Qual a conexão entre o budismo e a limpeza étnica no Mianmar?

Como os budistas se envolveram em uma das piores crises humanitárias do mundo? Randy Rosenthal lança um olhar através da história para entender como uma religião de paz se converteu em justificativa para a violência.

“Não é o poder que corrompe, mas o medo. O medo de perder o poder corrompe aqueles que o controlam e o medo do flagelo do poder corrompe aqueles que estão sujeitos a ele”.

– Aung San Suu Kyi

Entendendo a crise no Mianmar

As escrituras do judaísmo, do hinduísmo e do islamismo justificam e, às vezes, até encorajam o uso da violência. Nos textos budistas, é exatamente o oposto. O capítulo dez do Dhammapada, uma antologia de versos atribuídos ao Buda, diz: “Tremem todos diante do castigo; a vida a todos é cara. A julgar por vós mesmos os outros, não mateis, não sede causa de crimes”. Outro verso diz: “Pois neste mundo a raiva nunca é apaziguada com outras ações enraivecidas. Ela é apaziguada pela não-raiva, essa é uma lei imutável e atemporal”. Um verso do Metta Sutta diz: “Com amor bondade para todo o universo, cultive um coração sem limites: acima, abaixo e em toda a volta, desobstruído, livre da raiva e da má vontade”. Este princípio de não-violência, consistente em todo o Cânone Páli – a coleção dos primeiros ensinamentos budistas – é em parte o motivo pelo qual muitos budistas estão profundamente perturbados pela atual situação no Mianmar – um país majoritariamente budista – onde, particularmente no estado de Rakhine, maciças violações de direitos humanos estão sendo sistematicamente cometidas contra o povo muçulmano rohingya.

Abraçando a Baía de Bengala na costa ocidental do Mianmar e separado do centro do Mianmar pelas montanhas Arakan, o estado de Rakhine é o lar de mais de um milhão de muçulmanos, a maioria pertencente ao grupo étnico rohingya, e mais de dois milhões de budistas da etnia rakhine que são etnicamente distintos da maioria bamar do país. A capital do estado é Sittwe, onde violência comunitária eclodiu em 2012 e as relações entre rakhines e muçulmanos foram rompidas. As coisas ficaram exponencialmente piores desde então; artigos recentes publicados no New York Times e na Al Jazeera expuseram valas comuns de rohingyas massacrados por tropas birmanesas em setembro de 2017, com ácido aparentemente usado para desfigurar os corpos irreconhecíveis. Em dezembro de 2017, os Médicos Sem Fronteiras estimaram que mais de 10.000 rohingyas haviam sido mortos no mais recente surto de violência, e que cerca de 700.000 estavam vivendo no exílio no Bangladesh e na Índia, fazendo com que o chefe de Direitos Humanos da ONU afirmasse que a situação era “um clássico exemplo de limpeza étnica”.

Não há evidências suficientes para afirmar que esteja ocorrendo genocídio, mas há evidências de estupro sistemático, trabalho forçado, restrições de movimento, restrições ao casamento e à reprodução, e prevenção do acesso à medicina e à provisões alimentares. Observadores internacionais dizem que a situação em breve evoluirá para genocídio se a comunidade internacional não intervir imediatamente. Como o Holocausto demonstrou, a limpeza étnica pode se converter rapidamente em genocídio. Antes de 1941, o esforço nazista de expulsar todos os judeus do Reich foi qualificado como limpeza étnica. A subsequente concentração e depois extermínio de judeus que começou depois que os EUA entraram na guerra já era claramente genocídio. Como Penny Green, Diretora da Iniciativa Internacional de Crimes de Estado (ISCI) na Universidade Queen Mary, em Londres, afirma: “Um genocídio pode começar muitos anos antes do verdadeiro extermínio”. Em abril de 2018, Green e a ISCI divulgaram um relatório argumentando que o governo do Mianmar é “culpado de intenção genocida para com os rohingyas”.

Seja genocídio ou limpeza étnica, está claro que violações aos direitos humanos contra os rohingyas vem ocorrendo no Mianmar, o que já é o bastante para invocar o Princípio de Responsabilidade de Proteção, em acordo aos capítulos VI, VII e VIII da Carta das Nações Unidas, que autoriza a comunidade internacional a intervir na soberania nacional do Mianmar. Para aqueles como nós que observam de longe, a crise nos força a fazer perguntas sobre o papel do budismo no mundo político.

