais próximos, infinitamente mais próximos, de uma barata do que de um paraíso eterno. A experiência de ser uma barata é conhecível, ainda que ligeiramente; mas a experiência da eternidade é para sempre e totalmente estranha. É uma ideia agradável que não tem base na realidade.

O renascimento e a crença cristã

Williams argumenta o seguinte:

“Se o que eu argumentei até aqui está correto, então parece-me que temos o direito teológico de dizer que sabemos que o renascimento é falso. O que quero dizer com isso é:

  1. O renascimento é incompatível com a crença cristã.
  2. Como cristãos, temos o direito de dizer que sabemos teologicamente que a crença cristã é verdadeira.
  3. Tudo o que é incompatível com uma verdade é falso.
  4. Portanto, temos o direito de dizer, como cristãos, que sabemos teologicamente que o renascimento é falso.”

Esse é o típico uso da “razão” por Williams. Creio que não preciso apontar o quão absurdamente circular esse argumento é. Mas o que é mais interessante é como o argumento usa o raciocínio “teológico” para descartar os ensinamentos de Jesus. Pois a Bíblia, e especificamente Jesus, refere-se à reencarnação em muitas passagens. Isso era bem conhecido dos primeiros cristãos, alguns dos quais, como o pai da Igreja Orígenes, defendiam a crença na reencarnação.

Por que Williams afirma, então, que a reencarnação é incompatível com a crença cristã? Porque, ele diz, “o cristianismo é a religião do valor infinito da pessoa”. Se você renasce, então não tem exclusividade como indivíduo.

O engraçado, porém, é que não há nada nos Evangelhos sobre essa ideia do “valor infinito da pessoa”. De fato, a própria noção de “a pessoa” é abstrata demais para o pensamento do mundo do cristianismo primitivo. É uma ideia grega, que entrou no cristianismo através dos primeiros debates sobre a natureza e a essência de Jesus, que era a Divindade encarnada como pessoa. Foi introduzido no cristianismo por Tertuliano, um filósofo latino do século III, junto com a noção da “Trindade”. Assim, a “teologia” de Williams implica que ele rejeita o renascimento, que é frequentemente referido na Bíblia, em favor da doutrina da “pessoa” única, que não se encontra em parte alguma da Bíblia.

Williams observa que você pode até encontrar alguns cristãos que acreditam no renascimento. Mas isso é um sério eufemismo. De fato, pesquisas em muitos países e diferentes décadas, demonstram que cerca de um quarto dos cristãos modernos acredita na reencarnação, e que muitos mais a aceitam como uma possibilidade.

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Encontro entre católicos e budistas na Tailândia

Quem consegue ter esperança?

Talvez não seja surpreendente que Williams escolha uma barata como seu exemplo, pois tradicionalmente o cristianismo não considerou os animais merecedores de preocupação moral. A esfera do cristianismo é apenas humana, uma vez que os seres humanos possuem uma “alma”, enquanto os animais não. Então não há esperança para os animais. Mas as almas são coisas complicadas, uma vez que elas não existem e são meramente invenções de filósofos e teólogos. Portanto, houve muitos cristãos que argumentaram que as mulheres não têm alma, ou que as pessoas de outras raças não eram realmente humanas.

É importante ter isso em mente quando você ouve esse ensinamento maravilhoso de “esperança”. A esperança cristã, em suas formas normais, não se estende aos bilhões de pessoas que não são cristãs: elas vão para o Limbo (uma espécie de inferno não desagradável). Isso inclui bebês não-batizados, e as inúmeras pessoas que viveram antes de Jesus, assim como todos os animais e assim por diante. Não há mensagem de esperança para estes nos Evangelhos; o melhor que a Igreja pode fazer é dizer que talvez Deus tenha misericórdia.

Sem esperanças também estão aqueles que praticam formas de sexualidade não aprovadas, ou se divorciam, ou usam contraceptivos, ou se masturbam, ou que são ateus, ou agnósticos, ou se atrasam para a missa no dia errado (É sério!), e a lista continua.  Claro, eles podem ser salvos se confessarem, arrependerem-se e se Deus estiver de bom humor. Mas se pensam que não há nada errado com essas coisas, eles cometem pecado mortal e estão condenados. Isso, claro, inclui a grande maioria dos cristãos modernos e conscientes, que não concordam com os ensinamentos da Igreja sobre esses e muitos outros temas, mas preferem ignorá-los discretamente.

