Convertendo-se ao budismo como forma de protesto político

O budismo é visto como a religião igualitária. Talvez por isso, indianos de castas baixas ou sem casta (Dalits) estão deixando o hinduísmo em massa – em parte por causa do primeiro-ministro indiano.

Dalits
Cerimônia de conversão em massa

SHIRASGAON, India—Mais de 500 hindus de castas baixas ocuparam o Veera Maidan, um campo aberto nos limites de uma poeirenta vila de Maharashtra numa recente noite de domingo. Os vizinhos olhavam perplexos das varandas enquanto a multidão de pessoas entrava, muitas vestidas com simbólicos sáris e kurtas brancos. Sob holofotes, eles bradavam: “Não terei fé em Rama e Krishna, que acreditam serem encarnações de Deus, nem os adorarei. (…) Eu não acredito nem devo acreditar que o Senhor Buda foi a encarnação de Vishnu. (…) De agora em diante, conduzirei minha vida de acordo com os princípios e ensinamentos do Buda ”. Subitamente, havia 500 novos budistas na Índia.

Os convertidos eram Dalits, aqueles das castas hindus mais baixas, antigamente conhecidos como “intocáveis”. Eles se juntaram ao Budismo Ambedkarista, um movimento fundado há meio século atrás por Bhimrao Ramji Ambedkar, um advogado formado pela Universidade Columbia que escreveu a constituição da Índia. Ambedkar nasceu Dalit e viu o Buda como um radical reformador social que criou uma saída do rígido sistema de castas hindu. Atualmente, enquanto as tensões entre castas aumentam sob o governo do primeiro-ministro Narendra Modi, cujo partido é afiliado aos nacionalistas hindus de direita, indianos de castas baixas continuam encontrando atrativos nas mensagens de Ambedkar.

Os dálits constituem cerca de 20 por cento da população da Índia—e muitos deles estão irritados com o governo de Modi. Semana passada, milhares deles inundaram as ruas nacionalmente, protestando contra a contínua discriminação contra eles. Mas os maus-tratos que sofrem dentro da sociedade tem sido vertiginosos mesmo antes do partido BJP de Modi tomar o poder em 2014. Entre 2007 e 2017, o crime contra dalits aumentou em 66% e o estupro das mulheres dalits dobrou, de acordo com o National Crime Record Bureau. Agora, a raiva dos dalits—que se manifesta em regulares protestos, greves, e furor nas redes sociais— está a ponto de desempenhar um grande impacto nas eleições nacionais da Índia no próximo ano.

Talvez seja por isso que Modi está tentando conquistá-los – não apenas como eleitores, mas também como potenciais membros do partido. O primeiro-ministro tem enviado monges budistas para a campanha e até mesmo atraído alguns políticos budistas para o Bharatiya Janata Party (BJP). Ele também tem elogiado Ambedkar publicamente.

Em 1954, Ambedkar escreveu um “projeto” para a disseminação do budismo indiano, no qual recomendou a impressão de um compacto “evangelho budista” como a Bíblia e “uma cerimônia tipo o batismo” para convertidos. Em 1955, ele fundou a Sociedade Budista da Índia. Em 1956, se converteu publicamente ao budismo ao lado de outros meio milhão de pessoas. Seis semanas depois, no entanto, veio a falecer.

Um de seus descendentes, Rajratna Ambedkar, tornou-se presidente da Sociedade há três anos. Em resposta à crescente demanda, ele reiniciou vigorosamente seu programa de conversões em massa. “Quase todos os dias agora, conversões budistas em massa estão ocorrendo em toda a Índia”, ele me disse. Depois de ajudar a converter 500 pessoas em Shirasgaon no mês passado, por exemplo, ele acordou cedo na manhã seguinte para ir de carro até a cidade de Surat, onde ele converteu outras 500 pessoas naquela noite.