No artigo do The New York TimesWhy Are We Surprised When Buddhists Are Violent?” [Por que ficamos surpresos quando budistas são violentos?], Dan Arnold e Alicia Turner escrevem “Como, muitos imaginam, poderia uma sociedade budista – especialmente monges budistas! – ter alguma coisa a ver com algo tão monstruosamente violento como a limpeza étnica que agora está sendo perpetrada contra a historicamente excluída minoria rohingya do Miamar? Os budistas não são supostamente compassivos e pacifistas?”.

Para entender melhor a questão, devemos primeiro começar com a narrativa do nacionalismo budista – a força ideológica motriz por trás da islamofobia que alimenta a violência contra os rohingyas. Do ponto de vista de um nacionalista budista, a história é a seguinte: Ao longo de décadas, muçulmanos rohingyas adentraram pela fronteira do Bangladesh, no ponto em que ela se encontra com o estado de Rakhine, e se estabeleceram em terras rakhine. Eles cresceram em número e diluíram a população budista, formando a vanguarda de uma cruzada para transformar o Mianmar em um país muçulmano. Portanto, ao contrário de outros muçulmanos no Mianmar, como o povo kaman, os rohingyas nunca foram cidadãos birmaneses e não merecem o status de cidadania.

Essa narrativa é conhecida como “o problema muçulmano”. Para cementar esta visão de que os rohingyas não são cidadãos birmaneses, eles são chamados de “Bengalis de Chittagong”.

Não há como fugir do fato de que homens vestindo mantos de monges budistas estão promovendo essa narrativa. O mais infame deles é Ashin Wirathu, o monge birmanês de 49 anos que foi capa da revista TIME em 2013 e foi o tema do documentário de 2017, The Venerable W., do cineasta francês Barbet Schroder. Como mostra o filme, Wirathu liderou centenas de milhares de seguidores em uma campanha violenta de limpeza étnica e alimentada por ódio, alegando que os rohingyas são “uma insurgência bengalesa apoiada pelos sauditas, cujo propósito é se infiltrar no país, destruir o budismo tradicional do Mianmar e estabelecer um califado”. Wirathu é um dos líderes da Organização para a Proteção da Raça e Religião, comumente conhecida por sua sigla birmanesa, Ma Ba Tha. Este grupo foi fundado em junho de 2013 e rapidamente encontrou o apoio de milhões de pessoas. O Ma Ba Tha e outros grupos nacionalistas budistas – não apenas no Myanmar, mas também no Sri Lanka – descrevem seu propósito como proteção e promoção do budismo através da pregação sobre a importância dos valores budistas, história, educação, locais sagrados e cerimônias. Em adendo a esta retórica benigna encontra-se a insistência em neutralizar as ameaças ao budismo, que eles afirmam vir dos muçulmanos.

No livro de 2016 Myanmar’s Enemy Within [O inimigo interno do Mianmar], o autor Francis Wade fala com um membro leigo deste grupo, que compartilha a narrativa que alimenta o pensamento do grupo. “Se a cultura budista desaparecer,” o membro disse, “Rangum se tornará como a Arábia Saudita ou Mecca… Pode ser a queda de Rangum. Pode ser a queda do budismo. Nossa raça será eliminada”. Embora o budismo não seja uma raça, o Ma Ba Tha muitas vezes confunde raça e religião, demonstrando que a preocupação mais profunda do grupo é a etnia.

Aqueles que acreditam nessa narrativa veem veracidade nela na história de demais nações outrora budistas – como a Malásia, Indonésia, Paquistão e Afeganistão – que foram “transbordadas” por muçulmanos. O Mianmar permanece 90% budista, sem que haja evidência de tal mudança. Então de onde vem a ideia de que o budismo vai desparecer?