E se você é uma figueira, já pode desistir agora mesmo.

A esperança de Jesus

Quando ouço alguém dizer que “o cristianismo oferece esperança”, não acredito neles. Isso é muito vago e generalista. Deem-me detalhes e podemos começar a entender. Eu faço a mesma coisa quando enfrento problemas no budismo: deixo de lado os chavões e observo o que o Buda realmente disse.

Então, vamos ver o que a Bíblia diz. Mas teremos que fazer um recorte sem sermos culpados de selecionarmos passagens específicas. Já que estamos falando sobre o cristianismo, então vamos considerar as palavras de Jesus, como registradas nos Evangelhos. E vamos escolher Marcos que, embora seja composto muito depois de sua morte por pessoas que não conheciam Jesus, e que, embora construído de acordo com uma cronologia artificial, ainda é o mais antigo, menos filtrado e mais confiável dos Evangelhos.

Marcos é uma boa fonte para se entender a esperança cristã, uma vez que toda a narrativa é configurada como uma profecia apocalíptica. A história é para prefigurar o significado do poder salvador de Jesus, um poder tão incrível que nem mesmo seus alunos mais próximos tinham a mais vaga noção do que estava acontecendo. (Lembre-se disso quando você encontrar cristãos que estejam tão confiantes de que sabem o que é Jesus: nem mesmo aqueles que viveram com ele entenderam sua mensagem!) Jesus diz aos seus discípulos:

Quando ouvirem falar de guerras e rumores de guerras, não tenham medo. É necessário que tais coisas aconteçam, mas ainda não é o fim.
Nação se levantará contra nação, e reino contra reino. Haverá terremotos em vários lugares e também fomes. Essas coisas são o início das dores (…) Como serão terríveis aqueles dias para as grávidas e para as que estiverem amamentando!

Isso não soa tão esperançoso. A esperança vem porque Deus nos salvará. Mas não é Deus quem criou tudo isso em primeiro lugar? Na verdade, o texto em si deixa isso claro:

Se o Senhor não tivesse abreviado tais dias, ninguém sobreviveria. Mas, por causa dos eleitos por ele escolhidos, ele os abreviou”.

Então, nós estamos sob o capricho de um Deus onipotente, que criou o mundo, incluindo todo o seu sofrimento, e distribui a dor e a morte como bem entender. A esperança é apenas para os eleitos, os outros perecerão.

Não acho isso esperançoso, mas aterrorizante. E esse medo não é acaso. A Bíblia, em muitos, muitos lugares, tenta o seu melhor para ser aterrorizante, e a história cristã está cheia de pregadores cujo modus operandi não era esperança, mas o terror. Afinal de contas, o medo nada mais é do que o inverso da esperança, e qualquer doutrina fundamentada na esperança guarda o medo no bolso de trás. O medo é o punho de ferro dentro da luva de veludo da esperança.

É por isso que, quando o mundo ocidental começou a emergir do fascínio do cristianismo no século XIX, pensadores ateus como Freud, Nietzsche e Marx documentaram as profundas cicatrizes psicológicas e sociais que o cristianismo deixou no espírito europeu.

O cristianismo popular oculta essa história. As Igrejas modernas reconheceram implicitamente que as críticas do ateu estavam certas e mudaram o cristianismo, pelo menos até certo ponto, para fugir desse culto da morte.

Mas isso nunca desapareceu. O bispo Spong, por exemplo, conta a história de um jovem casal dedicado em sua congregação que foi abençoado com uma linda filhinha. Mas eles tiveram que assistir enquanto ela adoecia e, enquanto toda a congregação orava e rezava, ela enfraqueceu e morreu. Claro que o casal ficou arrasado; mas, à medida que conversava com eles, começou a sentir algo além da perda e tristeza normais: raiva de Deus. Como pode Ele nos dar essa vida, apenas para arrebatá-la tão cruelmente, ignorando os apelos daqueles que têm sido tão dedicados a ele?