Ainda assim, em um país de mais de 1,2 bilhão de pessoas, o número de budistas indianos registrados permanece pequeno, em torno de 8,4 milhões. Cerca de 87 por cento deles são ambedkaristas ou convertidos, e os demais são budistas étnicos nas províncias do Himalaia ou refugiados tibetanos que seguiram o Dalai Lama para a Índia. Mas é difícil encontrar estatísticas precisas sobre os convertidos budistas, porque muitos não são registrados como tais no censo.

“Muitas vezes, o pesquisador [do censo] nem sequer pergunta sobre religião quando ouve um nome que soe hindu”, disse Shiv Shankar Das, ex-pesquisador da Universidade Jawaharlal Nehru, que estudou o movimento neo-budista. Os ambedkaristas modernos esperam mudar isso: “Estamos tentando convencer o governo indiano de que não somos mais dalits, nem parte integrante do hinduísmo”, disse Rajratna Ambedkar.

O budismo ambedkarista é uma opção cada vez mais popular para os insatisfeitos dalits porque a conversão do hinduísmo ao islamismo ou cristianismo é agora ilegal em vários estados. O budismo é considerado uma “subseção” do hinduísmo no artigo 25 da Constituição indiana, o que é uma brecha útil para a conversão – e um obstáculo, porque é uma das principais razões pelas quais o establishment hindu não reconhece plenamente a identidade budista hoje. Ao longo da história indiana, o budismo foi penosamente absorvido pelo hinduísmo, com alguns argumentando que Buda era na verdade uma encarnação do deus hindu Vishnu. Este é um entendimento ferozmente contestado e quem se converte ao budismo ambedkarista especificamente se compromete a rejeitá-lo.

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Uma mulher participa de uma cerimônia de conversão na Índia (Krithika Varagur)

Em seu foco na desigualdade instituída por castas, o budismo ambedkarista compartilha preocupações do Buda histórico, o príncipe cuja inovadora rejeição das castas hindus, dos Vedas e dos rituais védicos estimularam sua jornada filosófica. Mas o ambedkarismo diverge das principais escolas budistas, como a Theravada e a Mahayana, que se desenvolveram nos últimos dois milênios. Ambedkar sumariamente descartou tudo, desde as Quatro Nobres Verdades até a meditação e a doutrina do renascimento, considerando-as interpretações não-canônicas que surgiram após a vida do Buda. Instituições ambedkaristas contemporâneas, como o Nagaloka Center em Nagpur, concentram-se em treinar ativistas sociais.

A atitude pode desviar-se completamente das escolas tradicionais. “O budismo em lugares como [as regiões do Himalaia de] Dharamsala e Ladakh é um budismo supersticioso, não o budismo real”, disse Prashik Anand, proprietário de uma pequena empresa e ambedkarista em Nagpur. “O Buda estava mais preocupado com o sofrimento das pessoas, não com coisas como pintura e meditação, que são em grande parte inúteis.” (Vale a pena notar que a escola tradicional Mahayana também enfatiza aliviar o sofrimento dos outros.)

“Há um aspecto social no budismo ambedkarista”, disse Mangesh Dahiwale, ativista veterano dos direitos dos dalits em Pune. “Não é apenas um caminho emancipatório para indivíduos. Achamos que não faz sentido você se tornar budista solitariamente enquanto sua sociedade é oprimida ”, disse ele. Isso contrasta com o uso popular do budismo no Ocidente, que é frequentemente orientado para conceitos individualistas como realização pessoal e paz de espírito.

O espírito ativista é central para o reavivamento ambedkarista. Considere dois recentes incidentes alarmantes de violência de casta: em Saharanpur, Uttar Pradesh, pelo menos 25 casas de dalits foram queimadas e uma pessoa foi morta durante tensões populares em maio de 2017. E em Una, Gujarat, quatro Dalits foram publicamente açoitados por retirarem a pele de uma vaca morta em 2016. Ambas as comunidades usaram o budismo como uma ferramenta de protesto. Em um gesto impressionante, os Saharanpur Dalits afogaram suas iconografias hindus em um canal após o incidente e 180 famílias se converteram ao budismo. Todas as quatro vítimas da Una planejam se converter ao budismo em 14 de abril.