A ascensão do nacionalismo birmanês

O budismo tem sido usado para consolidar a identidade nacional na Birmânia durante séculos. No século XII, o rei Anawratha usou escrituras budistas para unir grupos díspares do vale de Ayeyarwady e formar o Império de Bagan. Desde o início da nação, o Mianmar foi budista e de maioria étnica Bamar. A partir de então, os reis apoiariam a ordem dos monges – a sangha – e, em troca, os monges davam legitimidade à monarquia. Os monges incentivavam a lealdade à nação, mas também serviam como consciência do governo, certificando-se de que ele governasse de acordo com os princípios éticos budistas. Quando isso não aconteceu, os monges se revoltaram.

Um exemplo disso foi visto na Revolução de Açafrão de setembro de 2007. Quando o governo permitiu que os subsídios aos combustíveis expirassem, o preço dos bens subiu 500%, e os cidadãos protestaram. Quando os manifestantes foram violentamente reprimidos, os monges se uniram ao protesto virando suas tigelas de mendicância durante suas caminhadas de esmolas, impedindo que funcionários do governo ganhassem mérito dando esmolas. O protesto foi um gesto seriamente embaraçoso, e o governo militar reprimiu violentamente as manifestações, espancando e prendendo milhares de monges.

A ligação de 800 anos entre a monarquia e a sangha foi rompida em 1885, quando os britânicos invadiram a Alta Birmânia e a incorporaram à sua colônia indiana. Dissolvendo-se a fronteira entre os países, indianos hindus e muçulmanos moveram-se em massa – voluntariamente ou forçosamente – para a Birmânia, alterando permanentemente a demografia, particularmente de Rangum, onde muitos encontraram sucesso no comércio. Com a perda de um rei budista e a perda do favorecimento ao sistema de educação budista devido à promoção britânica do cristianismo, o ano de 1885 assistiu ao surgimento dos primeiros movimentos nacionalistas budistas.

O movimento moderno de meditação Vipassana surgiu desse movimento anticolonial, com o monge Ledi Sayadaw espalhando a ideia de que era dever de todo budista proteger e preservar o budismo meditando e estudando as escrituras budistas, ambas anteriormente praticadas apenas por uma pequena porção de monásticos. O movimento de Ledi Sayadaw foi pacifista, mas monges também lideraram rebeldes armados para  que atacassem tropas britânicas na parte alta de Mianmar durante a invasão britânica. Movimentos nacionalistas de independência surgiram nas décadas seguintes, e nos anos 20 e 30 um grito de guerra anti-colonial popular foi “Amyo, Batha, Thathana!” – que se traduz aproximadamente como “raça, língua e religião!”. A organização Ma Ba Tha derivou seu nome deste slogan, do qual é um acrônimo.

Essa narrativa – de que o povo birmanês precisa proteger o budismo de invasores estrangeiros – persiste há mais de um século, embora o inimigo identificado tenha mudado dos britânicos para os muçulmanos. O primeiro exemplo dessa mudança pode ser visto em uma manifestação de 10.000 birmaneses na Stupa Shwedagon de Rangum, em 1938, para protestar contra a escrita de intelectuais muçulmanos que foram acusados de insultar o budismo. Os protestos resultaram em ataques às comunidades muçulmanas em toda a cidade. Além dos movimentos antimuçulmanos, as décadas de 1930 e 1940 também viram a ascensão de sentimentos anti-cristãos e anti-hindus, o último culminando em uma série de tumultos anti-indianos. Todas essas incidências surgiram como parte de movimentos anti-coloniais e reforçaram a ideia de que é preciso ser budista para ser verdadeiramente birmanês.

People standing around a mass grave as workers uncover it.

Um importante fator contribuinte para a atual crise em Rakhine ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial. Sob ocupação japonesa, os budistas em Rakhine (então chamado de Arakan) foram recrutados para lutar como representantes dos japoneses. Os muçulmanos locais, em contraste, foram armados e mobilizados pelos britânicos como milícias independentes que realizavam ataques de guerrilheiros contra as forças japonesas. Isso significava que budistas e muçulmanos estavam lutando uns contra os outros, o que resultou em grupos separados geograficamente e “guetizados”, com os muçulmanos fugindo para o norte para evitar a violência anti-muçulmana das ofensivas japonesas, e os budistas fugindo para o sul para evitar a violência anti-budista das contra-ofensivas guerrilheiras. Após a guerra, ocorreram ondas de violência governamental contra os Rohingyas em 1954, 1962 (durante a tomada militar), 1977-78 (quando os militares forçaram os Rohingyas a portarem Cartas de Registro Estrangeiro, e mais de 200.000 foram compelidos ao Bangladesh), 1992, 2001 (em resposta à destruição de estátuas budistas pelo Talebã em Bamiyan) e 2003.