Uma abordagem realista da tradição cristã não pode evitar esse problema. Deus é aterrorizante e, nesse sentido, ele é como a vida. Ele não existe para apaziguar aqueles que não conseguem manter suas vidas em conjunto. É por isso que Peter Carnley, o ex-arcebispo da comunidade australiana anglicana, disse à sua congregação que a oração não funciona; Deus não é o tipo de ser que fica lá ouvindo uma linha de ajuda cósmica.

Mas como é ser salvo?

“Então se verá o Filho do homem vindo nas nuvens com grande poder e glória. E ele enviará os seus anjos e reunirá os seus eleitos dos quatro ventos, dos confins da terra até os confins do céu”.

         Temos aqui claramente uma força externa, um salvador vagamente imaginado aparecendo em alguma visão mágica. As raízes do cristianismo não estão na lógica e na racionalidade que Williams afirma, mas em uma feroz e extática visão.

Há pouca racionalidade na Bíblia. A razão foi inventada pelos gregos, e ela entrou no cristianismo quando os filósofos gregos e romanos criticaram as comunidades cristãs primitivas por suas crenças e práticas irracionais, como a ressurreição de Jesus em carne e osso, o nascimento virginal e assim por diante. Essas críticas, como as dos ateus do século XIX, estavam obviamente corretas, e os cristãos, embora argumentassem contra eles, gradualmente mudaram sua doutrina para acomodar as críticas, transformando um culto profético visionário em uma instituição friamente teológica.

Mas estou me desviando para questões históricas aqui, e perdendo o ponto chave: quando Jesus voltará? Essa, certamente, é a questão crucial na esperança cristã.

“Eu lhes asseguro que não passará esta geração até que todas essas coisas aconteçam”.

Aqui temos a declaração explícita de que Jesus reaparecerá na vida de seus seguidores. Obviamente isso não aconteceu. A profecia de Jesus, o coração de seu ensinamento no primeiro testamento de sua vida, revelou-se vazia. Esta foi uma crise fundamental para a comunidade cristã primitiva: a esperança foi prometida, mas não foi cumprida. Isso não é exclusivo de Marcos, mas foi encontrado em todos os textos cristãos primitivos. (Desculpem por citar a Wikipédia):

Os cristãos da época de Marcos esperavam que Jesus retornasse como Messias em sua própria vida – Marcos, como os outros evangelhos, atribui a promessa ao próprio Jesus (Marcos 9: 1 e 13:30), e isso se reflete nas cartas de Paulo, na epístola de Tiago, em Hebreus e no Apocalipse. Quando o retorno falhou, os primeiros cristãos revisaram seu entendimento. Alguns reconheceram que a segunda vinda havia sido adiada, mas ainda assim a esperavam; outros redefiniram o foco da promessa, como o Evangelho de João, por exemplo, falando da “vida eterna” como algo disponível no presente; enquanto outros concluíram que Jesus não voltaria mais (II Pedro argumenta contra aqueles que sustentavam essa visão).

Resumindo: a esperança cristã, tal qual ensinada por Jesus, era que ele retornaria em glória para salvar seus seguidores, ao passo que destruía todas as outras pessoas. Essa profecia era falsa. A tradição cristã respondeu desenvolvendo uma interpretação simbólica das passagens da Bíblia que originalmente eram entendidas literalmente. Como incontáveis profetas apocalípticos desde então, as palavras de Jesus estavam se dirigindo aos eventos de seus dias, mas foram ultrapassadas pela história.

Do ponto de vista budista, essa vacilação é inteiramente previsível. O problema não está nos detalhes de como Jesus ensinou seus seguidores; é que a própria ideia da salvação na forma de uma esperança futura é delirante. Nossa salvação vem da realidade e a realidade está sempre presente.

Conclusão

Permita-me reafirmar: não estou escrevendo este artigo para atacar o cristianismo. Estou fazendo isso para refutar a crítica de Paul Williams, uma crítica que, ainda que equivocada, ganhou força entre os cristãos evangélicos devido ao seu prestígio como ex-acadêmico budista. Apesar da extensão deste artigo, eu mal penetrei na superfície dos erros da representação do budismo feita por Williams. Por exemplo, eu sequer citei sua distorção dos ensinamentos do Buda sobre o kamma.

Nós seguimos caminhos religiosos, na maioria das vezes, porque eles respondem a uma necessidade ou conexão emocional profunda, muitas vezes não reconhecida. Então, quando, há alguns anos, um ex-budista me disse que eles se tornaram cristãos porque sentiram uma conexão com Jesus e sua comunidade, eu disse “Sadhu!”, ofereci meu apoio e tive uma conversa adorável com eles e seu novo pastor.