A conversão está se tornando uma arma política. Uma famosa política dalit e membro do parlamento conhecida simplesmente como Mayawati ameaçou converter-se ao budismo com seus muitos seguidores se os membros do BJP “não mudarem seu comportamento costumeiro, desrespeitoso e casteísta contra os dalits”.

A força do movimento pode ter assustado o BJP de Modi, que recuou, procurando cortejar os votos budistas dalits de diversas maneiras. Em 2016, o partido mobilizou monges budistas para reunir votos nas eleições regionais, embora esse esforço tenha sido recebido com desprezo e protestos em pelo menos alguns distritos. O proeminente político dalit de Udit Raj, que se converteu em 2001, é agora membro do parlamento pelo BJP. Assim como Swami Prasad Maurya em Uttar Pradesh.

O BJP enfrenta um ardil-22 (i), disse Dahiwale, porque um partido fortemente hindu não consegue reconhecer que a religião está perdendo seguidores. “O budismo se tornou uma força em si mesmo, mas o governo não pode se opor diretamente, porque o budismo é uma das maiores exportações culturais da Índia”, disse ele.

Não está claro se os políticos budistas do BJP sentem alguma afinidade especial com o partido. Raj disse-me com franqueza que decidiu se juntar ao BJP em 2014 porque as perspectivas do partido pareciam estar aumentando. “Eu perambulei por 12 anos como independente, então pensei que deveria me juntar a um partido maior. Depois que Modiji foi eleito, pensei que uma “onda” Modi estava chegando, e senti que seu partido poderia me ajudar a ganhar uma vaga no parlamento para servir ao meu povo “, disse Raj. Em 2014, ele diz, participou de uma reunião em Nagpur dirigida por 22 líderes estaduais e pelo Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), um polêmico grupo de voluntários paramilitares nacionalistas hindus que deu à luz ao BJP. Eles coletivamente concordaram que ele deveria se juntar ao partido.

Tanto o RSS quanto o movimento budista ambedkarista surgiram e ainda estão baseados em Nagpur. Hoje em dia, nesta cidade, os membros da RSS, com seus chapéus pretos em forma de barco, uma marca registrada, compartilham as ruas com monges ambedkaristas usando robes. O RSS possui um dedicado grupo de divulgação aos budistas dalits. O presidente do grupo afirmou no ano passado que não tem agenda política, mas ambedkaristas mainstream dizem que ele impulsiona a controversa noção de que o budismo é uma subdivisão do hinduísmo em uma tentativa de ganhar os votos budistas dalits para o BJP.

“O RSS tem monges – monges falsos”, disse Santosh Raut, um professor universitário Ambedkarista em Hyderabad. “Alguns meses atrás eu fui a Bodhgaya (a cidade sagrada onde o Buda alcançou a iluminação) e conheci alguns monges, claramente do RSS, que estavam dizendo como Buda foi o nono avatar [ou reencarnação] de Vishnu”, disse ele. “Não foi muito convincente.”

Embora o budismo Ambedkarista esteja passando por um grande ressurgimento, a influência nacional do RSS permanece em pleno vigor através do governante BJP. À medida que a eleição presidencial de 2019 se aproxima, provavelmente nenhum dos dois perderá ímpeto, o que sugere mais interações tensas no futuro.

“Para cooptar os votos budistas ou os votos dos dalits, o RSS definitivamente se esforçará ainda mais no próximo ano”, disse Raut. “Mas, ironicamente, são suas ações que estão levando tantas pessoas ao budismo para começo de conversa.”

Reportagem original em inglês: https://www.theatlantic.com/international/archive/2018/04/dalit-buddhism-conversion-india-modi/557570/

NOTAS
(i) Um dilema insolúvel.

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