Podemos encontrar o rastro da história da atual crise no estado de Rakhine no golpe militar do país em 1962. A Birmânia alcançou a independência em 1948, mas depois de quatorze anos de governo constitucional, uma junta militar assumiu em 1962. A junta sistematicamente alimentou temores sobre o fim do budismo e o desmembramento da nação para cultivar a lealdade entre uma população ressentida. Mas eles também detinham o monopólio da violência e impediam cidadãos e monges como Wirathu de encorajarem distúrbios sociais. (Em 2003, Wirathu foi preso junto com 44 outros monges por usar o discurso de ódio para promover ataques a muçulmanos e a uma mesquita, e passou oito anos na prisão). Ironicamente, foi somente com a ostensiva transição para a democracia que começou em 2011 que a tensão religiosa pública entre budistas e muçulmanos surgiu novamente. Como Francis Wade escreve, a ideia era que “os movimentos de mudança democrática no Mianmar poderiam nivelar o campo de jogo, permitindo que comunidades que se sentiam há muito desprivilegiadas pelos militares fizessem grandes reivindicações à nação”. Temia-se que os muçulmanos em particular tirassem vantagem da liberdade democrática, e se o fizessem, os budistas sofreriam.

Um momento crucial veio em 1982 com a Lei de Cidadania, quando o governo divulgou uma lista oficial de 135 grupos étnicos, ou “raças nacionais” que detinham a cidadania do Mianmar. A lista excluía os rohingyas, cimentando seu status de apátridas. Um censo em 2014 foi então concebido para excluir as minorias “estrangeiras” do voto, e as eleições de 2015 resultaram em Aung San Suu Kyi tornando-se Conselheira de Estado, com grandes ganhos para a Liga Nacional para a Democracia (NLD na sigla em inglês) – e também na total ausência de muçulmanos no Parlamento do Mianmar pela primeira vez desde a independência.

Suu Kyi recebeu críticas generalizadas por seu silêncio a respeito da questão rohingya – especialmente à luz de seus antigos escritos e discursos. Em uma carta aberta de 1989 à Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, por exemplo, Suu Kyi escreveu: “O principal objetivo da Liga Nacional para a Democracia (NLD) e outras organizações que trabalham para o estabelecimento de um governo democrático na Birmânia é trazer mudanças sociais e políticas que garantirão uma sociedade pacífica, estável e progressista, onde os direitos humanos, conforme delineados na Declaração Universal dos Direitos Humanos, são protegidos pelo estado de direito”. Depois, em um discurso que ela deu no estado de Kachin em 27 de abril de 1989, Suu Kyi declarou: “Se nos dividirmos etnicamente, não alcançaremos a democracia por muito tempo”. Apesar do aparente alcance da democracia no Mianmar, continuam ocorrendo violentas divisões étnicas sob a liderança de Suu Kyi e da NLD.

Os últimos surtos de violência também são ajudados pela globalização. Com a internet, fanáticos islamofóbicos podem articular as antigas narrativas birmanesas sobre o Islã com a narrativa contemporânea de jihad global. Em The Venerable W. – filmado antes da eleição [estadunidense] de 2016 – Wirathu diz: “Nos EUA, se as pessoas querem manter a paz e a segurança, eles têm que escolher Donald Trump”. Através de tais comentários, e do uso agressivo das mídias sociais e propagandas de DVD, Wirathu demonstra ter consciência do crescente nacionalismo xenofóbico em todo o mundo. Ele está ciente do 11 de setembro; dos ataques em Paris, Berlim, Nice e Bruxelas; do Brexit; de Marine Le Penn na França; dos neonazistas na Alemanha; e dos governos nacionalistas de direita que governam a Hungria, a Polônia e outras partes da Europa. Ele sabe que está se aproveitando de uma maior difamação global do Islã – uma narrativa do Mundo vs. o Jihadismo Islâmico. Esse enquadramento é possível graças à internet, que só se tornou amplamente disponível no Mianmar em 2011. Wirathu parece estar comprometido em interligar sua cruzada regional a um movimento global mais amplo. Em 2014, ele viajou para Colombo, capital do Sri Lanka, para assinar um memorando de entendimento entre o grupo de monges islamofóbicos do Sri Lanka, Bodu Bala Sena (Exército do Poder Budista), e o 969 (o precursor do Ma Ba Tha).