Conversão não é um problema para os budistas; o sofrimento é. Se alguém pode aliviar seu sofrimento seguindo algum caminho religioso ou espiritual, então essa é a prática mais verdadeira do Dhamma para eles. Mas não devemos ficar parados enquanto o budismo é criticado injustamente e erroneamente. Como o Buda disse no Brahmajala Sutta:

 “[Mendicantes] Se os outros criticarem a mim, aos ensinamentos ou à saṅgha, devem explicar que o que é falso é de fato falso: ‘É por isso que isso é falso, é por isso que isso é falso. Não existe tal coisa em nós, isto não é encontrado entre nós’.”

Eu me beneficiei muito de leituras, reflexões e envolvimento com cristãos e pessoas de outras religiões. Sempre há algo para aprender, e nunca devemos ser tão arrogantes a ponto de acreditar que temos todas as respostas.

Obviamente, no final das contas, não posso aceitar as crenças cristãs básicas. Mas o que eu respeito na tradição cristã é o sentido de uma verdadeira luta humana para se conectar com o transcendente em meio ao mundano. Se olharmos para a Bíblia desta maneira, podemos ver não a palavra divinamente revelada de Deus, mas as palavras de pessoas através das eras que, cada uma de modo bastante peculiar, encontraram significado em um mundo louco.

Temos a sorte de compartilhar esse mundo louco com os cristãos, e com muitas pessoas de diversas crenças e práticas, e nós, budistas, podemos aprender muito com suas lutas e insights. E espero que, no futuro, eu possa aprender com uma crítica cristã mais significativa do budismo.

Ajahn Sujato, 21 de Outubro de 2014

Texto original em inglês:
https://sujato.wordpress.com/2014/10/21/contentment-and-hope-or-why-paul-williams-is-wrong-about-buddhism/

Traduzido por Tiago da Silva Ferreira
12 de abril de 2018.

6 comentários em “Contentamento e esperança: ou porquê Paul Williams está errado sobre o budismo

  1. No mundo ocidental o cristianismo é servido junto com o café da manhã. É uma cultura religiosa que permeia tudo, mesmo que você seja ateu. Então, qual o valor da opinião de um cristão convertido ao budismo, agora “reconvertido” ao cristianismo? Fosse o Dalai Lama se convertendo eu me preocuparia em ler as opiniões dele, mas um cara chamado Williams… é querer muito.

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    1. No Brasil a maioria das pessoas não conhece os mestres budistas estrangeiros, exceto o Dalai Lama, o Thay e mais alguns outros. Mas existem outras pessoas influentes. Williams é um acadêmico budista muito influente. Ele escreveu livros básicos sobre o budismo mahayana. O fato dele ter se convertido ao cristianismo e atacado o budismo tem sim impacto entre os budistas. Como diz o próprio texto, a crítica dele tem sido usada para evangelizar budistas no Vietnã. Na Ásia, os missionários cristãos são muito ativos na evangelização dos budistas e os desafios são grandes. A Coreia do Sul, por exemplo, virou um país de evangélicos. Portanto, uma resposta se fez necessária.

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  2. Já fui budista e hoje sou católico, e digo que os argumentos de Williams são fracos e parecem meramente justificativas para a sua conversão. Era melhor ter assumido que o caminho era insatisfatório para ele. Porém, Sujato também peca em diversos pontos, demonstrando preconceito quanto ao que ele entende por cristianismo e ignorância do que ele supõe que os católicos acreditam, como por exemplo a ideia de limbo, que nunca foi plenamente aceita pela Igreja e que foi deixada completamente deixada de lado graças ao Bento XVI, pois aqueles que nunca conheceram a Cristo podem alcançar a salvação, dependendo da vida que teve. Não vou analisar todos os pontos, mas a conclusão é que Williams e Sujato parecem cegos em tiroteios, cada um não sabendo coisa alguma do que o outro diz.

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    1. Existe um debate sobre se o budismo pode ser praticado por ateus. Muitos acreditam que sim. Procure pelas obras de Stephen Batchelor, ele é ateu e budista ao mesmo tempo.

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