Todas essas condições – a história colonial, o surgimento da internet, a narrativa global anti-islâmica – fornecem um terreno fértil para a violência e a perseguição. Uma questão permanece: os crimes contra a humanidade no Mianmar são um subproduto trágico de circunstâncias aleatórias que não são atenuadas pelas doutrinas pacíficas do budismo, ou a violência é parte de algum esforço conjunto de um ator ainda não mencionado, budista ou não?

Por trás da atual crise

A crise atual começou em 2012. Aqui vai um breve cronograma de eventos:

28 de Maio de 2012

Uma mulher rakhine de 26 anos, Ma Thida Htwe, sofreu um estupro coletivo e foi morta por três homens que a mídia estatal identificou como “muçulmanos bengalis” ou “seguidores do islamismo”. Esses homens foram prontamente presos.

3 de Junho de 2012

Poucos dias depois, trezentos homens rakhines atacaram um ônibus que transportava muçulmanos na cidade de Taungup, espancando dez passageiros até a morte. Esses muçulmanos não eram Rohingyas, mas missionários de áreas do norte que não ficam no estado de Rakhine.

9 de Junho de 2012

Multidões de rohingyas retaliaram atacando propriedades de rakhines em Maungdaw, incendiando casas. Multidões de rakhines, por sua vez, incendiaram Nasi, o bairro muçulmano de Sittwe, empurrando dezenas de milhares de habitantes rohingyas para fora de Rakhine e para acampamentos; ou para o exílio no Bangladesh (alguns estimam até 120.000). Essas multidões foram supostamente trazidas de outros lugares para o estado de Rakhine. Foi dito que elas estavam bêbados e/ou sob efeito de drogas.

Outubro de 2012

Uma segunda onda de violência ocorreu com ataques aparentemente organizados às comunidades muçulmanas em nove municípios do estado de Rakhine.

Ocorreram ataques de machados e incêndio de casas de ambos os lados, mas apenas a violência dos rohingyas foi “classificada como terrorismo” e atribuída à “jihad”. Desta forma, esses pequenos distúrbios locais – de matança intercomunitária, não incomum no sul da Ásia – de repente se tornaram parte de uma crise global.

Wirathu e outros monges de seu grupo 969 organizaram um boicote completo contra os muçulmanos, proibindo os budistas de terem qualquer interação com eles. Qualquer “simpatizante” dos muçulmanos também seria perseguido, e um budista que continuou fazendo negócios com muçulmanos foi espancado até a morte. A proibição de monges contra os muçulmanos estabeleceu o precedente para uma islamofobia que foi além dos rohingyas e passou a incluir cidadãos oficialmente reconhecidos do Mianmar.

Março de 2013

Violência extrema irrompeu na cidade de Meikhtila, no centro do Mianmar – onde tanto as comunidades muçulmana quanto budista são em grande parte Bamar – depois que um casal budista alegou que um dono de uma joalheria muçulmana lhes vendeu um grampo de ouro falso e uma briga irrompeu entre eles. Enquanto a polícia assistia, lojas de propriedade de muçulmanos foram queimadas e muçulmanos foram atacados; mais tarde, um grupo de muçulmanos derrubou um monge budista de sua bicicleta, espancando-o no chão e incendiando seu corpo. Isso levou a uma completa carnificina, com grupos trazidos de fora novamente liderando um massacre total contra os muçulmanos na cidade, resultando em um número de mortos de quarenta e três pessoas, a maioria morta por paus e facas, e 830 prédios destruídos. (Novamente, os homens que compunham as multidões estariam bêbados e/ou sob efeito de drogas).

Junho de 2013

Após o relato de um estupro de uma mulher budista por homens muçulmanos kamans em Thandwe, a violência irrompeu novamente, não apenas contra os kamans, mas também contra rohingyas bem distantes do incidente.

Agosto de 2017

Rebeldes armados rohingyas – do Exército de Salvação Rohingya de Arakan (ARSA) – lançaram um ataque coordenado a trinta postos da polícia de fronteira, matando uma dúzia de forças de segurança. Isso levou o exército birmanês a retaliar os rohingyas em todo o estado de Rakhine com uma “campanha de terra arrasada”.

Março de 2018

Em meados de março, mais de 6.000 rohingyas haviam sido mortos e mais de 655 mil haviam fugido para o Bangladesh. Mais de cinquenta e cinco aldeias haviam sido completamente destruídas, removendo vestígios de edifícios, poços e até vegetação. Podemos ver aqui que o exército do Mianmar aprendeu com o exército israelense, que muitos oficiais do Mianmar admiram; Quando perguntado sobre como responder aos rohingyas, o Dr. Aye Maung, chefe do Partido de Desenvolvimento de Nacionalidades Rakhines, disse: “Precisamos ser como Israel”.

Atualmente

A Anistia Internacional diz que os rohingyas que permanecem em suas aldeias e acampamentos estão sendo sistematicamente expostos à fome para forçá-los a fugir do país. É uma situação propícia para o genocídio.

Em todos os casos de violência contra muçulmanos, relatos de participação da polícia nos ataques levantaram suspeitas de um vínculo entre a multidão e o governo. No livro de 2016 de Azeem Ibrahim, The Rohingyas: Inside Hidden Genocide [Os rohingyas: por dentro de um genocídio esquecido], Ibrahim diz que a violência no Mianmar está intimamente relacionada à tensão interétnica no Sri Lanka e na Tailândia. A principal diferença no Mianmar, ele escreve, é que vários grupos budistas proeminentes estão conduzindo ativamente a violência antimuçulmana, como  o Ma Ba Tha. Então Ibrahim faz a chocante afirmação de que “há evidências crescentes de que a organização extremista budista Ma Ba Tha foi estabelecida pelos militares como uma base de poder alternativa”. Ele sugere que o grupo é uma “organização de fachada” para os militares. Ele continua: “Com efeito, os militares estão apoiando diretamente dois grupos diferentes no Mianmar contemporâneo”, o USDP (seu partido político) e “sua própria organização de extremistas budistas que oferecem os meios para canalizar apoio eleitoral ao USDP e criar violência que mais tarde pode ser usada para justificar uma intervenção militar”.

Ibrahim explora a origem da conexão entre o governo e o Ma Ba Tha. A organização não existia antes da abertura do país em 2011. Ibrahim escreve que os monges que foram presos durante a Revolução de Açafrão em 2007 receberam posteriormente oferta de dinheiro e patrocínio estatal para se juntarem ao Ma Ba Tha e promoverem a sua mensagem central de ódio a todos os muçulmanos. Essas alegações reveladoras baseiam-se em um artigo de Emanuel Stoakes, “Monks, Powerpoint Presentations e Ethnic Cleanings“, publicado na Foreign Policy em 26 de outubro de 2015.

Em seu artigo, Stoakes entrevista um monge anônimo que afirma que após sua libertação da prisão, ele teve uma reunião com três funcionários do governo e foi-lhe oferecido dinheiro para se juntar ao Ma Ba Tha e pregar retórica anti-muçulmana. Ele é um dos quatro monges líderes da Revolução de Açafrão que afirmam que o governo fez ofertas semelhantes a eles. Stoakes também produziu um documentário investigativo com a Al Jazeera, “Genocide Agenda”, que foi ao ar em outubro de 2015. No filme, um anônimo líder monge explica a situação sem rodeios: “Gradualmente, monges da Revolução de Açafrão terminaram no Ma Ba Tha”. Ele esclarece ainda mais exatamente o que alguém que está tentando entender a situação precisa saber: “O Ma Ba Tha é controlado pelos militares. Quando querem começar um problema a qualquer momento, é como apertar um botão. Eles vão ligá-lo ou desligá-lo quando quiserem”.

O documentário da Al Jazeera apresenta outros monges líderes da Revolução de Açafrão que afirmam que Wirathu trabalha para o governo. Estes monges especificam que Wirathu os chamou em seus mosteiros depois que eles foram libertados da prisão em 2011, e os convidou para irem vê-lo. Quando eles foram, disseram que ele tentou recrutá-los para se juntarem à sua cruzada anti-muçulmana com a oferta de um escritório completo com um laptop conectado à Internet, um telefone e um pagamento de US$ 1.000 (num país com renda per capita de US$ 1.195). O filme também mostra uma gravação de um celular – realizada secretamente – de uma reunião entre funcionários do governo e religiosos do Ma Ba Tha. Então, um anônimo que era conhecido de Wirathu alega que a agência especial de Rangum (polícia secreta) trabalha em estreita colaboração com Wirathu, dizendo que viu seus membros no mosteiro de Wirathu em Mandalay. Outra evidência é vista em uma apresentação em Powerpoint usada por militares em uma sessão de treinamento em 2012 na capital Naypyidaw, intitulada “Medo de perder sua raça,” uma apresentação onde se encontra a mesma linguagem anti-muçulmana usada por Ma Ba Tha, incluindo a conspiração sobre um complô muçulmano para extinguir o budismo e os budistas. Outros documentos que circularam entre autoridades do governo e obtidos pela Al Jazeera alertam sobre complôs muçulmanos para estuprar mulheres budistas, iniciar tumultos e realizar atos terroristas, incluindo intenções de “cortar a cabeça de funcionários de departamento”.

O ponto principal do documentário é que, apesar do aparente movimento em direção à democracia, a violência étnica é engendrada pelo governo na tentativa de manter seu poder. Com base nas evidências apresentadas, parece que as erupções de violência contra os rohingyas e outros grupos muçulmanos em todo o Myanmar foram organizadas e planejadas, e não consequências espontâneas, comunitárias ou não intencionais da democratização. Embora o governo tenha descartado quaisquer alegações de suas ligações com a violência como “absurdas”, escreve Stoakes, “as evidências obtidas pela Al Jazeera mostram conclusivamente que a recente onda de ódio antimuçulmano tem sido tudo, menos aleatória. Na verdade, é o produto de uma campanha governamental organizada, claramente destinada a promover a instabilidade e minar a oposição, agitando as forças do nacionalismo militante”.

Stoakes observa responsavelmente que nenhuma dessas evidências é uma prova clara da conexão entre o governo e Ma Ba Tha, mas são, no entanto, esclarecedoras. Se o governo corrompeu homens vestindo mantos de monge, então o budismo não está sendo usado como um grito de ódio e exclusão, mas apenas como um disfarce para isso.

Nesta crise, o termo “budista” é usado para designar identidade cultural, não uma crença ou prática religiosa. Alguém que se identifica como budista não segue necessariamente os ensinamentos do Buda. Mesmo na época do Buda, havia “monges falsos” que tentavam se juntar à sangha. Estes não eram verdadeiros monges, mas meros “homens com mantos amarelas”, e foram expulsos de reuniões da sangha. Devemos entender a situação no Mianmar como um conflito cultural em vez de um conflito religioso. Como escreveu Azeem Ibrahim, é a natureza exclusiva da tradição Theravada que frequentemente leva à “violenta tensão interétnica no Sri Lanka e na Tailândia, assim como no Mianmar”, não o budismo em si.

O governo militar do Mianmar está usando cinicamente o budismo para manipular as pessoas a se comportarem com violência e ódio, ao invés de compaixão e generosidade. Pela minha experiência, as conversas a respeito do Mianmar tendem a entrar no debate sobre se o budismo é uma religião não violenta. Talvez devêssemos deixar o budismo fora da conversa. Para se concentrar em abordar a situação real com mais eficácia e responsabilidade, é importante compreender as complexas questões políticas e étnicas mais profundamente. Com uma compreensão mais profunda, podemos ser capazes de nos envolver com a situação de forma mais eficaz.
Texto original: https://www.lionsroar.com/what-does-buddhism-have-to-do-with-the-ethnic-cleansing-in-myanmar/

Traduzido por Tiago da Silva Ferreira

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